Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

27 de Julho de 2016, 08:35

Por

O gosto do pecado em Bosch

Hieronimus Bosch, ou Jerome van Aeken (c1450-1516), morreu há quinhentos anos e é agora homenageado por uma exposiçãonun no Museu do Prado, em Madrid.

A sua pintura é excepcional, pela iconografia única, pelo simbolismo revelado e escondido das sua metáforas, pela imaginação transbordante que alguns entenderam como exprimindo os sentidos de artes ocultas, pelo detalhe minucioso e pela força crítica da descrição da humanidade e das suas alucinações.

Surpreendentemente benquisto pelos poderes do seu tempo, a sua obra foi acolhida por Filipe II e assim ficou protegido de qualquer interpretação oficiosa e punitiva – mesmo quando incluía na denúncia da corrupção por exemplo uma caricatura de certa Igreja, como se vê no detalhe ao lado (clique para ampliar). Poucos se poderiam atrever a tanto, no seu tempo.

Essa liberdade foi explorada por Bosch para criar o mais provocador dos projectos artísticos a partir de uma interpretação livre dos textos tentaçõesbíblicos, precisamente o que seria mais vigiado. É então por devoção ou por transgressão que nos pinta essas paisagens de tentação no paraíso e de pecados no caminho até ao Juízo Final?

O “Jardim das Delícias”, a sua obra mais reconhecida, é manifesto de cepticismo desiludido sobre a racionalidade humana, pois todos se deixam levar pela luxúria, ou é uma ironia sobre as pulsões humanas, algumas descritas com afecto?

Não sabemos nem podemos saber do que pensava o pintor, só do que vemos.

Mas olhe então para as reproduções dos quadros. Estão cheios de símbolos da vida e da criação e não poupam a realidade dos poderes da terra. Nas “Tentações de Santo Antão”, um quadro do Museu de Arte Antiga, em Lisboa, encontra uma descrição dos poderes sociais, a aristocracia, a igreja, os seus ministros. Mas, nesse como noubosch 3tros, há descrições do amor dentro de uma redoma: é denúncia da tentação, como as autoridades aceitaram ver, ou é também, ironicamente, a exibição do prazer? É um retrato da vida libertada ou uma condenação da vida?

É ainda de registar que o paraíso é solitário, nele chilreiam passarinhos e passeiam animais encantadores. Mas é solitário. Onde estão as construções artificiosas, onde estão as pessoas, onde cavalgam as paixões, é onde está a tentação e onde se pode cair no inferno.

Duzentos anos antes, na “Divina Comédia”, Dante descreve com palavras – mas registe-se a importância que a representação gráfica teve para a divulgação da sua obra – este percurso entre inferno, purgatório e paraíso, mas o seu paraíso é distinto do de Bosch: é o lugar do misticismo. Na pintura de Bosch, em contrapartida, esse misticismo invade todos os terrenos da imaginação e só nos podemos perguntar se não é na vida corrente, como atestam os dois últimos detalhes aqui reproduzidos, que se se encontra o prazer. Essa seria a mais pertuBosch_detailrbante e fascinante das insinuações.

Será isso que vêem os nossos olhos, já desabituados do deslumbramento do paraíso, ou é o que nos queria dizer o pintor? Mais uma vez, não sabemos.

Mas ele aí está, nestes trípticos magníficos, a mostrar que o humano é uma invenção sem freio e que há mais entre a terra e a lua do que sonhos na nossa imaginação.

Comentários

  1. Boa posta!

    A referência final a shakespeare está incorrecta (talvez propositadamente) a separação é entre terra e céu. Na realidade nem há separação o “entre” também está a mais.

    Agora ao que interessa, parece que está cada vez mais claro na história da arte que o Bosch era um drogadão de primeira classe e que os seus quadros são fruto de alucinações sob o efeito de drogas, porcos a voar e trinta por uma linha. Talvez cogumelos do género Amanita Moscaria (são mais tóxicos que alucinogenicos, mas tudo o que é tóxico pode produzir alucinações) ou datura inoxia a famosa erva do diabo (ainda mais perigosa e causadora de muitas mortes). Fala-se nestas por serem os alucinogenicos europeus que se sabe serem consumidos na Europa há centenas ou mesmo milhares de anos e porque muitos elementos dos quadros do Bosch serem recorrentes aos psiconautas de todos os tempos. Acho que até ovnis aparecem nos quadros do menino.

    1. Este blog só atingirá todo o seu potecial quando transferirem o Adriano das caixas de Comentários para os artigos principais. O homem tem a melhor pena da internet.

  2. Esta incursão de Louçã na arte diz bem da fórmula mágica que envolve o paradoxo numa teia de aceitação dos demónios. ” há mais entre a terra e a lua do que sonhos na nossa imaginação”, e a Louçã de demonstrar que o humano, sendo uma invenção sem freio, pode continuar e em toda a impunidade a subalternizar o sonho diante da virtude e do paradoxo. Bosch descreve na sua arte as limitações do humano, que não consegue nunca penetrar na essência do sonho e torná-lo absoluto, soberano, deixando reiteradamente que o paradoxo se instale e degenere em luxuria e despotismo religioso, mas Louçã prefere encurralar-nos na ideia de que “não sabe «nem sabemos» o que pensava o pintor”. Fantástico, Louçã fala por ele e por nós, o que, numa linguagem clara e objectiva, nos envolve numa teia de aceitação do destino precário que nos propõem os homens que não sonham. Louçã bem poderia figurar na 2ª tela aqui representada, ao lado da mulher que mendiga de prato na mão, mas cuja cauda do vestido se investe num nó atraente e mortífero que acaba em forma de cauda de réptil, não nos sugere aqui Bosch, uma metáfora ao paradoxo e à forma como os humanos se adornam de virtudes em detrimento dos sonhos?

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