Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

11 de Abril de 2016, 08:26

Por

Vamos jogar ao Monopólio da Cultura?

Ainda que hoje a dicotomia (espartilho?) direita/esquerda já não possa ser vista à luz da ortodoxia de há décadas, continua a haver áreas que uma ou outra acha que é quase monopólio seu. Sobretudo à esquerda.

Lembro-me do que o notável humorista brasileiro Millôr Fernandes disse sobre a diferença fundamental entre Direita e Esquerda: “a Direita acredita cegamente em tudo que lhe ensinaram, e a Esquerda acredita cegamente em tudo que ensina”.

 Refiro-me, por exemplo, ao domínio (no duplo sentido do vocábulo) da cultura. A maioria dos agentes culturais afirmam-se como sendo de esquerda. Seja nas artes, na literatura, no património, no cinema, na dança, na música até. É até curioso que quando uma personalidade que sobressai numa destas áreas é de direita ou é vista como tal, dizem, à sua esquerda, que é “o escritor, artista ou outra coisa qualquer do regime”. À esquerda, não há regime, há república ou, mais ufanamente, história.

Esta apropriação sugerida ou consentida raia, não raro, um certo ar de alguma, e por vezes insuportável, supremacia moral. E, por esse mundo fora, tem a corte de críticos, analistas e opinadores a suportar o mainstream das suas diversas expressões culturais. Basta olhar para os certames, festivais, galardões e Prémios Nobel para ter a dimensão desse apoio. Enfim, é o que em jeito tecnocrático, se pode chamar uma discriminação positiva à partida, ainda que nesta tipologia  haja uma generalização abusiva de confundir o agente com o acto cultural.

Em Portugal, a questão ainda é mais relevante quando à “Cultura” (leia-se departamento do Estado, Ministro ou Secretário de Estado da dita Cultura) se associa, em regra, o preço a pagar pelos contribuintes a que, pomposamente, se chama subsidiação cultural. De mãos dadas e à boa maneira portuguesa, o grande debate da Cultura é o debate do maior ou menor subsídio e respectivo formulário orçamental. Uma espécie do conhecido jogo do Monopólio com boa banca e boas casas para calhar nas faces do cubo político-partidário…

Cá por mim, não sou esquisito. Se gostar, gosto mesmo seja de direita ou de esquerda ou de qualquer centro escondido ou fingido. E se não gostar, idem aspas.

O meu critério é um único: se o que me é disponibilizado me faz aumentar o amor pela vida. E se me faz acreditar na utopia. Como escreveu Umberto Eco: “O que é que a cultura pretende? Tornar o infinito compreensível”.

Comentários

  1. Como é que a Direita pode fazer acreditar em utopias? Se os arcos-íris são a perdição da Esquerda; a Direita acalenta-se com as distopias.

  2. A cultura não é popular no seu blogue António Bagão Félix, só cá apareci eu, e ainda por cima para criticar Umberto Eco. Tudo calado, ainda por cima num bom artigo… A cultura não é sexy?

  3. Essa do Umberto Eco é mesmo muito criticável, até porque o mesmo poderia ser dito de qualquer religião tradicional, pelo menos. É difícil dizer o que é a Arte, mas é fácil saber que ela não sai, de todo, do “Ministério da Cultura”. Esse apoia alguns artistas, com critérios mais do que duvidosos e manhosos, e, certamente, incomparavelmente inferiores ao da singela Fundação Calouste Gulbenkian. Enfim, também há o Património, aí o tal de “Ministério da Cultura” já é relevante. Não tenho qualquer dúvida de que Portugal ganharia se toda a subsidiação das artes pelo Estado terminasse. O Estado é a antítese da Arte. Não ligam. Na Ciência é o mesmo, não ligam.

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