Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

25 de Maio de 2016, 09:15

Por

Quanto ganha o Santander Totta com o Banif?

Ricardo Mourinho Félix, Secretário de Estado Adjunto do Tesouro e das Finanças, numa atitude de louvar, apresentou num artigo de opinião no Jornal de Negócios, de 4 de Maio de 2016, pela primeira vez, “As contas certas da venda do Banif ao Santander”, que contém alguma informação, até à data, não conhecida. Já antes, em dois artigos de opinião, no Expresso e no Público, o Secretário de Estado tinha defendido a medida de resolução aplicada, tendo no artigo no Público sustentado que a resolução seria uma solução mais económica do que a liquidação do banco.

Nesta análise, em parte com base nos dados tornados públicos pelo Secretário de Estado, apresento a minha estimativa dos ganhos do Santander Totta com a “aquisição” da parte boa do Banif.

 

Sumário desta análise:

Ricardo Mourinho Félix defende, nas suas “contas certas”, que o banco limpo (o “Banif bom”) adquirido pelo Santander Totta por 150 milhões de euros (M€) vale, em termos contabilísticos, 809 M€ e que, se a alienação de activos pela Oitante corresse como esperado, os custos da resolução do Banif cairiam dos actuais 2 255 M€ para cerca de 1 700 M€.

Em contraste, estima-se nesta análise que é transferido para o Santander Totta um banco limpo com valor contabilístico de cerca de 1 931 M€, i.e., uma mais valia líquida de 1 187% face aos 150 M€ que o Santander “paga” pelo banco. Acrescem ganhos de sinergias que o Santander Totta pode obter ao juntar as suas operações com a parte do antigo Banif. Os rácios de capital do banco limpo são entre 3,4 e 6,2 vezes os mínimos legais exigíveis. Ou seja, o Santander Totta e o grupo Santander aumentam os seus rácios de capital graças ao dinheiro (involuntariamente) injectado pelos contribuintes portugueses e por investidores privados.

O custo para o erário público poderá ser de cerca de 2 800 M€, se as perspectivas mais optimistas do Secretário de Estado se confirmarem, muito superior portanto aos 1 700 M€ que refere no seu artigo. Mas pode aproximar-se ou mesmo exceder os 4 000 M€, se a venda dos activos do Banif pela Oitante correr mal e se o Estado for forçado a indemnizar accionistas e credores privados que perderam cerca de 750 M€ com a decisão do Banco de Portugal em aplicar a medida de resolução.

Há ainda uma questão técnica, que considero importante, relativamente ao montante de
150 M€ que o Santander “pagou” pelo Banif bom e que se afigura não terá sido contabilizado nas ajudas públicas autorizadas pela Comissão Europeia de que poderá resultar a obrigatoriedade do Santander Totta devolver dinheiro ao Estado.

 

Vejamos as contas:

Qual o valor do “banco limpo” adquirido pelo Santander Totta?

1. O Santander Totta adquiriu a parte do Banif em que:

– foram retirados 2 469 M€ de activos do antigo Banif, dos quais 2 194 M€ transferidos para a nova sociedade de gestão de activos Oitante, e 275 M€ para o “Banif mau”;

– foram arbitrariamente impostas imparidades de 1448 M€ nos activos transferidos para a Oitante;

– foram injectados 3 330 M€(=1 766+489+150+746+179) de activos, sendo
2 405 M€ em espécie resultantes do aumento de capital de 1 766 M€ pelo Estado, de 489 M€ pelo Fundo de Resolução e de 150 M€ pelo Santander Totta, bem como de 746 M€ de dívida da Oitante contra-garantida pelo Estado e de 179 M€ de activos por impostos diferidos (i.e., créditos fiscais).

 

2. Segundo o Secretário de Estado do Tesouro, o Santander Totta paga 150 M€ por um “banco” que tem um valor patrimonial de 809 M€ e um balanço de perto de 13 500 M€.[1] Assim, de acordo com o Secretário de Estado, o Santander Totta regista um ganho líquido de 440%. Nada mau.

Figura 1

 

3. Contudo, as contas são outras. Partindo do balanço consolidado do Banif do final do 3º trimestre de 2015, de cerca de 11 956 M€, corrigido da fuga de depósitos que ocorreu após da divulgação da notícia na TVI (ver Figura 1), após a injecção de
3 330 M€ dinheiros públicos, o banco limpo (“Banif bom”) passaria a ter um balanço de 12 817 M€. Antes da constituição de provisões, ficaria com capitais próprios de cerca de 1 931 M€, possuindo 5 672 M€ de dinheiro e activos de elevada liquidez, e
7 145 M€ de “outros activos” – sobretudo crédito a clientes – (ver Figura 2).

Figura 2

 

4. O Banco de Portugal acordou com o Santander Totta a constituição, no banco limpo, de provisões de 1 133 M€, o que representa um “desconto” de 16,2% do valor contabilístico dos “outros activos” do banco e resulta numa diminuição dos capitais próprios do banco para próximo de 800 M€ (ver Figura 3). Com que fundamento se constituem arbitrariamente provisões de 1 133 M€ nos activos de melhor qualidade do banco? Porque não de outro montante qualquer? Porque é que se constituem provisões dessa ordem de grandeza e simultaneamente se vende o banco muito abaixo do seu valor patrimonial?

Figura 3

5. Se as novas provisões foram exageradas e forem completamente revertidas nos próximos meses e anos, então o valor patrimonial do banco limpo subiria dos cerca de 800 M€ referidos pelo Secretário de Estado para um valor próximo dos aqui estimados 1 931 M€ (Figura 2). Ou seja, o valor patrimonial do banco limpo adquirido pelo Santander é provavelmente próximo de 1 931 M€. Acresce que:

– o banco limpo estará provavelmente “muito limpo”, ou seja, deverá ter uma percentagem muito baixa de activos problemáticos que caracterizam a actividade bancária normal e, por conseguinte, deverá estar numa situação melhor do que a generalidade da banca portuguesa;

– os ganhos de sinergias que o Santander possa obter em fundir as duas operações (Santander Totta e Banif);

– e ainda o facto de desta forma o Santander Totta ter obtido ganhos de quota de mercado que de outro modo seria muito difícil (e muito dispendioso) obter.

6. Também a tese do Secretário de Estado – da alegada deterioração dos rácios de capital do Santander Totta em resultado da aquisição do “Banif bom” -, não se afigura correcta, mesmo admitindo as referidas provisões de 1 133 milhões. Isto porque o Banif bom vendido ao Santander Totta, foi um banco “cheio” de activos de elevada liquidez (e.g., dinheiro, dívida pública) com um balanço ineficiente. Esse dinheiro fresco poderia ser utilizado para pagar dívida, reduzindo a dimensão do balanço e melhorando os rácios de capital do banco limpo: assim sendo, as estimativas do Secretário de Estado, do rácio de capital do banco limpo, estão muito subestimadas.

Figura 4

 

7. Considerando o balanço do banco limpo já optimizado (ver Figura 4), o Santander Totta multiplica por quase 13 vezes o capital utilizado na aquisição do banco limpo (excluindo sinergias), um ganho líquido de 1 187% do “investimento” de 150 M€ realizado. O banco limpo, que o Santander Totta adquiriu, teria um rácio de alavancagem de 18,5% – ou seja, 6,2 vezes o mínimo legal – e um rácio de solvência e de capital CET1 de 27%, i.e. 3,4 e 6 vezes o mínimo legal exigível, respectivamente.

 

Quais os custos da resolução para os contribuintes?

8. Se a Oitante for capaz de vender os 2 194 M€ de activos provenientes do antigo Banif por 746 M€, mais juros que a Oitante está entretanto obrigada a pagar ao Santander Totta, mais custos de funcionamento e comissões pagas pela Oitante; então as perdas totais para o erário público atingiriam 3 259 M€ (=2 405+179+825-150), já incluindo os 825 M€ que o Estado tinha “investido” em 2013 em acções e “CoCos” e considerando que terá recebido os 150 M€ pela venda do banco bom.[2]

9. Se, como refere o Secretário de Estado, a Oitante for capaz de vender esses activos por cerca de 1 200 M€ (a que se subtraem juros pagos ao Santander e outros custos de funcionamento da Oitante), então as perdas para o erário público serão próximas de 2 800 M€ (= 3 259-(1 200-746)), muito distantes, por conseguinte dos
1 700 M€ de custos estimados por Ricardo Mourinho Félix no seu artigo de opinião.

10. Se a Oitante vender esses activos por um valor inferior a 746 M€ ou se os custos da Oitante forem significativos, as garantias públicas poderão vir a ser exercidas e a factura para o erário público será superior a 3 259 M€.

11. Acrescem ainda perdas para privados – muitos cidadãos portugueses – que Mourinho Félix não refere no seu artigo de opinião, de cerca de 750 M€ (450 M€ dos aumentos de capital de 2013 e 2014 e cerca de 300 M€ de dívida subordinada). E é ainda provável que alguns desses privados ganhem as acções que interpuseram contra o Banco de Portugal e contra o Estado, agravando a factura pública.

 

O Banco de Portugal doou o banco limpo ao Santander Totta?

12. O artigo do Secretário de Estado do Tesouro vem confirmar a informação avançada pelo Jornal de Negócios de que os 150 M€ que o Santander pagou são injectados no Banif bom. Ora das duas uma:

– Ou o Santander pagou ao Estado 150 M€ e as ajudas do Estado aumentam em 150 M€ (e por conseguinte são superiores ao autorizado pela DG-Comp a 21 de Dezembro de 2015).

– Ou então o Santander pagou 0 (zero) euros pelo Banif bom e as ajudas de Estado são (“mais ou menos”) as autorizadas por Bruxelas. Note-se que não se compreende porque motivo os 179 M€ de activos por impostos diferidos concedidos ao Santander Totta aparentemente não são considerados ajudas estatais pela DGComp.

13. Isto pode ser, por alguns, considerado um insignificante pormenor de 150 M€. É todavia uma ponta solta que se afigura tecnicamente importante. Porque:

– se o Santander nada pagou, então não comprou o Banif bom nem este foi vendido – foi, quando muito, doado ao Santander Totta;

– o Decreto-Lei que regula a resolução, não confere ao Banco de Portugal poderes para “doar” activos e passivos de bancos resolvidos; só prevê a “alienação parcial ou total da actividade” ( 145º-E);

– o mais provável é que o Santander tenha pago 150 M€ ao Estado e que este tenha injectado esse montante no banco limpo; mas sendo assim, mesmo não considerando os 179 M€ de activos por impostos diferidos que constituem igualmente ajuda estatal, as ajudas de Estado são de 3 151 M€ (=3 001+150), superiores ao autorizado pela DG-Comp a 21 de Dezembro de 2015 (até
3 000 M€);

– em consequência, o Estado português estará, de minimis, obrigado a solicitar nova autorização para o auxílio de Estado concedido de 3 151 M€;

– seria muito pouco provável que a DGComp autorizasse essa ajuda estatal adicional pelo que, se assim for, o Santander Totta ficaria obrigado a devolver ao Estado 150 M€ de ajuda estatal;

– é ainda interessante constatar que, a confirmar-se essa informação, o Santander literalmente pode ter “pago” a si próprio 150 M€ e … ainda recebe um banco limpo e “cheio” de dinheiro público fresco.

 

Em suma, um excelente negócio para o Santander Totta!

 

 

 

 

 

[1] Segundo o Secretário de Estado, o balanço do Banif Pré-Resolução (a 20.12.2015) e, antes da imposição de 1 448 milhões de euros de imparidades e de 179 milhões de euros de créditos fiscais, era de 12 615 milhões de euros. Ora, o balanço consolidado e auditado do Banif, a 30 de Setembro, era de 11 956 milhões de euros (vide Figura 1). E sabe-se que, a 30 de Outubro, o balanço consolidado do banco (não auditado) tinha baixado para 11 536 milhões de euros. O Banif estava num processo de desalavancagem, continuando a reduzir a dimensão do balanço até aos últimos dias.

Não se percebe como é que nas contas apresentadas a 4 de Maio de 2016 pelo Secretário de Estado do Tesouro o balanço do Banif cresce mais de 1 000 M€ nas vésperas da resolução.

[2] Como referiu Jorge Tomé, num debate no Porto em que participei em 28.4, moderado por Rui Rio, e organizado pela Vida Económica e pela Ordem dos Contabilistas Certificados, a mera imposição de um haircut de 66% a esses activos e a venda forçada e apressada dos mesmos pela Oitante, deteriora o preço de negociação e de venda desses activos. Os activos estão valorizados no balanço da Oitante a 33% do seu valor líquido original e essa será a “base” de licitação, cristalizando enormes perdas para o erário público.

Comentários

  1. O Santander não fez um.otimo negócio; o.que o Santander fez, foi um assalto premeditado um roubo muito bem preparado com a colaboração do gov .Uma ROUBALHEIRA DESCARADA A PORTUGAL E AOS PORTUGUESES.

  2. 6 meses de governo tem sido equivalente a uma opacidade no que se refere à verdadeira situação económica do país. Os portugueses viveram 6 meses de alivio da dor baseada numa boa porção de morfina: ‘Marcelo presidente’ que levou a uma estupefacção nacional sobre uma nova forma de fazer politica, o aparente desagravamento de alguns impostos, o ‘retrocesso’ arrogante em processos de privatização que criou a aparência de que afinal ‘não vamos perder o que é nosso’, uma nova cosmética baseada no confronto as instituições europeias dando a ilusão de que somos ‘auto-suficientes’ – tudo isto funcionou como um analgésico, mas potente. Mas o corpo não tolera mais dose e vai ser necessário fazer um novo diagnósitco e aqui sim, iremos sofrer outra dose de realidade daquela que sofremos no período ‘pós-sócrates’, haverá com certeza o cenário PORTEXIT (ver Vila Verde Cabral no Observador), o governo vai desmantelar-se, novas eleições, novo messianismo, provavelmente retorno do PSD/CDS e a coisa vai dar novamente mais uma volta. Quem pára esta máquina de cortar orgãos ?

  3. Sei que perdi 500 euros em acções do Banif, nunca recebi uma carta a informar ou a explicar o sucedido. A única coisa que recebi foi um telefonema de uma funcionária do Santander se pretendia ser cliente deste banco. As palavras falam por si. Um profundo lamento e uma grandessíssima desconfiança do sistema bancário português. Este artigo só comprova o que sinto.

  4. Caro Ricardo,
    Não deveria enviar essas contas para a Comissão de Inquérito ao BANIF? É que há algo neste caso que cada vez cheira mais mal?

  5. Artigo muito esclarecedor.
    Já agora sugiro que se questione a Administração da Oitante e necessariamente o seu administrador do Estado, sobre as operações de venda de activos ao desbarato. Mais uma vez há investidores a lucrar e o mexilhão é que se vai lixar. Este tema devia dar pano para mangas e de certeza um novo artigo bastante esclarecedor da actual actuação do Governo, BdP e entidades “relacionadas”…Se fosse noutro país dava azo a muitos processos…

  6. Em suma, o que é preciso dizer é que há meia dúzia de criaturas por identificar que – a troco do suborno, da vassalagem de traidor e da venalidade de interesses exteriores, neste caso banca espanhola e sabe-se lá que mais – depreciaram e roubaram milhares de milhões em completa impunidade, pondo o contribuinte português a pagar o refinanciamento da crise espanhola. E esta escumalha não só faz isto como passa por gente de mérito. No fundo, a boçalagem tuga é a grande culpada quando prescinde do direito de se vingar exemplarmente dos seus traidores, e quando ela própria mediante trafulhas bem encadernados cria todos os dias ‘imparidades’ para amigalhaços e as seitas apaniguadas. Pelo menos reversão deste escândalo deve ser tentado na instância comunitária sob pena de finalmente se perceber o que é que afinal a Europa quer de nós.

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