Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

22 de Abril de 2016, 08:14

Por

Cuidado, a civilização está ameaçado

A proposta da deputada Sandra Cunha, do Bloco, de substituir o título do Cartão do Cidadão por Cartão da Cidadania provocou um frémito de discussões e de insultos que pareceria atestar da inexistência de tema mais candente. Muitos ódios políticos se ergueram esgrimindo a questão, como se fosse decisiva para o dia seguinte da República. PSD e CDS enxamearam as redes sociais de escárnio e maldizer. Os quezilentos viram nisto um maná dos céus. Muitos comentadores descortinaram a oportunidade de fazerem brilhar a sua mundividência. Pareceria portanto que, faltando assunto, este é o mais importante para tantas emoções. Mas não, arrisco-me a pensar que é somente testemunho do machismo de capoeira que ilustra alguns dos nossos mais preclaros espíritos.

A proposta, em si mesma, é afável e evidentemente modesta, seguindo aliás a preocupação expressa por entidades oficiais desde há muito (PSD e CDS incluídos, com a sua resolução ministerial de 8 de Março de 2013 sobre a inclusão e o esbatimento da discriminação de género, bem sei que era uma homenagem festiva do vício à virtude no dia próprio, e para esquecer depressa), procurando uma pequena mudança que ajuda a muitas mudanças para corrigir para a normalidade o que tem sido anormal e muitas vezes boçal na linguagem e nos costumes.

Houve quem reconhecesse o assunto e a proposta, que é contida nos seus efeitos e imerecedora de tanta atenção, como houve quem assinalasse que o estranho é a persistência da linguagem sexista, que representa uma história secular de patriarcado e divisão. Na verdade, o mofo do argumento passadista já não bate certo com a realidade. Com franqueza, alguém ainda tem pachorra para ouvir um historiador falar “dos feitos do homem ao longo de milénios”, ou um reitor universitário perorar aos seus “investigadores” num laboratório que só tem mulheres? A utilidade de uma linguagem inclusiva resultaria óbvia se algum destes espíritos estivesse a ensinar uma turma de 25 mulheres e dois homens, pois acharia estranho dizer-lhes “os alunos”, como aliás também acharia estranho usar a expressão muito mais adequada estatisticamente, “as alunas”. Talvez usasse mesmo “as alunas e os alunos”. Por isto, nesta questão de linguagem só vale a prudência, o reconhecimento da realidade, o cuidado na utilização das palavras.

Valendo então isto o que vale, o pânico argumentativo é mais revelador dos argumentadores do que do argumento, como se comprova pelas quatro classes de razões para que nada se faça, estamos tão bem como estamos.

O primeiro argumento é o isso-pode-ser-verdade-mas-não-vale-a-maçada. Foi o argumento de Luísa Meireles: a discriminação existe mas talvez não passe por aqui, logo não vale a pena, nada mudará na vida das pessoas. É o argumento do deputado comunista Jorge Machado: como há outras coisas mais importantes (e há), recusamos esta (Ferreira Fernandes explica como isto é superiormente inteligente). Não há que esquecer que o argumento serve sempre, pois também havia coisas mais importantes do que a paridade entre homens e mulheres e esse partido votou contra, tentando debalde que a paridade fosse recusada.

É um argumento que surpreende e é algo misterioso: se é pouco importante, não tem que ser razão para recusar; se é errado, é razão para recusar. Mas é errado? O país fica pior se a mulher deixar de ser chamada de “cidadão”? A solução, evidente, muda alguma coisa, mesmo que muito pouco: à Maria deixamos de chamar pela alcunha de José, sempre fica mesmo Maria como no seu nome.

O segundo argumento é o trauliteiro. Pedro Marques Lopes chama a isto uma “patetice” e não se contém, perguntando, na boa mitologia trolha, “e trabalhar, pá?”. Camilo Lourenço, no mesmo estilo bonacheirão, declara que isto é “tanto disparate que até dói” e que haverá um custo monstruoso (o argumento foi repetido por outras pessoas, certamente na santa ignorância de que substituir um título por outro nos próximos cartões que sejam impressos tem um custo suplementar que é zero). José Milhazes, este indignado, chama a isto “a mais indecorosa das posições”, ele gosta muito do seu mundo sem mudanças. Nuno Melo, entre tão distinta gente, vem também bombardear a ideia de Sandra Cunha, por ser “simplesmente ridícula” e custar “milhões de euros” – inimputável nas contas, o eurodeputado também se esqueceu que aprovou a proposta do seu governo para substituir “direitos do homem” por “direitos humanos” em nome da linguagem inclusiva. Vital Moreira junta-se-lhes para explicar que esta proposta é “totalitária”, pois nada menos do que isso: a liberdade é chamar “cidadão” à Maria, e chamar-lhe Maria é uma desfaçatez totalitária.

E, claro, tinha que reaparecer o nosso perseguido, o nosso Salman Rushdie, saindo da caverna onde se escondeu depois da fatwa dos alentejanos sequiosos de sangue e que até o atacaram com um cante, o inefável Henrique Raposo. Desta vez, cometeu uma graçola sobre a “esganiçada geringonça”, usando para tanto a aleivosia gramática de que foi capaz. Tenho pena do Raposo, porque ele ainda não compreendeu que o Expresso o exibe para o ridicularizar, apresentando-o no circo da opinião como o papagaio amestrado que repete a sua litania misógina, ainda por cima chamando à chicana um “ensaio”.

O terceiro grande argumento é o linguístico. Foi Henrique Monteiro quem se encarregou dele. Escreve o nosso comendador que há “substantivos uniformes” e por isso assunto arrumado: “uma criança não é uma menina, uma testemunha não é uma mulher”. Compreendo o enlevo com a sua própria palavra, mas não seria melhor pensar antes de escrever? Uma “criança” é um menino ou uma menina, pela certa. Monteiro certamente reparou que não há a palavra “crianço” (existe, no entanto é só na croniqueta do Raposo, mas não lhe ligue muito). Ora, em contrapartida existe “cidadão” e “cidadã”. Já agora, essa é a diferença entre “cartão do cidadão” e “cartão de cidadania”: no primeiro caso refere-se uma parte, na segunda refere-se o todo, precisamente porque só o segundo termo é um “substantivo uniforme” (até o Nuno Pacheco repete a graçola de sugerir acabar com o masculino e o feminino nos substantivos, o que parece giro mas é pouquinho como argumento, não é mesmo?). A Maria, que eu saiba, não é “cidadão”, é “cidadã”. O Mário é “cidadão”, não é “cidadã”. Se ambos tiverem um cartão de cidadania, parecerá normal porque será normal.

Em quarto lugar tivemos direito à teoria política. No Observador, pois então onde poderia ser. Paulo Tunhas, um escritor que atribui a Eduardo Cunha, o presidente do parlamento brasileiro (e um “gangster” segundo o New York Times), a “aparência de um sábio estóico”, delicia-se a explicar-nos que “na semana passada, almocei em casa de velhos e muito bons amigos. Em frente a uma bela lampreia, e, depois, na companhia de uma mousse de chocolate como já não comia há séculos, a conversa girou em torno de alguns dos costumeiros delírios da política nacional. (…) Também houve grande galhofa” – esta por causa do Cartão de Cidadania. Um perigo, evidentemente. Na mesma linha, José Manuel Fernandes alerta o país: se mudamos o título do Cartão de Cidadão, a República colapsa e um dia destes acordamos nas mãos da esquerda. Às armas, cidadãos (e mesmo cidadãs), a Pátria estremece de perigo.

Quanto pânico por coisa tão simples, tão fácil e tão pequena. Ele é o país em perigo, ele é a lampreia e a mousse de chocolate atravessadas por um delírio, ele é o substantivo uniformizado, ele é a malta que não quer é trabalhar, ele é o afundamento dos cofres públicos – abriu-se o baú das tormentas bíblicas.

A todos estes comentadores, permito-me alertar para perigo muito mais grave. Meus amigos, não estão a ver a floresta, à conta de só olharem para a árvore. O furacão destruidor está a chegar à costa e vocês a beberricarem cocktails. O perigo, o verdadeiro perigo, está na terra onde tudo se decide e até me custa dizer-vos o que tanto susto vos vai causar, espero que estejam sentados: a nota de vinte dólares vai passar a ter a figura de uma mulher. Já os vejo a estremecer de pavor: pois é mesmo uma mulher (e negra, é a ditadura do politicamente correcto, e escrava, que coisa horrenda). Foi assim que se perdeu Tróia: olharam para o cavalo e não viram o horror que vinha escondido nas entranhas.

A notícia que não estão a perceber é a pior de todas: já deixaram o Cavalo de Tróia instalar-se entre nós. A civilização está perdido.

Comentários

  1. Depois de ler todos estes comentários, sinto-me um idiota no meio de todos outros idiotas que perdem tempp a escrever idiotices. É a Politica que temos…

    1. Mário, ainda bem que você vai se levantar e esclarecer este mundo, dizer o que devemos fazer, e levar atrás de si as almas de boa vontade, gente inteligente claro !

  2. O assunto deve estar a dar as últimas, felzmente. E espero bem que por muitos e bons tempos o BE pense melhor nos assuntos que lança para a praça pública porque mais uma ou duas destas e qualquer dia já ninguém lhe liga pevide. Tudo tem tempo e modo e este não era o tempo nem o modo de andar a perder credibilidade. Qualquer dia temos a denúncia sobre a Ordem dos Médicos, dos Enfermeiros, dos Engenheiros ou o Sindicato dos ditos porque nao respeitam o género do pessoal, ou vá de deitar abaixo o nome da Casa do Professor que tb cheira a sexismo ou o formulário de matrícula que se refere ao aluno ou o cartão de embarque que inclui o passageiro e se esquece da passageira. Já agora o Cartão não é “de Cidadania” porque Cidadania é “o exercício dos direitos e deveres civis, políticos e sociais estabelecidos na Constituição de um país”. Ora o cidadão X (o tal que vem referido no dito cartão) é o indivíduo ao qual é confiado o exercício desses direitos e e exigido o exercício desses deveres. Portanto… a designaçao “de cidadania”, em bom português, não serve. Deixem lá estar o Cartão de Cidadão sossegado e pensem em coisas mais importantes, sérias e prementes.

    1. Mutio bem respondido. Eles que comecem de factp a trabalhar, apresentando novas ideias e viáveis para levantarmos o País.

  3. Tenho várias observações a fazer sobre este relevantíssimo assunto:

    1. No comentário das 15:50 de ontem, João Macedo escreve que “alguns intervenientes no debate” se referem a um “Cartão do Cidadão”, ou seja, a uma “coisa que não existe”: o que existe é o “Cartão de Cidadão”. Lendo as primeiras linhas do texto de Louçã, é interessante verificar que o próprio ex-líder do BE comete o mesmo erro, ou seja, chama “Cartão do Cidadão” ao “Cartão de Cidadão” [Não é a mesma coisa usar o “de” ou o “do”, e até Edite Estrela já chamou a atenção para isso.].

    2. Concordo com os que – como o deputado do PCP Jorge Machado – já lembraram que há coisas “mais importantes para resolver” quanto ao dito cartão, nomeadamente o elevado custo para os utilizadores em geral e a renovação imposta a utilizadores de idade avançada. O facto de Louçã silenciar o que Jorge Machado efectivamente disse é deveras estranho.

    3. O que se passa com a designação “Cartão de Cidadão” passa-se também com a designação de outros cartões, p. ex. o “Cartão de Eleitor” e cada “Cartão de Sócio” que circula por aí. Sugiro assim que o BE proponha mudanças correspondentes, com apropriadas designações alternativas. São mudanças que o PS pode aceitar de bom grado, pois presumivelmente agradam a (pelo menos) metade do eleitorado e (por não envolverem aumentos da despesa estatal) não desagradam aos “mercados” e a quem manda nesta Europa alemã.

    1. A sua acusação é errada e abusiva- o que poderia ser dispensado aqui. Linkei o artigo sobre as palavras de Jorge Machado, onde cada pessoa as lê na íntegra, e registei o fundamental: achando que há coisas mais importantes (e eu concordo, não é particularmente importante e não tenho nenhuma obediência partidária que me faça pensar o contrário), ele anuncia que vota contra (e eu discordo porque não percebo porque vota contra). Desde quando é que haver grandes mudanças por fazer impede que se façam pequenas correcções?
      Esse foi o argumento para o PCP vota contra um tema muito mais importante, a paridade: havia muito que fazer para os direitos das mulheres, de modo que vota contra a paridade. Ainda hoje suponho que mantém que a paridade é um erro. Mas, quando eu fui eleito, o PCP tinha 16 ou 17 eleitos e só uma mulher, hoje tem uma representação, como escolheu livremente, que é certmente mais verdadeira do partido e da sociedade. A paridade serve mesmo.
      Finalmente, o argumento de que o problema existe com outros cartões e outros nomes é inconsistente. Mais uma vez: isso é motivo para não se fazer nada em nenhum deles e em nenhum caso? Para mim, a consequência é simplesmente sublinhar que se trata de uma pequena alteração. O sururu que provocou é simplesmente testemunho de que, quando se fala da igualdade entre homens e mulheres, cai o carmo e a trindade.

    2. Caro A. Correia: 1 — Por favor, não me ponha de mal com Francisco Louçã. As pessoas podem cometer erros passageiros, o que conta é que a coisa se vá endireitando com o tempo. / 2 — Essa de modificar o Cartão de Eleitor (ou a Certidão de Eleitor; eu tenho uma certidão de Eleitor, e a minha esposa… idem!) não será assim tão anedótica quanto isso. Na mesma veia da minha proposta de Cartão de Cidadã(o), sugeriria Cartão [ou Certidão] de Eleitor(a). São dois documentos oficiais muito relevantes e que poderiam ser abrangidos por essa vontade de mudança igualitária. Quanto aos cartões de sócio e outras minudências do género, isso ficaria à discrição das entidades privadas que os emitissem. Trata-se mesmo de não misturar os alhos.

    3. O Sr. Francisco Louçã tem muitas dificuldades em compreender textos ou então têm uma facilidade inata para a mentira. O deputado do PCP diz que “não é uma questão de género, mas de gramática”. Precisamente porque “de Cidadão” vale para os dois géneros. É essa a razão porque o PCP vota contra. Se acham a língua portuguesa machista… inventem outra.

    4. Mas paridade como? Por acaso foi perguntar aos deputados e deputadas do PCP qual a sua identificacao de genero? Eventualmente sao 100% mulheres e nem deu conta…

  4. Da próxima vez tem de pôr algum tipo de aviso no início do texto. Quase que cuspi café em cima do meu teclado ao ler a “mitologia trolha” e a “fatwa dos alentejanos”. Parabéns pelo texto, está excelente!

  5. Por norma sou daqueles que “como e calo” nem sequer comento estas coisas, pois ás vezes dá ideia de ser conversa de café. Comentários lidos, dos camaradas e dos camaradas do outro tempo, pergunto:
    Será que podem falar estas coisas com linguagem do povo? Claro que eu tenho o google para ajudar mas nós os incultos, aqueles que votam “conscientemente”, gostaríamos de saber o que se passa. é isto que a internet tem de bom, podemos entrar em conversas pseudo-intelectuais, a discutir coisas sem nenhum nexo para chegarmos à conclusão:

    “Sim. Pequenos problemas têm soluções simples.”

    Espero que os senhores deputados não ganhem à hora. Saudações de Portugal

    Max

  6. A discussão está boa e pelos vistos vale a pena fazê-la. Espero até, que se aprofunde. Gostava de ouvir mais pessoas ligadas ao uso da palavra e da língua porque neste momento a questão parece estar a ser quase exclusivamente discutida ao nível político/ideológico. Não tenho problema nenhum em que se mude o nome do cartão, é preciso é saber exactamente que nome se lhe vai dar e porquê. E que os argumentos sejam bons e bem esclarecidos para que os portugueses percebam. Na minha modesta opinião, eu que não sou linguista mas apenas um curioso, acho que o nome “cartão de cidadania” não faz muito sentido. E se formos ver a definição de cidadania lê-mos o seguinte: “é a prática dos direitos e deveres de um(a) indivíduo (pessoa) em um Estado.[1] Os direitos e deveres de um cidadão devem andar sempre juntos, uma vez que o direito de um cidadão implica necessariamente numa obrigação de outro cidadão. Conjunto de direitos, meios, recursos e práticas que dá a pessoa a possibilidade de participar ativamente da vida e do Governo de seu povo.” o Cartão de cidadão pode portanto ser um recurso da cidadania, mas não é por si, cidadania, nem tão pouco a define. Também não concordo com a ideia de ser cartão de cidadã(o), como outro leitor sugeriu, pelas razões que já referi. Quando falamos em cartão de cidadão, falamos no documento enquanto recurso que foi criado pelo Estado e não ao cartão que cada um possui. Este não pode mudar de nome quer se trate de homem ou mulher ou indefinido. Portanto, a minha sugestão seria: “Cartão de identidade” que por acaso é o nome que se lhe dá noutros países, e que é o cartão que prova a nossa identidade e que me parece ser essa a sua principal função. Por comparação com “o cartão de cidadão” é muito mais específico e inclui todos nós.

    1. Caro cocomentador: Apercebo-me de que leu a minha proposta e não concorda com ela, “pelas razões que já referi”. Que já referiu ou que vai referir a seguir? É que as primeiras são inexistentes, não constam da sua intervenção. Quanto às que se lhe seguem, vejamos a sua pertinência: Claro que o cartão em apreço foi criado pelo Estado… para que cada um(a) o possua. Foi-lhe dado um nome. Se calhar até lhe podiam ter sido dados mais, pois quem pode manda, desde que não abuse (em democracia). Mas não, o Estado deu-lhe só um: Cartão de Cidadão. Agora as e os utentes do dito refletem e propõem uma mudança consentânea com as novas exigências de igualdade no tratamento entre homens e mulheres, mulheres e homens, entre os seres humanos de ambos os sexos. Propõem Cartão de Cidadania. Por que não? (Isto embora eu compreenda a sua argumentação crítica a este respeito, que não deixa de ter o seu interesse.) Quanto a mim, ao propor a denominação Cartão de Cidadã(o) para esse documento, não proponho uma multiplicidade de nomes. Proponho um nome único, ou pelo menos uma redação única do seu nome, com essa forma que sugiro e na qual se reveriam todas as e todos os utentes do documento. Uma vantagem suplementar é que cada utente, ao rever-se nele, aperceber-se-ia simultaneamente de forma explícita, e no entanto branda, de que o sexo a que pertence não é o único a usufruir do cartão. Eu, cidadão, leio no próprio nome do documento que ele abrange também as cidadãs do meu país. Realidade essa igualmente aplicável, em sentido inverso, à nossas concidadãs. Ao referirem-se, oralmente ou por escrito, ao seu Cartão de Cidadã(o), as cidadãs poderiam designar o Cartão de Cidadã, e os cidadãos o de Cidadão, mas ambos estariam cientes de que se trataria aí de uma facilidade de linguagem, pois do próprio nome oficial escrito, Cartão de Cidadã(o), decorre que se trata insofismavelmente de um cartão de cidadã e de cidadão, ou vice-versa, de cidadão e de cidadã. Propõe o caro cocomentador que, a fim de evitar mais polémicas, se denomine esse documento “Cartão de Identidade”. Por que não? Mas isso soaria a um regresso ao bilhete de identidade de antanho, o qual deu lugar ao Cartão de Cidadão porque este documento passou a conter, ou poder conter, muitas mais informações do que a simples identidade do utente, substituindo inclusivamente uma multiplicidade de outros cartões.

  7. Excelente texto. Da proposta gosto menos, embora o propósito seja digno, teria preferido cartão de identidade, sobretudo se a sua renovação fosse gratuita :)
    As palavras são muito importantes porque carregam as nossas ideologias, a nossa história, os nossos pensamentos e até as nossas emoções e intenções.
    A propósito de palavras, por vezes aparentemente inofensivas, vou contar-vos a história verídica do questionário da Junta de freguesia que preenchi há dias e que pedia a quem o tinha de preencher se era branco, preto ou cigano, usando a seguinte pergunta fechada com 3 opções mutuamente exclusivas: Etenia [sic!] • caucasiana • africana • cigana. Antropologicamente falando, isto é o fim da civilização…
    :(

    1. Esse questionário, pelo menos em Portugal, deve ser ilegal, não? Merecia denúncia à polícia. Foi denunciado?

    2. Não fiquei na posse dessa ficha da junta de freguesia que preenchi na presença da assistente social que, ao ver-me petrificada diante da pergunta sobre a etnia disse-me “é caucasiana”…
      João Macedo, acho que se eu for à polícia com o questionário da junta de freguesia não vai acontecer nada, não creio que seja ilegal.

  8. Obrigada pela resposta. Claramente discordamos em alguns aspectos. Para mim não é comparável a questão da paridade com o nome de um documento (aliás este não é o único que herdou as raízes machistas da sociedade). Não me oponho a essa mudança, porém o termo “Cidadania” está ameaçado, tal como a civilização (por outros motivos, obviamente). Comparar a mudança do nome de um documento ao facto de as mulheres serem tratadas como seres de segunda classe desvaloriza e diminui, no meu entender, a luta feminista. Para mim não podem existir cidadãos ou cidadãs de primeira ou segunda, e por isso considero que o argumento “diferença na vida concreta das pessoas” faz todo o sentido. Faz sentido porque vivemos uma epóca de retrocesso civilizacional, com o ressurgimento de uma europa xenófoba e racista. Vivemos num país que tem de obdecer a tratados que nos condicionam o salário, a progressão na carreira, aumentam a precariedade e a violência,…, “coisas concretas” muito mais sentidas no feminino. Talvez, tenha razão Professor Louçã, quando há cidadãos e cidadãs de primeira e de segunda, há graus de relevância diferentes no que altera a nossa vida. Enquanto absorvemos o discurso de que a austeridade está a ser travada, de que estamos a caminhar para um rumo melhor, esquecemos que a igualdade passa primeiro pelas oportunidades. E essas continuam muito escassas para os “de segunda”. O que me faz sentir “ser de segunda” são atitudes e argumentos dogmáticos e deterministas que não consideram o que não minha opinião faz ou não a diferença. E reforço: concordar com slogans que dão azo a chacota machista acho que dignifica muito pouco a Mulher. Abraço, Odete.

  9. Olhando para a história da civilização ocidental (desde a Grécia antiga) o conceito jurídico-político de cidadania (cidadão) tem sido pouco neutro: durante demasiado tempo foi sinónimo de pater familias e muitas vezes associava essa condição ao estatuto socioeconómico. A incorporação do conceito de cidadão por parte dos regimes liberais acabou por repetir esta fórmula. Contudo, as práticas sociais, apesar de estarem longe do desejável, foram mudando ao ponto de esvaziarem a palavra cidadão do seu significado patriarcal original. Em termos semióticos e em termos pragmáticos, o fonema “o” de cidadão pouco importa porque a palavra cidadão, da maneira como é usada atualmente, inclui os dois géneros. É por isso que o Bloco devia concentrar os energias na alteração ou na subversão de práticas machistas / patriarcais REAIS, em vez de andar a combater moinhos de vento, ou seja, manifestações de patriarcado onde ele deixou de existir.

  10. Gostava de comunicar o seguinte: Embora não seja sempre esse o caso, alguns intervenientes no debate referem-se a um Cartão do Cidadão. Seria apesar de tudo conveniente apercebermo-nos de que um Cartão do Cidadão é coisa que não existe. O que existe é o Cartão de Cidadão. Tal poderá significar que, voluntária ou até involuntariamente, a utilização da preposição ‘de’ nessa forma neutra já evitava uma excessiva presença da orientação masculinizante na denominação do documento. Convirá agora ir mais longe nessa direção, mas não esqueçamos apesar de tudo esse pormenor, não tão negativo quanto isso, bem pelo contrário. / Gostaria agora de insistir num ponto, já expresso mais abaixo, bem como em outros comentários no jornal, que é o de propor que, de preferência da Cartão de Cidadania, o Cartão de Cidadão passe a denominar-se Cartão de Cidadã(o), muito mais satisfatório para todas e todos, como já pude explicar, e como poderá ser reconhecido por quem reflita na questão.

    1. Peço desculpa, escrevi mal. Onde se lê “de preferência da Cartão de Cidadania, o Cartão de Cidadão passe a denominar-se Cartão de Cidadã(o)”, peço que se leia, por favor, “em vez de Cartão de Cidadania, o Cartão de Cidadão passe a denominar-se preferencialmente Cartão de Cidadã(o)”. Obrigado.

  11. Sabem o que é que é *realmente* importante mudar no cartão de cidadão? A estupidez incompreensível que é o ridículo tamanho das letras. O artista que desenhou aquilo e mais os montes de inteligentes que o aprovaram devem ter boa vista. Com tanto espaço de sobra no cartão e usam uma fonte que para muita gente é de leitura impossível.

  12. Camarada Louçã, com toda a admiração que nutro por ti, permite-me dizer que o argumentário do BE nesta questão foi o mais dececionante de toda a situação. Concordo que as palavras têm importância, sabemos têm raízes culturais de uma sociedade patriarcal e machista. No entanto a arrogância intelectual usada no vosso discurso é ofensiva. Esta proposta, sabemos bem que não reduz a desigualdade de género, sabemo-lo até pelos argumentos que usas. Sendo uma proposta outrora defendida pela direita europeia é um sinal que nada muda no sistema. O povo não é burro, ou se o é e o BE está tão avançado talvez tenhamos que mudar o povo. Sabemos bem que a apresentação desta proposta iria gerar controversia, podem negá-lo mas foi uma questão de marketing político para mostrar a “irreverência” do BE. Mas porque não mostrá-la primeiro no que de facto faz a diferença na vida concreta das pessoas? O que mais me desilude é que o BE (pela segunda vez) menoriza questões essenciais à igualdade centrando a discussão num “não assunto”. Por último, não será tempo do BE olhar para si mesmo e perceber o que se passa dentro do próprio partido? Se vamos discutir linguística porque não discutir os slogans de campanha da Marisa Matias? Como provavelmente sabes saí do BE por deixar de acreditar na política definida nos discursos eloquentes que não se traduziam na ação. Aqui está mais uma prova. O Bloco lançou uma proposta que sabia que iria dominar a discussão pública e não teve a humildade de argumentar com quem questionou o timming da mesma. Um abraço fraterno, Odete Costa.

    1. Não concordo. Primeiro, não estou aqui a discutir política partidária, não é esse o sentido deste blog. Comento assuntos que acho relevantes e critico as políticas que entendo criticar. Também acho que este é um assunto pequeno e não, não esperava nenhuma controvérsia quando o vi nas notícias, mas o certo é que destapou a verve marialva e isso merece combate.
      Quanto a “nada mudar no sistema”, o mesmo se poderia dizer da paridade e a paridade foi um grande progresso no respeito das mulheres, mesmo que pouco afecte o “sistema”. Aliás, acho esses argumentos tremendistas muito pouco relevantes: a “diferença na vida concreta das pessoas” é um criterio muito subjectivo, como se vê no caso vertente. Eu acho que faz diferença que a Odete não tenha cartão “de cidadão” mas “de cidadania”. Não acho nada prioritário mas, se perguntado, não vou recusar porque acho anormal que as mulheres sejam tratadas como seres de segunda classe.

    2. @Francisco Louçã:
      Não só a paridade não trouxe nada de revolucionário como acho que este novo projecto é irrelevante. Esta proposta de lei é ridícula e não faz nada pelos direitos das mulheres. Sou completamente a favor da igualdade de género mas isto é ridículo.
      Há coisas bem mais importantes a defender e discutir do que a mudança do nome no cartão do cidadão.

  13. Como somos papalvos!

    A falta de maturidade do BE nas sua propostas é usada pelo caro Louçã para ter mais protagonismo no que escreve, mesmo que não diga nada que valha a pena ler.

    É ver o número comentários a este seu “artigo”.

    Como somos papalvos!
    João Albuquerque

    1. O número de comentários significa simplesmente que há pessoas que querem discutir, ou criticar e algumas até insultar, como é seu timbre. Mas as discussões são assim e só se discute o que cada um acha importante. A soberba do “papalvo” é que é escusada.

  14. Caro Francisco Louçã,

    Agradeço-lhe ter-me feito um resumo desta opinião muito simples e fácil que grassa por aí: poupou-me aquele pequeno pânico de quem apanha um ou dois textos sobre este assunto e, enquanto o queixo cai, se apercebe de que o cronista em causa é alguém que tem o direito a “publicar”.

  15. Agora sim tendes en Portugal um PR. Uma espèce de novo PAPA anda pelas ruas a beijar tudo que apanha pela frente a beber ums copos esta em tudo en sintonia com o novo governo, Come com os refugiados , quer ainda receber mais algums milhares , e depois mandem os portugueses imigrar . nem imaginem como eu me sinto. orgulhoso de ser portugues e sobretudo de ter um PR. Palhaco um comentador de xaxa .

    1. O que é que isto tem a ver com o Cartão de Cidadão? É disso que se está a falar.

    2. Senhor Antonio Cortez o que tem à ver com o cartao de cidadao NADA e simplement para abrir os olhos aos portugueses que existe outras coisas mais importantes , como o bem estar de todos nos e nossos filhos e de PORTUGAL e que so vemos e politicos a venderem banha de cobra como faz esse Senhor PR.que agora ate apanha MORANGOS que Come com os refugiados mas nao Come com os portugueses pobres. Que so estao bem quando lhes chamem doutores , boas leis para eles, fracas para os outros, daqui à 20 anos os vossos filhos continuerao com salarios de 600E informé o Senhor Desde os 15 de idade nao mais vivi em Portugal mas gostava imenso de ver todos os PORT.. bem.

  16. Fui um dos que acharam ridícula, despropositada e sem sentido a proposta do BE sobre o Cartão do Cidadão, e não sou PSD nem CDS. Começa a ser tempo do Professor Francisco Louçã deixar de meter no saco que lhe convém as opiniões de quem critica o BE. Sempre que alguém tem um argumento contrário às suas ideias ou às do seu partido, o Professor resolve que lhe põe uma etiqueta. Possivelmente porque pensa, tal como no tempo da outra senhora o governo pensava, que “quem não é por nós, é contra nós”. Pois bem, não há só branco e preto, há outras cores. Pelos vistos, para o Professor Louçã, quem está no mesmo lado da barricada não pode ter ideias contrárias sobre um assunto como este. Em política e em democracia esta atitude tem um nome, como saberá. E não é bonito. E, já agora, se o BE queria tomar alguma atitude sobre o assunto, melhor andaria se propusesse a gratuidade do documento, uma vez que é obrigatório.

    1. Não coloco nenhuma etiqueta às pessoas. Critico o que não concordo, e da última vez que li a Constituição isso não era proibido. Lembrar que o PSD e CDS aprovaram uma resolução sobre a linguagem inclusiva é um elogio a esses partidos e não classifica nada. Lembrar que esses partidos rejeitaram a paridade, junto com o PCP, é uma crítica, e uma crítica é uma crítica.
      A proposta da gratuitidade é muito boa, mas não sei porque tem que ser alternativa à pequenissima mudança que é ter um título que considere que há cidadãos e cidadãs. Em contrapartida, a raiva que esta proposta revelou na sociedade é um retrato do marialvismo – e isso sim é a minha etiqueta à ideia que me quer convencer de que as mulheres têm que ter, por força legal, um cartão “de cidadão”.

  17. Confesso que gostei de ler a sua opinião, especialmente da utilização de duas palavras, alentejanos e comentadores depois da sua introdução.

  18. A culpa não é do BE, eles coitados (e coitadas) não sabem mais. A culpa é de quem lhes dá atenção. Mas sempre vai dando para rir desses patetas.

  19. Caro Francisco Louçã (Receio que esta forma de tratamento soe, e seja, demasiado familiar. Peço que não me leve a mal.)! Nunca tinha pensado no assunto. Mas, ao ler a notícia inicial, aqui no Público, tive o meu momento “eureka”. É o seguinte: a meu ver, a denominação suscetível de contentar todas e todos, à direita como à esquerda, seria a seguinte: Cartão de Cidadã(o). A cidadã teria no cartão, e veria, leria, na íntegra, o vocábulo que lhe corresponde. Idem no que se refere ao cidadão masculino, embora com o “o” final entre parênteses. Seriam estes parênteses o único acrescento gráfico a introduzir no cartão e fariam obviamente a diferença pretendida.

  20. Talvez o argumento mais importante sobre esta discussão seja o facto de o bloco na falta de causas fracturantes se tenha agarrado a um não assunto que só distrai o povo dos reais problemas da governação e sua forma, tal como a mentira do ministro das finanças em comissão de inquérito ou do funcionário em Bruxelas , os novos cortes do orçamento, a baixa da previsão do crescimento económico fantasioso inscrito no orçamento entre outros.
    Aonde está o partido que lutava pela transparência governativa? Ouve uma emissão de dívida pública no valor de 1800 milhões de euros directamente ao Santander e ninguém questiona porque não ouve um processo concorrencial. O primeiro ministro chama um amigo com ligações não plenamente claras no mundo da aviação negociar em nome do estado, e ouve-se silêncio.
    O principal factor no desenvolvimento económico é a transparência governativa, é pena que este seja um objectivo apenas na oposição.
    Pão e circo, é pena o bloco se ter reduzido ao circo.

    1. O Snr. José Sousa, deve andar muito distraído, ou então naõ acompanha como deveria a politíca. Então o Bloco não votou contra o Orçamento Rectificativo, sobre o caso Banif…. É dizer mal… por dizer. Infelizmente!!!

  21. Falta o argumento mais interessante. Como é mais complicado (não sei porquê), não é referido.
    Andou Edward W. Said, uma inteira vida, a mostrar que a mística “oriental”, o “orientalismo” não passava de um cliché de dominação (redução do outro ao exotismo) para agora nos andarmos a preocupar só com a discriminação de género e esquecer a antropológica e cultural. É que “cidadania” não é cliché (diferentemente das caçadas míticas orientais de Nerval), é mesmo parte de um esquema de pensamento ocidentalista. Então, o falocentrismo da língua discrimina e o etnocentrismo dos conceitos, não?

    1. De acordo. Há etnocentrismo e há história: o conceito de cidadão nasceu para a política na revolução inglesa e na revolução francesa. Suponho no entanto que a sua análise não o leve a recusar o direito de voto de cada pessoa, pois não? Agora, o que é que isto implica para aceitar ou rejeitar a simples mudança de “cartão de cidadão” para “cartão de cidadania” é que é algo que não descortino.

  22. É uma falta de respeito chamar “cidadões” a cidadãos, e cidadãos a “cidadonas”.

    Ás vezes o Bloco, até a mim me surpreende.

  23. Ricardo Araújo Pereira, imaginando um discurso bloquista: “Portugueses e portuguesas, estamos aqui reunidos e reunidas porque estamos todos e todas preocupados e preocupadas com a questão dos desempregados e desempregadas”. Com esta simples frase disse tudo sobre a ridícula e idiota proposta do Bloco de Esquerda.

    1. excelente !
      não compreendo, o dr Louçã que tem fama de inteligente a perder tanta energia e tempo com isto, espero que tenha percebido a mensagem do RAP

    1. Não se manteve o nome bilhete (que era de cartão) porque agora o cartão é de plástico. Eu proponho: “retângulo plástico de identidade” dado que da cidadania ainda estamos longe.
      Ainda bem que já utilizei para filtros o meu cartão de eleitora.

    2. “As palavras têm sexo. Amam-se umas às outras. E casam-se. O casamento delas é o que chamamos de estilo”. ( Machado de Assis)

  24. Esta temático da cartão do cidadã é um problema importantíssima. Como mulher que sou não gosta de ser tratado como masculina sendo eu feminino. A professora Louço, tem todo o razão no que diz. As deputadas masculinas estão carregadinhas de compurtamentos misóginas.

  25. O que não há pachorra é para este não assunto. O nome escolhido de ‘Cartão de Cidadão’ sempre me pareceu inusitado; que se chamasse ‘Cartão de Identidade’ ou de ‘Identificação’ – agora da Cidadania?! O que se deveria estar a discutir-se era, senão o fim do cartão — de resto rejeitado pêlos ingleses –, pelo menos a gratuitidade da sua emissão.

  26. Uma pergunta: a proposta era apenas para a mudança do nome do cartão? É que se foi, depressa passou para uma discussão em torno dos plurais que neste texto não foram faladas. Quero apenas referir, aquilo que pode ser considerado um preciosismo (não estou muito certo de que o será, mas acho que pode servir para uma discussão profunda do problema). É “cartão de cidadão”, e não, “do cidadão”, o que de alguma forma remete para uma menor objectivação relativamente ao género de quem possui, até porque se trata do cartão enquanto cartões (não há nenhuma identidade objectiva e única quando se fala no cartão – são sempre os cartões a que nos referimos) e de cidadão enquanto cidadãos. Por isso é que nos deviam perguntar: “tem o seu cartão de cidadão” e não “tem o cartão de cidadão”. Ou não? De resto, e ainda assim, aceito a mudança do nome do cartão, se bem que quanto às formas plurais, estou mais perto da opinião de um MEC ou de um RAP, se bem que ainda não conheça a do estimado professor.

    1. Ao que percebo do que leio na imprensa, foi essa a proposta. A questão dos plurais é uma questão de hábito social e de vontade. Terá já reparado que muitos escritores em língua inglesa falam dos seus leitores como “as leitoras”? Qualquer solução é sempre polémica. Mas a pior de todas é fingir que não houve na história uma marca da predominância patriarcal.

    2. ´Verdade, Tiago, o Francisco Louçã ainda nem sequer compreendeu que a designação atual não é “cartão do cidadão”, com a contração da preposição com o artigo definido masculino, mas “cartão de cidadão”, só com a preposição, que, como muito bem diz, remete para uma menor objetivação do género. Como número de eleitor e um sem número de outros exemplos institucionais e de designações oficiais, singulares e plurais.
      É inacreditável como se escreve um texto destes, cheio de inconsistências, algumas já assinaladas com alguma graça, e nem sequer se reproduz corretamente a designação oficial que está na base da polémica. Mais valia que o autor perdesse uns minutos a informar-se melhor sobre o que escreve.

    3. Uau, que engraçado. A cidadão Margarida tem um cartão de cidadão. Ainda bem que gosta.

    4. “Mas a pior de todas é fingir que não houve na história uma marca da predominância patriarcal” – Revisionista?

    5. “A cidadão Margarida tem um cartão de cidadão” – Eu tenho uma carta de condução, será que sou menos masculino?

  27. A proposta da deputada Sandra Cunha já teve o mérito de se fazer uma avaliação do estadio da técnica no que se refer a machismo mais ou menos marialva em Portugal. E, curiosamente ou talvez não, há uma associação possível de estabelecer: os protagonistas da luta pelos custumes são também reacionários no plano político. Não há milagres: quem é de direita quer ver o mundo petrificado como lhes dá jeito. A mudança vem sempre dos inconformados da esquerda.

    1. Repare na sua incoerência em apenas 2 linhas: “os protagonistas” (onde estão “as” protagonistas?). Reacionários (onde estão as “reacionárias”?) “Dos inconformados de esquerda” (onde estão “as” “inconformadas” ?)
      Portanto, caro José, pqp essa palermices.

    2. Venham mais propostas dessas que o país agradece e muito. São bastantes esclarecedoras, francamente honestas e justamente correctivas!
      Eu me penitencio e lamento que não haja diariamente dessas propostas/acções, porque é inadmissível que passe um dia só que seja sem luta contra a violência marialva machista que inquina a língua portuguesa e, consequentemente, a consciência dos respectivos falantes.
      Eu estremeço a cada vez que puxo do cartão e leio “cartão de cidadão”, pois vede bem o que me sucedeu há uns dias: Estando eu em circunstância que me obrigou a exibir o cartão numa repartição pública, deparei-me com a designação “cartão de cidadão”. Sendo a funcionária mulher…bom…deparei-me com uma pessoa que se assemelhava ao género feminino e desatei aos berros: ” cartão de cidadão! está a ver bem!olhe o que está aqui escrito: C.I.D.A.D.Ã.O, não é cidadã!!!! Pensa que ser cdadã vale alguma coisa? Não vale! Não está no cartão!!!”. Passados uns momentos, como que despertando de um pesadelo mas ainda com a memória do sonho, fiquei estarrecido! Não podia acreditar que pelo simples facto de me deparar com uma tal designação surgisse em mim um marialva machista. Não consigo viver com a ansiedade que me causa a mera hipótese de ter que proferir uma expressão sem diferenciação de género. Não sei como explicar, dou por mim, de repente, a ter pensamentos violentos contra o género feminino – e outros mais que desconheço mas que certamente existirão. Oxalá a proposta passe porque sinceramente não me consigo corrigir desta maleita….

    3. Caro fgcosta,
      O meu comentário reporta-se e cinge-se ao texto da autoria de Francisco Louçã acima. Se leu o texto terá observado que os protagonistas das observações machistas mais ou menos disfarçados, até observará o caso extraordinário do deputado europeu, Vital Moreira, que disfarça o seu machismo de totalitarismo versus liberdade, são todos do género masculino. Aliás observará que tendo a proposta sido feita por uma Sr.ª deputada quem ergue bandeiras raivosas e malcriadas são homens. Isto diz muito do que falta fazer para que homens e mulheres sejam iguais em dignidade nos termos da Lei e na interação das pessoas na família, na sociedade, nas instituições privadas e públicas, na rua, por todo o lado. Eu não me excluo, pelo contrário, da necessária reciclagem obrigatória para combater a pesada herança machista que também carrego desde a nascença.

      Caro Manuel gonçalves,

      O texto que construiu é ele próprio denunciador dos preconceitos do autor. Não será por Lei que “se vai corrigir desta maleita…” Tem mesmo de ter um papel ativo pessoal é insubstituível à sua reciclagem.

  28. O Prof. Fransci Louçã tem razão ao dizer que «Maria» não é um cidadão, pelo menos em dados contextos. A palavra «cidadão» tem género masculino, mas é em geral ambígua entre uma referência a um sexo natural indefinido e um sexo masculino. Se alguém disser «o primeiro cidadão a entregar 1000 faturas ganha um automóvel» ou «preciso de um médico», ninguém que conheça minimamente a língua pensa que me estou a referir a um homem.

    Aliás, chamar-se ao género masculino «masculino» é apenas uma acidente da história, poderíamos chamar-lhe outra coisa como «género não marcado».

    Eu vejo muitos textos escritos por estrangeiros a aprender português, e um erro muito frequente é escreverem frases deste género: «Uma pessoa deve ficar preocupado com a situação atual». Estas frases de cariz impessoal são muito comuns, mas ninguém se choca por ser usado um feminino (e usar o masculino está claramente errado).

    Quanto ao comentário do historiador, o Prof. Louçã mover-se-á certamente noutros meios. Lembro-me de uma professora de filosofia que tive comentar precisamente que não tinha pachorra para pessoas que insistiam usar «humanidade» em vez de «homem».

    1. Foi por isso mesmo que o PSD e CDS propuseram que se passasse a usar “direitos humanos” e não “direitos do homem”. Tinham razão mas já lá vai o tempo.

    2. Não sei bem qual é a tese por trás desse comentário (de resto, nunca na minha vida votei no PSD ou no CDS), mas de qualquer forma esse é um assunto muito marginalmente relacionado. Mas não deixo de reparar que foi apenas a isso que respondeu. Atacar apenas um argumento lateral ou mais fraco é uma estratégia retórica eficiente, mas não ajuda muito a avançar a dicussão.

    3. Lembra-se qual era a discussão? Era substituir “cartão de cidadão” por “cartão de cidadania”. Simples e gratuito. Coisa pequena. A polémica emocionada é um excelente retrato do marialvismo.

    4. Ha! É sem dúvida uma «pequena alteração». Fora a alteração feita no vácuo, parecer-me-ia insignificante. O problema não é a alteração em si, é o argumento linguístico por trás dela, que não colhe, e o facto de aceitar a alteração ser uma forma de ratificar esse argumento, o que daria mais força a propostas semelhantes no futuro (uma forma de slippery slope, se quiser: http://www2.law.ucla.edu/volokh/slippery.pdf ).

  29. Gostei especialmente da forma subtil como o projeto do Bloco de Esquerda é transformado no projeto da deputada Sandra Cunha, do Bloco (que quase parece só poder ser responsabilizado por ter essa deputada). Em contraste com a transformação da declaração do deputado comunista Jorge Machado, cujo argumento (“não é prioritário, não é uma questão de género mas de gramática”) foi truncado com a desonestidade habitual, numa confrangedora, despropositada e falsa diatribe contra “esse partido”. Argumentação ao nível do Raposo.

    1. Pois é, estamos em desacordo sobre a paridade entre homens e mulheres. É a vida.

  30. Excertos dos Estatutos do BE que creio foram da sua responsabilidade. 2 – O Bloco de Esquerda, adiante também referido como Movimento, inspira-se nas contribuições convergentes de cidadãos, forças e movimentos que…
    Artigo 3o
Aderentes
….
4 – Cada aderente fica vinculado a um concelho e distrito ou região de ligação, a constar no seu cartão de filiado….
    Artigo 4o
Direitos dos Aderentes
1 – São direitos dos aderentes do Bloco de Esquerda:….
    Artigo 8o
Convenção Nacional
1 – A Convenção Nacional, como órgão máximo do Movimento, é composta pelos aderentes que para ela foram eleitos nos termos do Regulamento da Convenção Nacional…..
    Artigo 10o
Mesa Nacional
….
2 – A MN será composta, no momento da sua eleição, por um mínimo de 50% de membros que não sejam ou deputados, nacionais ou europeus, ou funcionários do Bloco, ou exerçam cargos remunerados de assessoria a representantes eleitos ….

    1. Bem observado. reformulando em “linguagem inclusiva”:

      “2 – @ Bloc@ de esquerda, adiante também referid@, como Movimento, inspira-se nas contribuições convergentes de cidadanias, forças e movimentos….
      Artigo 3o
Aderentes e Aderentas
….
4 – Cada aderente e aderenta fica vinculado e vinculada a um concelho e distrito ou região de ligação, a constar no seu cartão de filiado e de filiada….
      Artigo 4o
Direitos dos Aderentes e Aderentas
1 – São direitos dos aderentes e das aderentas do Bloc@ de Esquerda:….
      Artigo 8o
Convenção Nacional
1 – A Convenção Nacional, como órgão máximo do Movimento, é composta pelos aderentes e aderentas que para ela foram eleitos e eleitas nos termos do Regulamento da Convenção Nacional…..
      Artigo 10o
Mesa Nacional
….
2 – A MN será composta, no momento da sua eleição, por um mínimo de 50% de membros e membras que não sejam ou deputados e deputadas, nacionais ou europeus, ou funcionários e funcionárias do Bloco, ou exerçam cargos remunerados de assessoria a representantes eleitos e eleitas ….

    2. hahahaha… muito bom! completamente hipoceitas os argumentos de quem nao sabe por a casa em ordem antes de vir fazer de policia de costumes aos outros. so me entristece que dos poucos partidos fora do arco pcppsd, insistam em atitudes que os descredibilizam perante os seus oportunistas votantes.

    3. Aqui está um excelente argumento para manter um “cartão de cidadão” para o José e outro igual para a Maria. Brilhante, FGCosta.

  31. Já repararam no sexismo descarado da Ordem dOS médicOS? Só mesmo a distração do BE para este assunto (e já agora para as outras ordens como a dOS advogados, dOS enfermeiros, dOS engenheiros, para sindicatos como o dOS maquinistas, o dOS metalúrgicos, etc…) explica como este desaforo reacionário e ofensivo pode existir impunemente.
    Sabiam que na nossa sagrada e supostamente imaculada Constituição o termo cidadãos, sem o contraponto do termo cidadãs, aparece 88 vezes??? Afinal sempre há que rever a Constituição?
    Mas o mais extraordinário e preocupante para todos e todas os sacerdotes e sacerdotisas igualitaristas é ver como o lobby sexista se infiltrou no próprio BE: fui ler os estatutos do dito e aqui vão alguns exemplos (só alguns para não vos maçar):

    Artigo 1o (para abrir em beleza…)
Definição e objetivos
….
2 – O Bloco de Esquerda, adiante também referido como Movimento, inspira-se nas contribuições convergentes de cidadãos, forças e movimentos que…
    Artigo 3o
Aderentes
….
4 – Cada aderente fica vinculado a um concelho e distrito ou região de ligação, a constar no seu cartão de filiado….
    Artigo 4o
Direitos dos Aderentes
1 – São direitos dos aderentes do Bloco de Esquerda:….
    Artigo 8o
Convenção Nacional
1 – A Convenção Nacional, como órgão máximo do Movimento, é composta pelos aderentes que para ela foram eleitos nos termos do Regulamento da Convenção Nacional…..
    Artigo 10o
Mesa Nacional
….
2 – A MN será composta, no momento da sua eleição, por um mínimo de 50% de membros que não sejam ou deputados, nacionais ou europeus, ou funcionários do Bloco, ou exerçam cargos remunerados de assessoria a representantes eleitos ….

    Estes estatutos foram escritos quando o Louçã era responsável do BE. O que tem a dizer?

  32. O BE enleia-se em ninharias que depois dão maus resultados… Tratem mas é do essencial para as pessoas terem condições de viver razoavelmente.

    1. Li esse argumento a propósito do direito de voto das mulheres. O importante era mesmo o pão.

    2. Também já ouvi “Se não há pão que comam brioches…”, mas também já ouvi que não se deve julgar o passado com os olhos do presente. Uma coisa são direitos outra são designações linguísticas. Não vejo em que é que o “cartão de cidadão” diminui o direito das mulheres, vejo é que abre precedentes para nos enredarmos em minudências sem fim.

    3. Ó António Florença, não sei onde quer chegar, mas pela simbologia da canção, o galo vermelho (revolucionário) e o galo preto (fascismo) é uma música que fala sobre a guerra civil espanhola. Apesar da simbologia da “luta de galos” referir-se ao masculino (note-se que galinha é pejorativo: medricas=mulher), há muitas mulheres que quando estão no poder fazem pior ou igual aos homens, veja-se o caso da Margaret Thatcher. A guerra, a fome, peste e a morte são contrárias ao essencial que é a vida. É nisso que o BE se tem de concentrar, defender uma vida condigna para todos os portugueses. Quando se inverter a pirâmide de Maslow (ou melhor ainda, a quadratura do triangulo, neste caso o cubismo da pirâmide:), aí já podemo-nos entreter a discutir as coisas mais comezinhas.

  33. Os comentadores existem para comentar e receber o cheque pelo serviço prestado.Quanto não há tema ,inventa-se.Quando não há educação,inteligencia,criatividade,”polemiza-se”,ou seja ,inventam-se fantasmas,medos,etc.A unica não polémica é esta:o dinheirinho(e as notas até podem representar 10 escravos a serem chicoteados,que desde que não sejam falsas,é o que interessa)

  34. Caro Francisco Louçã. considerou adequar a coerência do conteúdo com a estrutura do texto?
    Escreve “Muitos comentadores descortinaram a oportunidade de fazerem brilhar a sua mundividência”. E logo à frente, para ilustrar, apresenta, em primeiro lugar, uma comentadora – Luísa Meireles.
    Parafraseando o seu argumento: A Luísa, que eu saiba, não é “comentador”, é “comentadora”.
    Alerto também para o ponto onde refere “Os quezilentos” – não nos esqueçamos também das quezilentas!
    Posto isto, ainda acha relevante corrigir para a linguagem inclusiva? Ou deixar-se-á aderir, como denuncia, ao: “isso-pode-ser-verdade-mas-não-vale-a-maçada”?

  35. Até concordaria com a proposta se fosse outra. Por exemplo, “Cartão de Cidadão” e “Cartão de Cidadã”, ou “Cartão de Identificação”.
    No dicionário comunista (que é o que V.Exa é, apesar das máscaras), o termo “Cidadania” possui um significado diferente (tal como a palavra Democracia) do que é atribuído pelo resto dos cidadãos, os não “iluminados”. Sentimos aqui a garra escondida do “poder omnipresente e invisível” de Gramsci.
    Coitados dos que ridicularizaram a proposta. Acabarão por se engasgar no seu próprio riso.

    1. António Albuquerque, tratando-se de “Cidadania”, o que diz é verdade do “dicionário do Iluminismo” de que somos todos herdeiros, comunistas ou não. Tudo que fizemos para que fosse, e tudo o que fazemos e faremos para que seja, cada vez mais inclusivo… “E a busca da justiça continua.”

    2. Acha mesmo que um dia seremos todos iguais socialmente? A Natureza (logo o Homem incluido) é competitiva/egoísta (Gene Egoísta – Dawkins) e não há lei ou doutrina que quebre isso.

  36. Obrigado por repor as coisas no seu devido lugar. A grande celeuma que este assunto causou só demonstra a mesquinhez pequena do nosso grupinho fechado de políticos e comentadores dominantes.

    1. O Fgcosta tem que actualizar a sua linguagem sexista e discriminatória, porque “politicos e politicas, comentadores e comentadoras” não inclui toda a miríade de géneros possíveis e imagináveis no processo em curso de construção social de toda a realidade.

    2. O Jonas tem toda a razão:
      corrijo para: todos e todas bem como para os hermafroditas e pessoas de género indeterminado ou não consciente e voluntariamente assumido. Não está perfeito, mas melhorou. Não?

  37. P.S. A graçola do título “a civilização está ameaçado” tem pouca graça e é ridículo ridicularizar os outros.

  38. Chapeau ao duelista e polemista! São bengaladas bem dadas. Apenas uma notícula quanto ao fundo da questão: como aprendemos, uma parte da Revolução ganha-se com o “só se muda o que tiver que ser” e a outra com o “quanto menos se mexer melhor”. Não é que me oponha ao Cartão do Cidadão ou ao Cartão da Cidadania, mas já estava tudo tão bem com o Bilhete de Identidade (eu por exemplo nem sequer tenho Cartão de Cidadão, que ao que parece não está disponível para quem viva no estrangeiro …). E a realidade não muda com a introdução/criação de “factos linguísticos”, chamemos-lhes assim, piscando o olho ao inquilino de Belém.

  39. Não me importa o nome do cartão. Não me importa que o nome se mantenha. Não me importaria se o nome tivesse sido alterado. É um problema irrelevante. O que não compreendo é o ódio que transpira deste artigo. Afinal, quem impediu a alteração foi o PCP, um dos partidos da geringonça. Mas sobre isso nem uma palavra. Já agora, por cá, ninguém criticou a figura de uma mulher negra escrava na nota de 20 dólares. Não invente fantasmas.

    1. Suponho que não quis ler o texto. Mas para comentar por vezes é útil ler o texto.

    2. Louçã, ao seu artigo “A vez de Sousa Cintra …” respondeu Rui Machado com um comentário longo e esclarecedor, mas … um pouco agressivo. Louçã reagiu e o comentador pediu-lhe desculpas. Em geral, os seus artigos, em particular, o de hoje, são francamente mais agressivos do que o comentário de Rui Machado. Recomendo-lhe que use as boas práticas que espera dos comentadores.

  40. A questão d@ “Cidadania” importa a meu ver, sobretudo, pelo espaço que abre ao “terceiro incluído”.

    PS: Quanto ao meu comentário anterior, Francisco Louçã, caso não tenha compreendido… Porque não @ como se pratica, há muito, no Bloco?

    1. Eu acho-@, devo dizer, duma exímia elegância “à venir” (belíssima expressão de Derrida, “fora dos eixos”, intraduzível, que compõe “por vir”, “a vir”, porvir, devir).

  41. Atenção ao título, Francisco Louçã, continua o “tempo velho”… Há (um) masculino a mais, (um) feminino de menos.

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