Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

19 de Abril de 2016, 08:56

Por

E quantas crianças foram mortas?

É hoje a eleição interna para escolher em Nova Iorque entre os candidatos do Partido Democrata: Hillary Clinton ou Bernie Sanders. Pode vir a ser um momento decisivo entre os dois, visto que Clinton, ao contrário do que se esperava, não tem a nomeação garantida e se enfrentou com um adversário que não só tem melhores sondagens contra Trump ou Cruz, como mobilizou uma energia anti-finança que se revelou um factor político essencial nas opções dos eleitores (há um mês, Sanders estava 48% atrás de Clinton, ontem estava 6%).

Nova Iorque é também um dos estados com história política mais enraizada, em que os democratas têm tido supremacia eleitoral. Mas é também onde este partido está mais associado ao lobby pró-Netanyahu e, por isso mesmo, o debate sobre o conflito do Médio Oriente passou a ser um tema importante entre as duas candidaturas.

A questão esteve presente no debate recente entre Clinton e Sanders, com Sanders a acusar Clinton de ter favorecido a invasão do Iraque, a que ele se opôs (mas aceita a política actual da administração norte-americana para o Médio Oriente). Bernie Sanders foi ainda mais longe e nas últimas semanas criticou Israel pela repressão contra o povo palestino, mencionando milhares de mortos civis provocados pela acção das forças militares. Dez mil mortos, disse o candidato.

Sanders, que é de origem judaica, provocou uma tempestade entre os apoiantes da política de Israel e o seu embaixador veio acusá-lo de mentir sobre os números. O candidato veio depois corrigir as declarações, reconhecendo que os dez mil mortos se referem a um período extenso de tempo, mas que em 2014 mais de duas mil vítimas confirmam a violência militar israelita.

Os registos de mortos nesses ataques no verão de 2014 contra Gaza variam segundo as fontes. Instituições palestinas referem 532 ou 546 crianças mortas, num total de vítimas que seria quatro vezes superior. As contagens do organismo oficial das Nações Unidas indicam 2251 vítimas, entre as quais 551 crianças, só nesse curto período de julho e agosto. As mesmas fontes indicam também que, desde 2000, 131 crianças israelitas foram vítimas do conflito.

Sanders tem portanto razão ao apontar a gravidade da guerra permanente nas terras palestinas. É uma multidão de vítimas e uma só justificaria o fim da guerra.

Ora, como sublinha Alexandra Lucas Coelho, esta denúncia é somente um pequeno passo na política norte-americana. Um passo notável no reconhecimento da realidade dramática, mas um pequeno passo. Como que a confirmar a sua dificuldade, Sanders nomeou há dias uma jovem, Simone Zimmerman, como responsável pela sua campanha junto da comunidade judia. Dois dias depois, alguém desencantou um post do Facebook em 2014, em que ela acusava o primeiro-ministro de Israel de ser “arrogante, enganador e cínico” e “manipulador”, pois “sancionara a morte de mais de 2000 pessoas este Verão”, e ela foi imediatamente suspensa das suas funções na campanha.

Afinal, escrevera simplesmente o que Sanders tinha acabado de dizer, mas a pressão foi demais. Não podendo sair o candidato, saiu a conselheira. E assim se provou que mesmo o candidato mais atento ao drama não é capaz de persistir nos seus valores.

Comentários

  1. Caro Francisco Louçã,

    O seu artigo não refere que na célebre entrevista ao NY Daily News, Bernie Sanders faz alusão a dez mil inocentes mortos na operação de 2014 mas fá-lo ao mesmo tempo que afirma claramente não saber os números concretos e pedindo confirmação aos jornalistas presentes. Foi este contexto que – não surpreendentemente – foi omitido para permitir fazer manchetes sobre o assunto e tentar minar o seu apelo entre o eleitorado. É sabido que Bernie Sanders não é especialmente crítico de Israel – pelo menos publicamente, mas no entanto até o famoso Norman G. Finkelstein o apoia, embora não cegamente. A este propósito, o último tem um artigo sobre o assunto na revista The Nation.

    Cumprimentos,

    Pedro Peixoto

  2. …se, Bernard Sanders, chegar à presidência dos EU, isso sim, seria um verdadeiro ‘upgrade’, não só para os americanos, como para todo o Mundo, o maior desde Roosevelt (esqueçam o flop Obama). Sanders tem um percurso consistente no que respeita aquilo que mais pode interessar hoje a um ser humano que não seja completamente acéfalo (sim, tratando-se dos EU, quer se queira quer não, estamos a falar muito do mundo todo).
    Na defesa dos direitos humanos, na defesa dos equilíbrios ecológicos para o planeta, Sanders, foi sempre uma voz presente; contra as descriminações, contra as máquinas de guerra, pelos direitos das minorias, contra as desigualdades sociais, e, sobretudo, contra este casino ululante em que se transformou o sistema financeiro mundial.
    Sanders é judeu (não simplesmente de origem judaica, como conta FL) judeu secular e um fã do Papa Francisco (ver a sua página oficial) talvez por isso mesmo seja mais difícil atacá-lo desse lado, mesmo quando condena Israel pela sua política de guerra, assim, e apesar disso, se NY (pátria do judaísmo nos EU e sede do casino financeiro) lhe der a sua bênção então, julgo que teremos homem…faço figas…

  3. O judeu Bernie Sanders é um “independente”, mas ao ver o seu histórico de votação, nada o separa dos típicos “democratas judeus” do partido Democrata. Vejamos:

    – Bernie Sanders finge ter sido contra a invasão do Iraque, então porque repetidamente votou para financiá-la?

    – Diz que não é um grande fã de Netanyahu … Mas apoiou e votou a favor do seu ataque genocida aos palestinos em Gaza em 2014 … Afinal, temos um sionista de coração…

    Mas alguém se admira?

    —————-

    Email de 2002 de H.Cinton revela que a guerra na Síria foi para proteger a hegemonia de israel na área.

    https://wikileaks.org/clinton-emails/emailid/18328

    mais:

    – “Se eu for Presidente, atacarei o Irão …”
    Disse em Julho 3, 2015, a candidata Hillary Clinton numa audiencia na Dartmouth College campaign event.  Ela considerou o Irão uma “ameaça á existência a Israel.

    Líbia:

    https://www.youtube.com/watch?v=Fgcd1ghag5Y&app=desktop

    Satã veio, Satã viu e uma civilização cai em ruínas. (excelente artigo)

    http://www.veteranstoday.com/2016/03/30/satan-came-satan-saw-and-a-civilization-falls-into-ruins/

    Estamos bem entregues … Não se preocupem.

  4. “E assim se provou que mesmo o candidato mais atento ao drama não é capaz de persistir nos seus valores.”

    Francisco Louçã: julgo que os leitores do Público querem ver se “persiste nos seus valores” e comenta o facto de Lacerda, representante de Costa nas negociações do BPI/CaixaBank/Isabel dos Santos, ser administrador da GeoCapital, empresa associada da Sonangol que é um dos maiores investidores do BCP.

    Lacerda está proibido de, no âmbito das suas funções na GeoCpaital, passar à Sonangol, dona do BCP, informação relevante sobre o BPI? E quem verifica que o dado fundamental de uma determinada decisão (que deu vantagem ao BCP/Sonangol) não foi informação privilegiada que Lacerda “importou” do BPI aquando da sua negociação como representante do Governo?

    (Recordo que a Sonangol é “dona” do BCP no mesmo sentido em que Loução acusa Cavaco de ser dono do BPN)

    1. Caro Francisco Louçã,

      obrigado pela resposta, mas não encontro nenhum texto seu relativo à delicadeza de que se reveste a participação de Lacerda no processo de negociação no BPI.

      Já agora, poderia aproveitar também e comentar o facto de Lacerda trabalhar na HK-Express, cujo dono é a HNA, e ter representado o Estado nas negociações da TAP em que o interlocutor era a Azul, empresa pertencente também à HNA? (A HNA é o maior acionista da Azul com 24%, e tem 45% da HK Express).

      Obrigado.

  5. A intermitência é o grande jogo da memória, todos os dias percebemos que os actos se repetem e se revogam para voltarem a ser modelos de comportamento a intervalos mais ou menos coincidentes com a capacidade de a memória os esquecer e que, diga-se, são tão voláteis quanto intencionais. Mas neste jogo, constatamos que a memória de um político é duas ou mais vezes mais volátil do que a do cidadão comum, a sua capacidade em reter e consolidar uma estratégia esbarra constantemente na ligeireza com que se apropria de uma causa, fosse ela acometida de solidariedade ou de tragédia, mesmo quando se trata de milhares de mortos como no médio oriente e de onde brotam os pesadelos migratórios que já não envergonham ninguém. A intermitência é pois também o jogo da tragédia, das guerras sequenciadas e assimiladas como matéria-prima para os debates, do hediondo explanar de mortos contados, discute-se a importância de serem mencionados 10000 ou 2000 mortos, números relativos já que faz toda a diferença destacar que a morte de 542 ou 546 crianças retira qualquer importância aos restantes 9458 ou 1454 adultos (a guerra parece ganhar dignidade se matar só adultos e de preferência homens…). Este debate já fede, se a tragédia humana que estes conflitos geram e renovam a cada mandato de governo representam a única via de esperança da humanidade, apostemos antes em tiranos confessados, que assim acabamos com a intermitência e enfrentaremos um adversário despótico, sim, mas honesto, sem subterfúgios democráticos que matam os homens duas vezes, no corpo e na esperança.

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Tópicos

Pesquisa

Arquivo