Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

28 de Julho de 2016, 08:00

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Os Jogos Olímpicos

vagas-abertas-rio-2016-emprego-temporario-nas-olimpiadas-4Estamos nas vésperas dos Jogos Olímpicos (JO) do Rio de Janeiro. Sempre me fascinou este planetário evento desportivo, ainda que cada vez mais desvirtuado quanto aos seus ideais fundacionais.  Aprecio, sobretudo, a natureza universal e jubilosa do encontro e o eclectismo desportivo que, ao menos por estas alturas, nos permite ver modalidades tão marginalizadas, quanto deslumbrantes. Lembro-me da sofreguidão com que lia os resultados dos primeiros jogos de que tenho memória (Roma, 1960) e de como vibrei com a medalha de prata dos irmãos Quina em vela. Ou da primeira integral cobertura televisiva na Cidade do México (1968) onde Dick Fosbury imortalizou o “flop” como nova técnica para o salto em altura que substituiu, progressivamente, a do rolamento ventral.

Com o tempo, o dinheiro sem cor descaracterizou, por completo, as cinco cores dos anéis olímpicos. Mesmo assim, e enquanto competição de múltiplos desportos, as Olimpíadas ainda são um momento marcante na vida dos atletas.

Na sua origem, “o Olimpismo combina de forma equilibrada as qualidades do corpo, da vontade e do espírito. Aliando o desporto à cultura e educação, o Olimpismo é criador de um estilo de vida fundado no prazer do esforço, no valor educativo do bom exemplo e no respeito pelos princípios éticos fundamentais universais”. Deveria, pois, ser uma oportunidade para praticar o desporto como espaço de ética intensiva. Do espírito de fair play, decência, integridade, lealdade, exemplaridade, disciplina, solidariedade, autenticidade e orgulho de pertença.

Para mim, JO são, em primeiro lugar, atletismo, ginástica e outros desportos pouco vistos. Outros, como o futebol e o ténis (e não só) estão a mais, abastardando o espírito olímpico com critérios abstrusos de selecção e de hiperprofissionalismo dos atletas.

Este ano, teremos JO com o aumento inadmissível de trânsfugas de nacionalidades a troco de dinheiro e outras prebendas, e sem a Rússia minada pela trafulhice do doping. Com este caso, podemos, de algum modo, perceber o que foi, durante décadas, a política criminosa de países do bloco soviético manipulando atletas e hegemonizando recordes através de uma política “oficial” de doping. No tempo da RDA, URSS, e seus satélites havia a “batota de Estado”, ou seja, usavam-se meios ilegítimos para se alcançarem resultados de pretensa superioridade de ideologia, ainda que usando até ao tutano jovens atletas.

Agora, o doping é transversal. A mais pérfida batota nos desportos de alta competição é a dopagem associada a todas as técnicas para a encobrir ou dissimular, num enredo de crescente complexidade tecnológica e científica, e que envolve muita gente em teias organizadas. Já não depende de ideologias, regimes políticos, desportos. Advém, sobretudo, de uma obsessão competitiva que tudo leva à frente, em função de interesses de momento, de dinheiro e de vãs ilusões.

Outra situação que trai completamente o espírito olímpico é a do futebol. Começou pelo artificialismo de, até à queda do muro de Berlim, terem ganho quase sempre as selecções “amadoras” do leste europeu (de 1950 a 1990: 9 medalhas de ouro em 10 possíveis. Depois: zero…). Com um estatuto híbrido e feito à medida, se forjam agora selecções falsas e “feitas” para enganar tudo e todos. Este ano, no Rio de Janeiro, talvez devesse ser uma boa oportunidade para o fim desta farsa do futebol olímpico.

E, a esse propósito, coitado de Rui Jorge que se viu em palpos de aranha para constituir uma representação com o mínimo de dignidade. Negas dos clubes, negas de jogadores, inacção federativa. Filhos e enteados, de um lado. Pais e padrastos, do outro.

Comentários

  1. Lembrei de uma pequena alteração que vi no meu tempo e pegou. Correr os 100 metros sem respirar.

    Que saudades da escola… Com férias de 3 meses em anos de jogos… Ia da volta a França aos jogos olímpicos tudo intercalado com lanches de papos-secos de marmelada e queijo flamengo e leite com mucambo tudo servido a horas pela avó ao reizinho posto em frente à televisão a preto e branco. É o que os xutos & pontapés dizem: a vida é sempre a perder!

  2. Também me lembro de o meu pai relatar a novidade de um tal de Dick fosbury saltar em altura com as costas viradas para a trave. Parece que foi o único nesse ano, e mudou tudo. Também parece, que foi recentemente que se mudou a pernada do nadador de mariposa. Até há bem pouco tempo as pernas no estilo mariposa faziam o movimento de bruços (rã).

    No meu tempo as mudanças que vi nunca foram permitidas. Vi duas: na natação fazerem 50 metros de baixo de água (hoje proibido) no lançamento do dardo houve um que o lançava em rotação tipo martelo, também não foi aceite porque já existia o martelo. Também adoro jogos olímpicos um tipo de quaresma desejada do odioso futebol. Só é pena que demore quatro anos parara quaresma.

  3. Tenho pena, de si e dos que se amarraram à bandeira do progresso que os mercados arrastam e atropelam no Olimpo. Afinal é de “progresso” que se trata, o dopping abre novos mercados, descobre novas profissões, novos padrões de vida, o dopping cria empregos e favorece a promoção de escolas profissionalizantes no universo das farmacêuticas, os ginásios e os fisioterapeutas, tanto progresso numa só fileira. Mas há mais, o progresso promove-se também na fiscalização dos anabolizantes, uma coisa e o seu contrário, quantos peritos a fazer rastreios aos atletas, quanta burocracia acorrentada aos processos e procedimentos, emprego, empregos e mais empregos, viva o progresso, afinal não é isto um regime liberal? E já agora Bagão Félix… Armstrong, o ciclista, Ben Johnson, o sprinter e tantos outros, também eram russos?

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