Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

27 de Junho de 2016, 08:46

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A desilusão espanhola

As sondagens enganadas mais uma vez, mas isso não é justificação para nada. A repetição das eleições espanholas desanimou muitas pessoas e a dificuldade de ver uma alternativa imediata não mobilizou outras, portanto mais abstenção, mas os resultados impõem-se e não pode haver dúvidas: o impasse continua mas a direita recuperou capacidade de iniciativa.

Recapitulando: o PP de Rajoy sobe para 33% e ganha mais 14 deputados (137 no total), se compararmos com as eleições de Dezembro. O problema é que, como em Dezembro, descamba da sua maioria absoluta anterior e não lhe é fácil formar governo, já lá irei. O PSOE consegue o simbólico segundo lugar com 22,7% (mas tem menos 5 deputados do que o mau resultado de Dezembro), superando o Unidos Podemos (com 21% e os mesmos 71 lugares da soma do Podemos com a Esquerda Unida, mas perde 1,2 milhões de votos), o que era uma disputa importante. O Ciudadanos, partido liberal de direita, baixa para 13%.

A força emergente da esquerda, o Podemos, teve um percurso difícil neste meio ano. Os seus dois principais dirigentes, Iglesias e Iñigo, entraram em guerra e isso teve, como seria de esperar, um impacto desastroso entre os militantes, apoiantes e eleitores. Tiveram depois a ousadia de fazer uma ponte com a Izquierda Unida, o movimento criado há décadas pelo Partido Comunista, e a iniciativa criou muita esperança e recuperou a sua capacidade eleitoral, como se viu nas sondagens imediatas, mas não resolveu todas as dificuldades: a IU tinha tido 900 mil votos e dois deputados, mas alguns dirigentes históricos opuseram-se à nova coligação e sabia-se que uma parte do seu eleitorado não queria apoiá-la. Quanto ao Podemos, é um partido muito recente e que ainda não tem o mínimo de estrutura consolidada na sociedade, embora represente uma aspiração e um protesto – ter mais de um quinto do eleitorado em dois anos é uma obra notável. Ainda mais, mesmo com as perdas actuais, o Podemos é no entanto o primeiro partido em Barcelona e numa parte do País Basco, além de já ter arrancado vitórias municipais em Madrid e Barcelona, um caminho impressionante.

Em todo o caso e em consequência dos resultados, tanto no Podemos como na IU a velha maldição da esquerda pode renascer e multiplicar tensões e confrontos internos no ajuste de contas sobre os resultados. Disso saberemos em poucos dias.

No PSOE a única dúvida é se Pedro Sanchez será questionado pela parte do partido que, sendo a mais acossada por acusações de corrupção, parece disposta a um conflito de liderança. O que é certo é que o partido só tinha más opções: ou uma aliança à esquerda, que não faz parte da sua tradição e que implicaria cedências à Catalunha, ou o apoio a Rajoy, o que parece difícil – mas não há impossíveis nesta forma de política. Sem arriscar previsões, por ora chegou uma previsão britânica demonstrada errada, sempre adianto a constatação de que o PSOE não rejeita o caminho da abstenção para permitir a continuação do governo de direita.

Tudo péssimo para Portugal e para a Europa. Precisávamos de ter aqui ao lado um governo que fugisse à doutrina da austeridade e ao autoritarismo europeu da direita mais rebarbativa, mas é essa direita que podemos vir a ter a governar em Madrid. Precisávamos de uma esquerda que reforçasse o movimento pela reestruturação das dívidas e pela luta pelo emprego, ainda não é desta.

Comentários

  1. Em corrupção estes espanholos talvez sejam piores ainda que nós, o que parece quase impossível. Mas com uma grande diferença: o descaramento ali é severamente punido por um sistema de justiça corajoso. Quanto a desilusões, as sondagens actualmente são um instrumento de manipulação, influência e condicionamento dos eleitores – se quisessem aplicar modelos matemáticos certos o erro estatistico seria mínimo. Mas a intenção não é essa. No fundo, dada a relatividade de valores e a liberdade subjectiva, democracia acaba por se tornar num jogo de mentiras constante.

  2. Pois é… é uma chatice para alguns mas em Espanha o povo ainda é quem mais ordena, E ordenou que Rajoy e o PP ficassem à frente dos destinos do país. E como lá o rei não vai em modas, vai respeitar o voto popular expresso em urnas (não o interpretado a bel prazer) e vai tentar que PP e PSOE se entendam qto ao essencial. O augúrio não é grande coisa pq Sanchez ja veio dizer q é cego, surdo e mudo a qualquer entendimento. Aprendeu com o vizinho Costa. Mas como Rajoy pode mandá-lo às urtigas e fazer um pacto com os Cidadanos (na Grécia Tsypras fez um com o Aurora bem mais esquisito e nãose ouviu um pio cá por estas bandas) lá terá o menino birrento q pensar 2 vezes a ver pra onde é que ha-de tombar. Nesta altura do campeonato tb não é nada recomendável encostar-se ao Podemos, o tal que tem como patrono e financiador o senhor da Venezuela, outra criatura tb pouco recomendável q tem o povo a morrer à fome mas q se borrifa nos resultados eleitorais e q só leva os dias a pensar num estratagema qualquer para se eternizar no poder.

    1. Só um pormenor, o Costa em Portugal teve uma maioria parlamentar a apoiar o seu governo, coisa que o PSOE não consegue ter… o pacto PP e Cidadanos não chega… continua a ser um governo com suporte minoritário ao contrário do que acontece no caso português. Quem não se dá bem com a democracia não compreende essas diferenças, mas são simples, bem simples e pelas sondagens que têm saído, o eleitorado está satisfeito, o PSD vai a caminho dos 30% e o CDS ficou cristalizado nos 4%.

  3. ” Precisávamos de ter aqui ao lado um governo que fugisse à doutrina da austeridade e ao autoritarismo europeu da direita mais rebarbativa.”

    Lamento caro Louçã, “mas o povo é quem mais ordena” e os espanhois não leêm as sua crónicas!

    João Albuquerque

  4. Caro Francisco. Aqui ao lado as geringonças ainda são mais desengonçadas que as da nossa terra. Vamos ver como se encaixa o país depois desta nova tentativa… mas numa coisa discordo de si. Entre ter a direita no poder em Espanha e ter uma esquerda como a nossa, que em meia dúzia de meses já roubou mil euros a cada português para salvar bancos (ver artigo aqui ao lado no blog), não sei não… não consigo ver onde ter a esquerda seria melhor! É muito miópico achar que a vitória da esquerda em Espanha, per se, era bom para quem quer que fosse. É o mesmo que dizer que os políticos do PT é que são bom para o Brasil ou os da Venezuela é que vão tirar o país do fosso. Isso das esquerdas e direitas, já lá vai. E subida repentina do Podemos e Ciudadanos são disso prova. São precisos projectos novos – as pessoas já não querem fórmulas batidas porque estão fartas disso. E estar farto de tudo e mais algo é o sinal dos nossos tempos… Mostrem-me um político coerente, honesto e sem óculos (figurativo) e terá decerto o meu voto!

  5. Pudera… um partido realmente preocupado com o futuro dos espanhóis, e todos os outros partidos contra o Podemos.
    É óbvio que seria difícil.

    Mas não se iludam. Nem toda a gente de Direita vai continuar a votar na Direita com a corrupção no PP cada vez mais á vista.
    Os espanhóis querem mudança. Uma Geringonça sem o PP. Não querem um novo Pasok,.

    Se os espanhóis precisarem de ajuda, não hesitem. Enviaremos novamente Cavaco Silva uma semana para a Madeira, para reflectir sobres estas eleições.

    1. Caro Nuno, não percebi, os do PP são corruptos e o Podemos imaculado? Está a falar do partido que foi fundado tendo como base financiamento de um país estrangeiro? Imagine que isso acontecia com um partido de direita! Ui ui, o que não seria de comentários!…

    2. Não estou a perceber nada ó Lenhas?
      Por acaso referes algo parecido ao “pecado original”? Mas todos os partidos têm pai e mãe? Não percebo nada.

    3. Adriano, eu explico melhor. Receber dinheiro de outro país (não declarado, mas pronto isso dos imposto é coisa de menor relevo no nosso Portugal) para fundar um partido, além de ilegal é um pecado original muito peculiar, ou não acha? É que se não há problemas com os pecados originais, certamente que o Adriano também não se preocupa pecados capitais, com os Jacinto Leites e outros que tais, e acredita que quem cede dinheiro a um partido (ainda mais no caso de um que ajuda a fundar) não tem uma agenda e não espera algo em troca. Tá certo. Eu não sou muito velho, mas no Pai Natal já deixei de acreditar faz muuuuuito tempo…

  6. … dizia-se que o Unidos Podemos do Pablo Iglesias e da IU se veria como vencedor das eleições (isto é, ficar à frente do PP) ou, então, como segunda força política (isto é, à frente do PSOE, e substituir-se a ele como testa de uma eventual coligação sendo que os socialistas se deveriam agora entender com os anteriormente irredutíveis do… Podemos). A sua estratégia política não era particularmente inovadora, apesar de estrambólica, e alimentava-se mais do oportunismo da conjuntura do que de um interesse genuíno determinado pelo sentimento histórico de servir a res publica no reino dos Bourbons. A desilusão do Francisco Louçã não só é grande, o que se percebe, mas é principalmente aparente. De facto, se é verdade que esta solução do Podemos plus acabou por ser derrotada nas urnas, ela principalmente não conseguiu passar a perna ao PSOE e tornar-se na nova estrela polar para as esquerdas “modernas” no velho continente e transformou-se, aos olhos do eleitorado, como o principal responsável pela última crise política de média duração em España. Pior do que tudo, tornou a crise espanhola claramente insolúvel com o seu contributo e este é que parece ser o ponto. E aqui a discussão interna interessará a alguém, decerto, mas para o consenso da Esquerda anti-austeridade ao nível europeu interessa por agora pouco… ou nada.

  7. As sondagens são um instrumento de manipulação dos eleitores e estão ao serviço de uns e contra outros. Há momentos em que arriscam o erro em nome do objetivo principal que longe de ser prever é interferir nos resultados. É mais uma entorse nas democracias.

    A abstenção na Espanha ontem valeu 10, 44 milhões de votos e o partido de Rajoy valeu 7,9 milhões.

    As últimas eleições que geraram um governo foram em 2011 e a soma de PP com PSOE caiu 25,28% devido à condição comum de corruptos súbitos ou súbitos corruptos que é o que são ambos os diretórios.

    Rajoy reforçou a sua posição pessoal desde dezembro de 2015, mas terá de contar com o PSOE e tê-lo-á.

    O PSOE entrará no ciclo final de estiolamento.

    As mudanças nas políticas do grupo de criaturas que assaltou as instituições da chamada “UE” não se fará por iniciativa dessas mesmas criaturas, mas por ação das nações a fazer parar esta loucura e retomar a Europa das nações e a política dos pequenos passos.

    As oposições ao empobrecimento, à precariedade, à estagnação, à deflação, à subjugação das soberanias terão um grande trabalho a realizar para crescerem com os pés na terra, mãos limpas, grande coração e todas as esperanças.

    Para trás ficarão os velhos corruptos submissos e golpistas.

  8. Lamento muito que fique triste, mas os países europeus ficam muito melhor sem experiências extremistas, como o exemplo grego mostra.

    1. A Ana Silva deve ter saltado muitos números de jornais para ainda acreditar na “experiência extremista” grega. Já nem a Direita fala disso, antes da “humilhação” do povo grego por ter escolhido actores fora do “casting” permitido pelo “directório”.
      Além disso, depois de um referendo que deu ao governo grego a oportunidade política de resistir ao que vinha de Berlim (dizerem “Bruxelas” é um mal que nos fazem…) e de o Syriza ter desbaratado esse capital de confiança na negociação de um pacote que os obrigou a fazer o mesmo que aqui Passos e Portas fizeram de ânimo leve (leia-se vender tudo o que mexe e poderia dar rendimento ao Estado), será um pouco exagerado chamar extremista ao Syriza.
      Enquanto carpem lágrimas pela saída da Grã-Bretanha da UE, deveriam pensar em que medida é que a humilhação da Grécia não contribuiu para o desfecho ocorrido.
      “Pensar”, eis uma coisa difícil quando a narrativa a preto e branco é bem mais fácil de entender… mesmo que seja incompleta e, por via disso, falsa.

    2. Extremistas foram o eurogrupo, o banco central europeu e a comissão europeia no esmagamento da economia, dos serviços públicos e de salários e pensões na Grécia. Esses são os verdadeiros extremistas!

  9. Não há problema. É só repetir!
    O referendo do bremain, tantas vezes quantas as necessárias para obtermos o resultado que queremos e as eleições em Espanha até os amigos del pajarito obterem a vitória
    Chama-se a isto usar a democracia para destruir a democracia.

    1. Essa, antonio albuquerque, é exatamente o tipo de atitude que não encontra expressa no texto de Francisco Louçã.
      Para quê fazer um comentário colando a um texto uma ideia que nada tem a ver com o que o texto afirma e defende?
      Chama-se a isso usar a liberdade de opinião da caixa de comentários para destruir a racionalidade e inteligência de um debate – que é o que uma caixa de comentários pretende promover.
      Isso sugere bem o seu entendimento de democracia: é quase indistinguível de intoxicação.

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