Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

29 de Julho de 2016, 16:00

Por

As primeiras críticas do “establishment” à globalização

[O comércio livre é um sistema em que] alguns trabalharam e outros, sem trabalho, gozaram de uma grande parte dos frutos [desse trabalho]… Garantir a cada trabalhador todo o produto de seu trabalho , ou o mais próximo possível [disso], é dos mais dignos objectivos de qualquer bom governo.

Abraham Lincoln[1], citado pelo site LeeRockwell.com

Um dos consensos académicos e de política económica que dominou as últimas décadas, tanto à direita como à esquerda (em particular, o “third way” de que Blair e Bill Clinton foram os expoentes máximos) é a ideia de que o livre comércio e, em consequência, a globalização, seria benéfica não só para os países emergentes, que exportam mais, mas também para os países desenvolvidos.

E é um facto que a onda da globalização se traduziu na melhoria das condições de vida de centenas de milhões de pessoas, sobretudo no extremo oriente.

Este consenso tem os seus fundamentos teóricos. Muitos economistas, notavelmente, Paul Krugman, investigaram e defenderam, ao longo de décadas, os benefícios do comércio livre e da globalização. A teoria económica tende a sugerir que o comércio livre traz benefícios, em certas condições, mas que o comércio livre tem efeitos redistributivos: podem existir “perdedores” (os quais devem ser compensados pelos “ganhadores”).

Em Março, na sequência de críticas de Bernie Sanders ao comércio livre (e às credenciais em defesa do comércio livre de Hillary Clinton), Paul Krugman publicou uma coluna e um post no seu blog no New York Times, em que, criticando a posição de Bernie Sanders, mas também a posição de muitos promotores da agenda do comércio livre, defende a interrupção ou a suspensão na aprovação de novos tratados internacionais de comércio livre, nomeadamente o tratado Transpacífico, que considera não trazer benefícios para os EUA.

Mais recentemente, Stephen Roach, defensor do comércio livre, que ganhou proeminência internacional como economista-chefe do banco norte americano Morgan Stanley, agora afiliado com a Universidade Yale nos EUA, reconhece numa coluna no prestigiado Project Syndicate que a resposta de eleitorados do mundo desenvolvido, nas primárias nos EUA, mas também no referendo sobre o “Brexit”, deve conduzir a uma reavaliação dos defensores do comércio livre e a soluções concretas que respondam aos problemas da globalização.

Estes notáveis, que não pretendem ser revolucionários, mas que são dos primeiros a adaptarem-se, calibrando a sua mensagem, reconhecendo, ao fim e ao cabo, que o consenso está a mudar e que a verdade que se tinha por absoluta provavelmente irá sofrer mudanças.

Não fosse essa a natureza do conhecimento: não está escrito em pedra…

 

 

 

[1] A citação de Abraham Lincoln foi beber inspiração à obra de Eduardo Paz Ferreira, “Por uma sociedade decente”, Lisboa: Marcador, 2016.

Comentários

  1. As Nações Hipócritas (Bad Samaritans) é um livro interessante que apresenta factos históricos para tentar provar que o proteccionismo criterioso e transitório trouxe benefícios a muitas nações insuspeitas, como a Coreia do Sul e a Finlândia.
    Não direi que prova taxativamente esse ponto de vista mas recomendo vivamente.

  2. Se a ideia é que a Economia Política é, ou deve vir a ser, uma ciência talvez seja de prestar atenção aos factos e não ao que os bonzos afirmaram, ou afirmam.

    E já que falo nos bonzos e no que os ditos afirmam talvez seja de tentar verificar em que medida as suas afirmações têm a ver com ciência, com ideologia ou com as agendas políticas, dos próprios ou dos seus patrocinadores.

  3. A globalizaçao é hoje o bode expiatorio para os nossos males de desemprego e desigualdades, mas quando se pensa nos milhoes de postos de trabalho que têm sido criados na Europa e na America e que hoje dependem do comercio internacional e do crescimento economico do paises emergentes, só podemos concluir que historia nao está bem contada e que é tempo dos populistas e nacionalistas dos varios matizes se deixarem da mantra das soluçoes simplistas para problemas mais complexos. Os trabalhadores franceses da Airbus ou os portugueses da Zara precisam seguramente de explicaçoes mais convincentes.

    1. É factualmente reconhecido que a globalização fez um melhor trabalho a eliminar emprego no mundo ocidental do que a criá-lo. Ela não é o bode espiatório, ela é o modelo geo-político e económico em que todos vivemos, por isso o que corre de bem e de mal no mundo deve, sem dúvida, ser enquadrado nas políticas que esta permite.

      Só a globalização permitiu a desindustrialização do Ocidente e a fácil distribuição de produtos agrícolas, metais e matérias primas entre os continentes. Só com ela foi possível interligar os maiores bancos e monopólios financeiros da maneira que hoje vemos, o que resultou na crise de 2008 e em toda a austeridade que ainda hoje se vive e da qual não conseguimos sair. Porque sem agricultura, indústria, controlo sobre a moeda, fronteiras, taxas à importação e com cada vez menos empresas públicas para vender à China e tirânos africanos, não sobra muito para relançar a economia de países de segunda ordem no Ocidente.

      Note-se que isto não são opiniões, são factos documentados. Mas se o padrão de aceitação for uma nação de funcionários da Zara, ou empregados a recibos verdes que pouco mais ganham do que o salário mínimo oferecido por uma empresa estrangeira que apenas emprega em retalho e distribuição, sem deixar verdadeira riqueza no país, então tudo bem.

    2. D.Wolf,
      A Inditex/Zara fabrica em Portugal muitos dos seus produtos que sao exportados e vendidos nas lojas Zara em Pequim, Jacarta, Banguecoque, Toquio ou Nova Iorque. A zona euro no seu conjunto tem balança comercial excedentaria com o resto do mundo, ie exporta mais em valor do que importa; beneficia portanto do crescimento dos mercados externos, designadamente dos paises emergentes. Mas se queremos vender aos paises emergentes temos tambem de abrir o nosso mercado aos seus produtos para que eles tenham divisas para pagar os nossos avioes, texteis ou champanhe. A Europa e America nao se desindustrializaram, têm é menos gente empregada na industria, o que é diferente, e no entanto, sao bem mais ricos em PIB per capita que ha duas ou tres decadas atras. Claro que a concorrencia e deslocalizaçao de fabricas criam problemas de desemprego por vezes graves, mas é tambem facto que muitos milhoes de empregos têm sido criados como provam as taxas de desemprego a niveis historicamente baixos nos EUA (4,9pc) e em varios paises europeus. Nao vejo como um regresso ao protecionismo possa ser cura para os nossos problemas de crescimento e emprego, e nao creio que seja essa a soluçao proposta por Krugman e a generalidade dos economistas que, tanto quanto sei, advogam antes sistemas adequados de proteçao social e apoio å formaçao e reinserçao profissional.

    1. O Daniel Ortega fez sei lá bem o quê? E depois? Que tem uma coisa a ver com a outra?

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