Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

1 de Junho de 2016, 08:02

Por

Esqueci-me de ver a marca dos autocarros!

56d9a6f0a6b4bLigo o televisor. E o que vejo? Um autocarro. Parece que vai arrancar. A sair de um hotel (ou será um abrigo?), com escolta generosa. Uma manobra para a direita, e logo vira para a primeira rotunda (há sempre uma rotunda à nossa espera, mesmo que na televisão).

Ouço um frenético relato do percurso do bem trajado autocarro. É a equipa a ser transportada. Para o estádio, creio.  Muito excitante. Um regalo à distância de um controlo remoto.

E outro autocarro, também bem cuidado. Ouço com atenção: vai para o mesmo estádio. Ligeiramente atrasado em relação ao primeiro autocarro.

A partir daqui, o ecrã divide-se em dois. Com um autocarro à esquerda e outro à direita. Longos minutos lado a lado, com arrepiantes momentos filmados por cima, em versão drone.

Lá dentro vão as equipas. Assim se conclui, não porque as possamos ver, mas porque as televisões vão cuidando de nos informar que, lá dentro, vão as equipas e de nos dizer do seu estado de espírito, certamente por rede sem fios. A opacidade do autocarro de fora para dentro é ultrapassada pela cristalinidade da informação tempestiva de adivinhos e magos.

Bem tentei, encurtar tão estimulante viagem virtual. Mas não há zapping possível: o canal A transmite, o canal B idem, o canal N idem aspas. Um êxtase de alienação em versão rodoviária.

Finalmente, chegaram ao estádio. Abrem-se portas e bagageiras. A caravana sai às pinguinhas, sem lógica aparente de ordem. Aqui e acolá um leve sorriso ou aceno, mas nada de exageros, não vão as mentes desconcentrarem-se do trabalho que as espera. A tristeza invade os mais incautos telespectadores. Fica uma sensação de buraco na alma. Que fazer agora – dirão – depois de tão gloriosos e fartos minutos dos autocarros.

Acabou a viagem e a imprescindível reportagem. Mas nada de tristeza. Mais uns dias, e vão-nos oferecer a dose a dobrar. E hoje já estão a ser editadas imagens mais significativas da viagem dos autocarros (por exemplo, não parar no semáforo, porque acolitados pela escoltas de motas da polícia).

E eu que julgava que gostava de futebol. Da essência e não das mais pueris circunstâncias. Do jogo. Dos golos. Das cores. Da emoção de tomar parte. E até dos “autocarros”estacionados no relvado, se necessários evidentemente…

Caramba! Não sei quantos cavalos têm estes majestosos autocarros. A trote e a galope. E esqueci-me de ver qual a marca dos autocarros e qual deles foi o vencedor do percurso. Logo eu, que quase não sei distinguir nenhuma marca de carros. Ainda se fossem árvores…

Comentários

  1. Este seu post transborda de candura e superficialidade mas é parco em assertividade e análise política. Atendendo à natureza deste blog e ao curriculo do seu autor, seria de esperar um pouco mais de profundidade. A alienação que asfixia esta modalidade desportiva há muito que está ao serviço duma agenda ideológica de despolitização dos cidadãos. O marketing que insiste na exploração dos sentimentos mais manipuláveis é bem exemplo disso. Uma frase que usou no seu texto parece aliás saída de alguma campanha publicitária: ‘a emoção de tomar parte’! Ou talvez tenho sido uma ironia da sua parte…

  2. Tem razão,lamentável o tempo de emissão da sic notícias da tvi 24 com o acompanhamento do autocarro, com comentários 1 hora antes e 1 hora depois.Com aqueles famosos programas diários de horas sobre futebol.
    As entrevistas antes e depois dos jogos aos treinadores e jogadores.
    Penso que ainda não perceberam que no futebol a única coisa bonita ‘e o jogo.
    O restante não me parece bonito.

  3. A falta de noticias, cópia dos formatos americanos e ainda por cima em 24h contínuas dá nisto…

    Enquanto a educação do público alvo não mudar…

    Compare-se com os canais dos países Nórdicos …

  4. Dr. Bagão Felix, esse é daqueles problemas que se resolve rodando o botão. A televisão há muito que se concentrou num público alvo muito específico, se é que me entende.

  5. Na realidade, esta situação do futebol já começa a enjoar (para não dizer outra coisa). São os sub não sei quê; é o futebol a 100% nas TV; os programas de informação desportivos são praticamente 100% de futebol; e isto em todos os canais (generalistas, tv cabo). Porra…..quando era míudo (nos anos oitenta) só havia 2 canais de televisão. Dava hóquei em patins, formula 1, ténis Wimbledon, torneio das 5 nações em rugby, obviamente futebol ( as excelentes finais das taças de Inglaterra, taças dos campeões europeus, taça das taças e UEFA e claro taça de Portugal), rallye vinho do Porto, atletismo, entre outros e isto tudo só no canal 2. Agora, toda a gente manda palpites sobre a bola (internet, facebook, e anda por cima os comentadores de bancada nos canais de tv. De facto, além de enjoar já mete nojo….

  6. Não, não está isolado. Muito bem!
    Também fico abismado com a craveira intelectual dos nossos telejornais.
    Aliás, comecei já há tempos a ver as notícias pelo gravador. Assim, pelo menos, em 10 minutos consigo ultrapassar a vergonha de estar a aguentar 60 minutos de massacre.
    Mas isto ainda é o início,,,!

    1. A gravação é o remédio ao nosso dispor para separar o trigo do joio. Uso-o muito.

  7. Eu até estou surpreendido(pela positiva) por alguem se ter lembrado de mandar baixar o volume dos spots publicitarios.Mas será sempre sol de pouca dura,ate porque, ao me lembrar da cara de poucos amigos do director de informação da TVI durante a comissão parlamentar Banif(e o homem estava mesmo muito aborrecido com todos os deputados da esquerda e direita) ,seremos sempre Castigados pelo proximo reality show.É ironico,mas o botão OFF salva mesmo as pessoas da…loucura.ps-pensando bem,os tipos da TV ate fazem um optimo trabalho,ou seja obrigam toda a gente a sair da casa ,a ir passear para o jardim,conviver,ler livros á sombra de arvores(ir á feira do livro,por ex.)etc…

  8. Pois … Mas não é só com as notícias do futebol. São os “enchidos” faz que anda mas não anda, as “esperas” em redondel à porta de … mais as “perguntas” aos transeuntes que nada dizem ou acrescentam no seu minuto de glória mais o “suspense” da notícia a transmitir já a seguir,numa “misteriosa” eternidade, obrigando a ver todas as notícias intermédias aguardando ansiosamente pelo clímax, Por isso e pela “parcialidade” da agenda jornalística deixei de ver os telejornais. Não há pachorra que resista a tal “penitência” Gostei deste artigo.

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