Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

7 de Abril de 2016, 22:59

Por

O efeito pedagógico de uns pares de lambadas

Tudo foi péssimo nesta história. A avalanche madrugadora de João Soares (e porquê ontem sobre textos tão antigos? O que é que aconteceu?), as suas alusões à vida pessoal dos seus dois críticos, o tom da conversa, a ameaça em si, a presunção, o estilo, tudo. Até se poderia acrescentar a total inconsequência da coisa, pois até roça o ridículo a acusação de que o ministro ameaçou: de facto, o ministro ameaçou deixando claro que era tudo do tipo “segurem-me se não eu bato”, o que, não sendo álibi, é tão triste como ameaçar. Era tudo a fingir, era para se perceber que era a fingir e só foi a sério porque foi a fingir. O seu colega Ascenso Simões, que tem jeito para estas coisas de trazer uma sanfona para um velório, veio logo queixar-se de que a “política viril” estava a ser esquecida.

Se o ministro pensa que ainda vivemos no século XIX, a calcorrear o Chiado de bengala na mão para ajustar contas com os adversários, mesmo que tenhamos que os perseguir pela Brasileira adentro, vive num mundo de fantasia e não sei se lhe poderia imputar maior falha do que essa. Estes arroubos passadistas não são discurso nem são acção. São confissões tristes de menorização.

Amigo que sou de Augusto M. Seabra, que considero um grande crítico cultural, e não tendo nenhuma proximidade de Vasco Pulido Valente, que leio com gosto sabendo sempre o que vai escrever, nada de pessoal me determina nesta questão. Mas penso que há uma questão de fundo: eles criticaram o ministro e era o que faltava que isso fosse caso de alarme na República. Portanto, ao ameaçar, o ministro enlameou-se no debate político. Não havia necessidade.

Frases infelizes, todos as usámos alguma vez. No caso, Pulido Valente escreve todas as semanas diatribes pessoais violentas, o que tem feito a sua aura como cronista. Ninguém o levará demasiado à letra, porque o estilo é o homem, embora não me lembre de ter ameaçado alguém. Mas um ministro tem uma função que não é a de um cronista: ele cumpre outras regras, como seja a do exercício de uma função de Estado. Um fala de si ou por si, outro foi eleito e tem uma tarefa pública a cumprir. Não está no ministério para ajustar contas pessoais, não está para se irritar, nem para gritar, nem para bengalar, nem para fingir.

Uns pares de lambadas não têm nenhum efeito pedagógico nem político, a não ser atingir o próprio ameaçador, como se verificou. Melhor que ficasse a lição.

Comentários

  1. Deixemo-nos de rodriguinhos. O que fez Soares pedir a demissão foi a estocada final que Costa lhe deu ao cair do pano, pedindo desculpas por ele (como se fosse um pai responsável pelas tolices de um filho) e tomando partido por um dos lados desta triste história. Soares pensa que pode dizer tudo e mais um par de botas por ser filho de quem é (que, inexplicavelmente costuma sair impune das tolices que diz e das ameaças que faz) e por isso pensou que nada o incomodaria, e com um pedido de desculpas pouco convincente, a coisa passava. E o assunto teria mesmo ficado por ali, não fosse o “amigo” Costa, especialista em “chegar pra lá” quem o incomoda, aproveitar a deixa e passar-lhe o raspanete sonante em público. Depois disso, o que é que a criatura podia fazer? O chefe mostrou-lhe a porta da rua e ele nao teve outro remédio senao pegar na trouxa e pôr-se a andar. Tudo poderia ter sido diferente se as coisas tivessem tido o recato próprio que a situação impunha e entre os visados. Quem é que esteve interessado em que não fosse assim? E porquê? Em política, dizia o meu pai, o que parece, é.

  2. Só uma correcção ao artigo.
    Nenhum ministro foi eleito. Pura e simplesmente foi apenas nomeado pelo primeiro-ministro.
    Assim como qualquer deputado … nunca nenhum deputado foi eleito por qualquer português … constam de uma lista que o secretário geral do partido faz. E têm que votar como o partido quer, ou não constarão na próxima lista.

  3. Aos senhores escrivoes deste Jornal, foi-lhes prometido 2 bofetadas…Acho que para bonus deveriam ter mais 2, pois mereciam, devido ao rancor que aplicam a quem não gostam..
    Se soubesse que tinham levado 2 xutos no traseiro, ficaria feliz, pois apreenderiam a ser homens.
    Os comentários negativos a politicos , deverão ser feitos com educação e respeito, para respeito haver de volta…
    Os Senhores Pulido Valiente e Augusto Seabra, caiaram numa estrumeira jornalística, própria sede pessoa sem valor..
    Aqui declaro que nunca mais comprarei o Publico..

  4. Esta história permite lavar o erro de palmatória cometido por Marcelo, o Presidente.

    Marcelo e a tentação do mediatismo.

    É incompreensível a presença do Presidente BCE num Conselho de Estado. Afinal, veio-nos dar umas palmatoadas pela existência de um Governo estranho, que ele claramente desaprova. O cerco aperta-se, apesar da Europa ter verdadeiros problemas para resolver.

    É bom que o Presidente do BCE meta na sua cabeça que nada pode fazer perante uma Zona Monetária que está mal construída. Desde o seu nascimento. Uma construção artificial e deficiente.

    Os Europeus falam a mesma língua? Não. A América fala inglês. O inglês é um espécie de esperanto. Herdado e colocado na América pelos seus principais colonizadores. Lembrem-se de Sir Walter Raleigh.

    Os Europeus têm uma História comum como um todo nacional? Não. Os EUA têm uma identidade nacional desde o “Boston Tea Party”, desde 1773. O Euro foi uma negociata franco-alemã(Mitterand/Kohl), para compensar as desvantagens financeiras da reunificação alemã.

    O Euro juntou países de desenvolvimento desigual. Os EUA juntaram “espaços territoriais com unidade” – tudo começou com as Thirteen Colonias na Costa Leste. No Século XVIII.

    O Snr.Constâncio, aquando da sua qualidade de Professor do ISEG, forneceu aos seus alunos uma extensa bibliografia sobre Zonas Monetárias Óptimas. A proximidade com Dragui permite uma troca de impressões. Eles sabem que a batalha do Euro está perdida…

    Esta estória do João Soares é uma cortina de fumo…Aguardemos.

    Marcelo nada pode fazer. Vai continuar mediático. Tão-somente.

  5. O que eu acho, é que um ministro ou alguém que exerça funções públicas não deve ter este tipo de atitudes. De resto, penso que esta gente ligada à imprensa, supostamente intelectual, acha que lhes assiste o direito de dizer e fazer o que lhes apetece a respeito deste e daquele. Nesse sentido, penso que duas bofetadas a cada um deles seria pouco talvez o dobro não fosse demais. Durante muito tempo, comprei o “público” diáriamente tal como agora faço com outro diário. Deixei de comprar e ler esse jornal à muito tempo, precisamente por causa das crónicas desses dois intelectuais bem como do então director JMF.

  6. A ” escolha ” de João Soares para ministro da Cultura parecia ao inicio ter a subtileza de afastar uma legião de arrivistas e mediocres candidatos, que pulula(v)am na intrigalhada e na conspirata nos cafés da Avenida de Roma e do Chiado. O “caso Lamas” revelou um ministro fraco, desorientado e mal informado, e cujo estado intelecto-passional que se agravou com a lamentável cena das ameaças fisicas, o que tornou o pedido de demissão de J. Soares incontornável e inescapável para não perder a imagem e credibilidade.

  7. Não conheço o Dr. João Soares pessoalmente mas conheço-lhe a dedicação à causa pública como político do socialismo democrático, seja lá o que isso for, apoiante da UNITA ou adversário do MPLA, Deputado da república, membro da comissão da defesa da assembleia da república, presidente da câmara de Lisboa, responsável pelo pelouro da cultura da CML, Ministro da Cultura deste governo do PS, comentador político e ativo suvervivente à neutralização da individualidade pessoal a bem do cargo que lhe foi confiado ou na fila de espera.

    Vasco Pulido Valente por cuja coluna abro a leitura do jornal PÚBLICO é irónico, insolente, malcriado, insultuoso e ainda pior é inconsequente e, como João Soares, também não despe a sua individualidade para ser ou não ser o que quer que seja. Noutro registo o Augusto M. Seabra é da mesma natureza e criação.

    Estão bem uns para os outros. Nós, leitores e contribuintes, pagamos isso até ontem como quem respira entre dois goles de água.

    Não se passou nenhum incidente novo, até o texto foi reabilitado do seu original de 1999 para ser publicado no portal pessoal, não da figura pública, que João Soares mantém no facebook.

    O que se revelou de novo foi a intolerância do discurso político e o método inqualificável de condicionar o exercício da política montando em minutos uma lapidação pública do caráter e da personalidade do homem político. Tudo a bem da política cinzenta, engravatada, formatada na sua hipocrisia, demagogia e manipulação grotesca.

    A classe política juntou-se aqui aos colunistas ousados, malcriados e também mentirosos manipuladores aprofundando o autocondicionamento da prática política natural, saudável e tolerante.

    O que me separa da opinião de Francisco Louçã é ter-me parecido que a vítima foi a classe política não o Dr. João Soares que recuperou a sua liberdade e individualidade enquanto os políticos se encurralaram num curral mais exíguo.

  8. O Só Ares deve estar desgostoso…tanto pedido,tanta cunha e veio novamente á tona a incapacidade a falta de educação,resumindo a incompetencia. Na verdade quem sai aos seus….ou como se diz em “botanica”
    que as bananeiras nunca deram morangos!
    PS- Já pensaram no que esta personagem (nada) fez ao longo da vida á sombrinha do paizinho?

  9. É num momento destes que convém lembrar a frase de Alberto João Jardim, o político que mais tempo permaneceu no poder, dita em 1997 em cuecas para o Tal & Qual: “Quero que a Assembleia da República se foda.”

    …e no poder ficou por mais 18 anos.

  10. Já cá não está quem podia dar conselhos a um filho de cabeça perdida. Sinto que, do clã, parecia ser a única com bom senso.
    Saúde.

  11. F, um ministro deitado abaixo pela comunicação social, em resultado de agraviar verbalmente o jornalista que escreveu isto, …De resto, não tinha qualificações particulares para o cargo, que não o era a sua gestão da Cultura na Câmara Municipal de Lisboa em tempos idos, antes pelo contrário. E sendo ele um derrotado nato – perdeu as eleições autárquicas em Lisboa e em Sintra e para secretário-geral do PS –, mas também um caso de obstinação, esta nomeação culminou uma reascensão vertiginosa, se recordarmos que nas últimas eleições inicialmente nem estava em lugar…. Explica-me que opinião é esta…,este é um ataque pessoal, ou eu deixei de saber ler. Não deve prometer-se tabefes em ninguém, porque a opinião é opinião e ela deve ser preservada, e nunca melindrada. O erro do João Soares esteve nisto, porque o que Seabra critica são todos actos de governação ou de suposição de intenções. O João Soares tem legitimidade para fazer o que faz, porque pertence a um governo eleito pelo portugueses e com o apoio da esquerda, se calhar não esta bem, se calhar não é o que se espera, se calhar ha actos duvidosos, mas essa legitimidade existe. Tudo o que Seabra diz é oposição, mas o Seabra não tem legitimidade para isso, não foi eleito, poderia ser apenas opinião, é seria respeitável, mas é ataque pessoal e daqueles ataques ao governo subtis, mas deve ser eu que vejo por baixo do petróleo cru. Tabefes ou não tabefes, o que precisa muita gente de direita ou ao seu serviço é acabar com a sua impunidade, onde opinião disfarça intenções não reveladas. Para alem disso surge uma boa oportunidade de termos um ministro de cultura que tenha ideias mais claras, que envolva os actores todos e que consiga que a cultura seja um instrumento de democracia participativa. Ontém o António Costa estava na Comuna a assistir ha uma comédia representada maravilhosamente por actores e actrizes portugueses/as, teatro que sobrevive com orçamentos reduzidos, onde a iluminação se faz com astucia e creatividade, e nos a discutir tabefes. O AS pertence às elites que falam dos problemas das elites, eu quero que se discuta a cultura para o povo, com o povo, a quem instruímos num pacifismo sem tabefes e que obvimente fica arredado da cultura.

  12. O País de Pele Sensível
    Em Portugal andamos todos com os escesso de Sensibilidade cheios de Raivas e Raivinhas.Perdemos a capacidade de entender a ironia mesmo a “fina ironia Queirosiana”.
    É evidente que não era intenção de João Soares de reagir “à bengalada”,neste caso à palmada.
    Continuamos a discutir a forma e não o conteúdo.Em vez de sorrir à ironia da defesa e exigir uma análise ao comportamento orçamental do “cultural Dr Lamas”verifica-se uma típica reacção corporativa de defesa de críticos e analistas,que sem quaisquer responsabilidade,passam e ganham a vida com as suas “doutas opiniões”de assassinio de carácter dos seus comentados.
    E pensava eu que o Estado Corporativo tinha caído há quase 42 anos

  13. A importância que se deu a este “não assunto” é reveladora da falta de capacidade deste País em distinguir aquilo que é relevante do que é acessório e irrelevante.

    A nível político, é mais fácil um Ministro ser obrigado a demitir-se por publicar algumas palavras politicamente incorretas ou contar uma anedota, do que por tomar decisões erradas que lesam o contribuinte em milhares de milhões de euros.

    Triste país este…

  14. Já passou uma hora da demissão de João Soares,e ainda não conheço as propostas de Pulido Valente/Augusto Seabra para a cultura/CCB.Espero que tenham a fineza de saber que Portugal não é so Lisboa.Mais:as pessoas no interior tambem conhecem os seguintes nomes:Arvo Part,Visconti ou Shoupenhauer.Eu pessoalmente já me contento com um concerto de John Cale,uma conferencia de José Rentes de Carvalho ou…metade de um filme de Woody Allen(para o caso de o orçamento da cultura não chegar).

  15. Enganou-se num pequeno pormenor. Ele não foi eleito. Nem quem o nomeou. Agora vai levar uns tabefes do papá por ter desperdiçado a cunha.

  16. Concordo com a crítica justa de Louça, num artigo, como habitualmente, muito bem escrito! Quanto ao cargo que foi atribuído a João Soares, devo dizer que nunca tive expectativas. Considero que foi uma má escolha de Costa que mais pareceu um favor. Provavelmente, mais ao pai do que ao filho.

  17. Eu até gostei da “política viril” apesar de achar pouco viril um par de bufetadas, se fosse o tradicional “murro no focinho” seria melhor, mais macho. Também ressalvo que uma chega de bois entre o João soares e o Vasco polido valente até ta bem por terem pesos similares já um combate com o Augusto Seabra acho pouco justo dado o augusto ser muito leve para o Soares. Podia-se organizar na mesma noite um Pedro passos Coelho vs Sócrates ou um Francisco Louçã vs Paulo portas. No campo feminino talvez um Marisa Matias vs Assunção Cristas tivesse algum potencial. Isto tudo no campo pequeno pelas 21:30 com a belheteira a reverter para o pagamento da dívida da nação. Mas combates com regras que Portugal não é um país de selvagens.

  18. Isto terá sido certamente uma manobra de diversão de algo que nos está a passar ao lado, este gajo é mal formado e mal educado, mas da famiglia Soares nunca se dá ponto sem nó…

  19. No tempo do animal feroz, sabemos o que aconteceu ao ministro dos cornos! Mas se fosse um ministro do anterior governo, por exemplo o Paulo Portas a fazer estas afirmações! Qual seria o comentário do actual senhor conselheiro de estado! Decerto não seria tão brando …

  20. È uma pena que não se comece a resolver algumas coisa com umas palmadinhas ( nas costas não),mas sim no rabinho faz bem de todas as maneiras.
    Nos idos tempos da palmatória o efeito era brilhante ( nem sempre ) mas pelo menos havia respeitinho.
    Agora será que o Sr. João Soares tinha mão para a coisa. O paizinho em catraio deu-lhe boa educação e
    deve ter dito, filhinho o menino pode sempre fazer e dizer tudinho que lhe apetece.

  21. Esperava, devo dizer, uma crónica sobre algo bem mais interessante e importante, a reunião com Mario Draghi.

  22. P.S.: Afinal, talvez Louçã não esteja protegido. “Manuel Alegre, histórico do PS, afirma que tanto PCP como Bloco de Esquerda “vão pagar preço muito alto” caso desestabilizem Governo de Costa”, in observador.pt/2016/04/08/puser-causa-governo-vai-pagar-preco-alto-diz-manuel-alegre . Não é claro o que a sibilina expressão “pagar preço muito alto” quer dizer, mas se eu fosse da extrema-esquerda acautelava-me.

  23. Nada de novo. Sabemos, pelo Coelho socialista, que quem se mete com o PS leva. Até o santinho Guterres prometeu ir às fuças à direita. O atual ministro dos negócios estrangeiros também já disse que gosta de malhar na direita. Mais tarde, disse que ainda gosta de malhar com mais vigor na extrema-esquerda. Espero que Louçã esteja protegido desta ameaça, pelo menos enquanto durar a geringonça.

  24. “Não está no ministério para ajustar contas pessoais, não está para se irritar, nem para gritar, nem para bengalar, nem para fingir.” – Pois não, está para dar tacho aos amigos do costume… e a ele próprio.

  25. isto é cultura sem cultura será que é isto que somos como povo ?será tao mediocre nossa cultura?ou isto só se passa na nossa classe politica?se sim fico mais aliviado

Responder a Hugo Ramos Cancelar resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Tópicos

Pesquisa

Arquivo