Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

5 de Abril de 2016, 18:20

Por

Além-Tejo

alentejoAmanhã tenciono escrever sobre o “Panamá”. Mas, hoje, e talvez por impulso face à vergonha do (pouco) que se saberá sobre a lama moral que vai pelo Mundo, deu-me para não falar de política ou de economia, onde as notícias cavalgam o tempo com a pressa de logo fenecerem.

No meio de tantas perguntas sem resposta e de tantas respostas para as quais ainda não temos perguntas, opto, hoje e aqui, por um regresso à doce quietude. Ao Alto Alentejo. À aldeia, onde somos criaturas entre criaturas. Hoje, para mim, este blogue “Tudo menos economia” é, antes, “Tudo, mais Alentejo”.

O Alentejo – tão marginal na agenda política e tão escasso na representação parlamentar – preserva a sua alma moldada por uma natureza paciente, por uma gente tristemente alegre, por um tempo que ainda tem uma réstia fora da ditadura do pormenor stressante.

O Alentejo, onde o cante, ora património da humanidade, se canta mas não se dança, numa mescla sempre por redescobrir de espiritualidade, de fado-destino e de um gregoriano modo de erguer a voz.

O Alentejo que, qual ritual no fim de cada dia de cada estação do ano, nos acolhe em casamento de verde trajado na Primavera esperançosa num firmamento plácido, ou numa união de um sol que adormece trajado de um amarelo-laranja inimitável e de um odor da terra escoltada por aves e insectos vigilantes, pousando ductilmente nas oliveiras, nos sobreiros, nos citrinos.

O Alentejo, onde a hora não tem a medida da cidade e onde o reencontro connosco tem a dimensão cristalina da meditação.

O Alentejo, espécie de reserva natural do que já não se tem na cidade do frenesim, do ruído, da ansiedade, dos medos e das inquietações. O silêncio sublime e não filtrado. A contagem suave da máquina do tempo. A liberdade para determinar e não o conformismo de ser determinado. O abandono do falso urgente na caminhada sem cronómetro. A graciosidade das cores e dos cheiros da heróica giesta, do manso restolho, do elegante tremoceiro, do compassivo tojo, da exuberante e violácea soagem, da modesta esteva, da sereníssima oliveira, do imponente girassol.

O Alentejo, onde a fluidez das gerações é fragmentada pela migração quase sociologicamente compulsiva dos mais novos á procura de um qualquer eldorado de asfalto e ilusão e pela cristalização dos mais velhos à espera de uma morte que justifique a vida.

No silêncio além-Tejo, assiste-se impotente ou inconsequente, à revolução perigosamente silenciosa da demografia. Não há mais velhos, mas menos novos para tantos anciãos. Em cada vinte e quatro horas há menos cinco pessoas a viverem naquela terra.

O Alentejo, na profundidade do seu modo de sentir Portugal, merece que Portugal sinta profundamente o Alentejo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Tópicos

Pesquisa

Arquivo