Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

30 de Maio de 2016, 08:35

Por

O imperativo na primeira pessoa do singular

Por vezes, dou-me a fazer  as minhas “descobertas”. Ou seja, a deparar de maneira diferente com o que passa por mim e em mim . Pela mente ou pelos sentidos. Quantas vezes o que mais perto de nós está é o que menos fixamos na retina, constrangidos na rotina que nos afasta de nós mesmos. Quantas vezes olhamos sem ver, vemos sem observar, ouvimos sem escutar, falamos sem dizer, memorizamos sem apreender. Não é por acaso que temos uma expressão tão reveladora, quanto paradoxal: “ver com olhos de ver”.

Vem isto a propósito de, há dias, ter dado comigo a pensar no modo verbal imperativo, que, de algum modo “normativamente”, transmite uma ordem, um pedido, uma recomendação, um conselho, uma súplica.

Ora, como é óbvio, o imperativo, além de indeterminado em tempo (embora se refira a uma acção futura), não é conjugado na primeira pessoa do singular. Falta-lhe o “eu” imperativo.

Posso dizer “faz isso” (tu), “faça depressa” (ele/ela/você), “façamos como deve ser” (nós), “fazei já” (vós), “façam bem” (eles/elas/vocês). Mas não tenho, verbalmente falando, um modo imperativo de me dar uma ordem. Só se tratar a minha consciência por “tu” (“faz assim!”).

Tudo certo, evidentemente. O meu “achado” não é uma insurreição contra a gramática (imperativa). Foi uma forma de me divertir, parando um minuto onde nunca o havia feito. Mas não por acaso, no meu tempo e com o meu tempo imperativo, às vezes, indicativo, tantas vezes e subjuntivo (ou conjuntivo como aprendi na escola) quando necessário.

Logo me lembrei das questões éticas. De Kant e dos seus imperativos: o categórico (o dever) e o condicional (na relação entre causa e efeito). O imperativo (categórico) de uma ética pura não contaminada pelo empirismo, nem por exigências exteriores e que nem de Deus depende. Por outras palavras, uma “ética da primeira pessoa” em contraponto a uma “ética da terceira pessoa”. Vivemos submergidos nesta última – também chamada moralidade – com imperativos apenas para os outros, enquanto escasseiam os normativos para nós próprios categóricos e imperativos porque não opcionais ou discricionários.

Eis a gramática linguística do imperativo a vencer o imperativo da gramática ética. Nada é por acaso…

Comentários

  1. Existe porventura uma linguagem onde o imperativo só existe na primeira pessoa do singular: no ascetismo. O imperativo da mortificação é feito na primeira pessoa e se fizermos uma deriva pelas perireligiões, o sentido da culpa (a confissão) é, também ele, um imperativo na primeira pessoa do singular. Nada é por acaso, é certo, nestes tempos de modernidade, que cada português assuma que é devedor de uma parte da dívida pública, tendo esta sido contraída para pagar mordomias às elites, não deixa de ser um imperativo de flagelação na primeira pessoa.

    1. É a sua opinião, mas é falsa. Como explicou oportunamente João César das Neves há uns anos atrás, o grosso da dívida foi mesmo para pagar “Estado Social” e obras públicas acima da capacidade produtiva nacional. E o mais grave é que as contas continuam por equilibrar.

    2. Será que as elites já pararam de reivindicar o direito divino às mordomias? E quando quiser citar fontes credíveis em apelo à “sua” verdade, por favor não me venha com esse César das Neves…o homem só tem crédito junto aos fazedores de opinião.

    3. César das Neves, é um muito bom economista, pense o AronsVC o que pensar. Muito didáctico ainda por cima, o que é óptimo para não-economistas. Este blogue também está bem servido, apesar de um dos seus participantes ser dogmático. Um sábio não deve ser dogmático.

  2. “Anda lá, ó rapariga!”

    Esta frase veio-me á ideia, em relação aos argumentos dos representantes da onda amarela dos colégios privados (sublinhe-se, privados), que querem ser subsidiados pelos seus luxos e escolhas, desrespeitando a nossa Constituição, com crimes de ofensa através de jotas de partidos de direita, e até desrespeitando o nosso Presidente, em comunicados não autorizados.

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