Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

25 de Julho de 2016, 08:58

Por

A CGI (Carga Geral de Impostos), ex-CGD

É difícil entender a “saga” da Caixa Geral de Depósitos (CGD) nesta fase de transição gestionária. Provavelmente, até poderia constar de um manual de “como não proceder”. Uma futura ex-administração que, embora já reduzida, lá se arrasta até à guia de marcha, sendo, entretanto, objecto de todas as sevícias no teatro político e sem qualquer respaldo do accionista. Uma indigitada administração tornada pública há meses, pelo menos no que se refere ao seu presidente, mas que continua sem ter luz verde das autoridades regulatórias, segundo se pode inferir das notícias. Ou seja, por tempo demasiado e numa instituição bancária fundamental e pública, há uma administração que já não administra e uma administração que ainda não administra.

Passando ao lado da extensa composição do presuntivo CA (sobre a qual já aqui escrevi) e da conferência de imprensa do ministro das Finanças – uma hora e meia antes de um jogo de Portugal – onde nada anunciou de concreto, continuamos também sem saber quais as efectivas necessidades de capital da CGD, entre cobertura de imparidades, coberturas de rácios de solvência e “almofadas” de segurança mais ou menos discricionárias na razão directa das exigências dos indigitados novos gestores. Apenas lemos, sem desmentidos, que o BCE acha irrealista o plano apresentado (por quem? Pelo futuro CA? Pelo accionista por via do M. Finanças? E com que intervenção do Banco de Portugal? Feito por iluminada consultora? E com que custo e com que conhecimento de matéria reservada?). Assistimos diariamente ao jogo de palpites de “quem dá mais” para a recapitalização da CGD: 2, 3, 4, 5 milhares de milhões. Como é delirante falar-se de tanto dinheiro quando o seu dono são os actuais e futuros contribuintes! A CGD está a transformar-se na CGI, Carga Geral de Impostos.

Politicamente, é o costume: o PS lança as culpas sobre o PSD, o PSD responsabiliza o PS, o PCP alude a manobras indirectas para futura privatização, o BE exalta o virtuosismo dialéctico da gestão pública, e até o Presidente da República anuncia(?), em 5 de Julho, o prazo para a investidura dos novos gestores (10 a 12 dias, entretanto já esgotados). E Mário Centeno, que diz que o banco público “necessita de tranquilidade”, logo assacou ao anterior Executivo pelo “desvio enormíssimo” no plano de negócios e de reestruturação da CGD, que ultrapassou os “3 mil milhões de euros“.

Publicamente, até agora só parece haver duas certezas: o número de bancários a dispensar e um ponto que já foi resolvido e de que tudo dependia ou depende, a eliminação do tecto salarial para os novos administradores.

Comentários

  1. Não Bagão Félix, há uma terceira certeza…entre uma administração que já não administra e uma administração que ainda não administra, antevê-se um período em que a CGD não vê a sua situação deteriorar-se por via da má administração. Se a isto juntarmos a certeza de que já ninguém sabe o que seria bom para matar a inconsequência dos danos causados por uma má administração, então estamos melhor assim, durante este tempo aliviamos a consciência de termos a suportar as veleidades dos que pretendem saber gerir uma instituição…

  2. Onde está o dinheiro? Pela leitura da imprensa nos últimos tempos é isto que ressalta: onde está o dinheiro?

    Vejamos então para onde pode ter ido o dinheiro:

    (1) Financiamento de “elefantes brancos”, com jogos de intermediação lucrativa;
    (2) Financiamento a entidades sem solvabilidade;
    (3) Vencimentos milionários de gestores;
    (4) Incompetência por investimentos em produtos de risco:

    Mas é possível seguir o rasto do dinheiro. Para isso existem as autoridades competentes.

    Não podem ser observados enriquecimentos suspeitos? Estamos no reino da impunidade? Que mensagem se passará ao cidadão? Que grau de confiança persistirá, depois de tantos casos semelhantes, nas cabeças das pessoas? Isto é o grau zero da credibilidade no sistema. Algo deverá ser feito, em nome da sobrevivência do regime.

    Os contribuintes voltarão a pagar. Até quando?

    1. É curioso como apresenta 4 razões plausíveis para explicar o paradeiro do dinheiro e ao mesmo tempo sugere que “algo deverá ser feito, em nome da sobrevivência do regime”. Caro Nelson Faria, isto é muita confusão, pois os fundamentos do regime que o meu amigo pretende salvar são exactamente as razões que apresenta como causas do descalabro do próprio regime que defende, defina-se…

  3. Passos Coelho acusou o governo (ou melhor, o PS) de (cito de cor “querer destruir a banca para fazer a vontade ao Bloco”. Ora essa! Não há necessidade! os bancos estão a ser destruídos…pelos banqueiros!

  4. Devia haver uma lei, da mais básica justiça, em as pessoas não podem ser consideradas devedoras de dívidas contraídas em seu nome mas sem o seu consentimento. Logo haveria grande variedade na interpretação de “consentimento” excepto num ponto – os que não nasceram ainda, estão de certeza livres destes encargos que inventam sobre as gerações futuras.

    1. Jonas, Jonas, para que dizes tolices? Se um país se tiver endividado para investir em infra-estruturas que vão beneficiar os que ainda não nasceram, por que carga de água essas gerações futuras estariam isentas também das dívidas. Além do mais, segundo essa lógica, deixaria de haver qualquer crédito público. Para Portugal ainda seria talvez o melhor, tendo em conta o uso que ele tem tido…

  5. Não tenho conta na Caixa, desde a juventude. Mas parece que vou ter que abonar! Certamente que será um excelente investimento, sobretudo sem tecto salarial.

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