O Conselho do BCE, na sua reunião de 10 de Março, além de decidir reduzir as taxas de juro de referência (a taxa de juros para as principais operação de refinanciamento foi reduzida de 0,05% para 0% e a taxa de juro para os depósitos da banca comercial junto do BCE foi reduzida de -0,3% para -0,4%), deliberou introduzir alterações significativas ao seu programa de compras de activos financeiros (dívida titulada):
– Aumentou o volume de compras de activos de €60 mil milhões para €80 mil milhões por mês;
– Passa a adquirir uma maior percentagem (até 50%) da dívida emitida por instituições multilaterais internacionais como o Mecanismo Europeu de Estabilidade, o Banco Europeu de Investimentos, ou o FMI.
– Passa a adquirir dívida titulada de empresas não financeiras privadas com rating “investment-grade”.
Estas alterações podem parecer pouco relevantes para o cidadão, mas o jargão técnico esconde as suas implicações económicas e políticas.
Primeiro, não se percebe porque é que o BCE passa a comprar até 50% de séries de dívida das instituições multilaterais, mas não de países membros (em que está limitado a 25%). Afigura-se uma excepção indefensável e evidentemente resultará na manipulação do preço desses títulos de dívida e em mais-valias muito significativas sobretudo para instituições financeiras que detêm dívida dessas instituições.
Segundo, ao adquirir dívida privada – e não é claro se o BCE planeia, como no caso da dívida pública, manter indefinidamente essa dívida privada no balanço –, a política monetária passa a ter efeitos redistributivos relevantes, i.e., o BCE dá a alguns contribuintes e cidadãos da zona Euro um montante significativo de dinheiros públicos, mas não dá nada aos restantes cidadãos da zona Euro.
É também uma forma de política industrial, ao apoiar as grandes empresas (multinacionais) da zona euro, em prejuízo, por exemplo, das PMEs e possivelmente (dependendo dos detalhes do programa, ainda a anunciar) em prejuízo de países membros que não têm um número suficiente de empresas com dívida titulada com as características necessárias (como Portugal, por exemplo). Porque são as grandes empresas europeias que emitem dívida titulada com rating de “investment grade”. Por outro lado, o próximo passo será o BCE adquirir dívida titulada da banca comercial ou ainda dívida titulada com rating “non-investment-grade” ou especulativa, vulgo “junk”.
Tanto esta medida de aquisição de dívida privada como a aquisição de dívida bancária visam, na prática, ajudar o sector bancário (e o sector segurador) a recapitalizar-se, via mais-valias de capital financiadas com a emissão de dinheiros públicos. Parece-me uma política redistributiva e uma política industrial inaceitável, que favorece uns em prejuízo de outros, isto porque o BCE não tem a legitimidade nem o mandato democrático para o fazer.
Figura: Preço de série de obrigações de empresa do grupo Altice, que vence em Fevereiro de 2025
Fonte: onvista.de
A título de exemplo, olhemos para as obrigações da Altice, que adquiriu os activos da antiga Portugal Telecom. A Altice era considerada uma empresa com rating “non-investment grade” ou especulativa, por exemplo, pela Moody’s.
O primeiro ponto a notar é que o preço das obrigações da Altice começou a subir cerca de um mês antes da decisão do Conselho BCE. Pode não significar nada, pode significar que alguns especuladores anteciparam a decisão do BCE ou pior, que estavam na posse de informação privilegiada de que o Conselho do BCE se preparava para adquirir dívida titulada empresarial.
Os especuladores que adquiriram os títulos de dívida a 9 anos da Altice em torno de 10 de Fevereiro, num mês, obtiveram ganhos especulativos de 12% (e.g., 1200 € num “investimento” de 10000€), graças à decisão do Conselho do BCE e graças à utilização de dinheiros públicos, dinheiros de todos os cidadãos da zona euro. Ou seja, o Conselho do BCE, na prática, deu dinheiros públicos a esses especuladores. E os accionistas, gestores e funcionários da Altice (e de várias outras empresas europeias) também beneficiaram da decisão do Conselho do BCE.
Com que direito?
O BCE não divulga as identidades de quem adquire activos/dívida?
E continuam as estratégias subterrâneas de escravatura perpétua das populações á “inevitabilidade” cirurgicamente planificada pelo Totalitarismo usurário.
“Wikileaks: FMI apanhado a planear nova bancarrota na Grécia”:
http://www.infogrecia.net/2016/04/wikileaks-fmi-apanhado-planear-nova-bancarrota-na-grecia/
se o BCE em vez de alimentar pançudos especuladores e banca de casino pegasse nos 80 mil milhões de € mensais e os distribuísse em numerário ou vales de compras por todos os cidadãos da UE, dava mais ou menos 160€ mensais a cada um(*), o que seguramente contribuiria mais para o desenvolvimento da economia.
No fim do dia, cada vez mais o “helicopter money” parece fazer sentido, e cada vez mais os intermediários financeiros representam um ónus que não precisamos nem deveríamos desejar.
(*) ou, se por exemplo apenas aos adultos daria 200€/adulto/mês ou, apenas às crianças daria 800€/criança/mês.
Sobre a forma como o “dinheiro” é aplicado na economia, haverão inúmeras soluções, por exemplo cheques de compras com prazo de validade curto ou limitações quanto ao tipo de artigos.
Ou imagine que o BCE passava a ter programas de reestruturação da dívida soberana. Em 3 meses, Portugal ficava com juros ZERO em TODA a dívida, deixávamos de ter de pagar milhares de milhões só para gerir a dívida e o défice passava de 3 para 0%, ou melhor, para terreno positivo, uma vez que temos superávit primário. E isto é um exemplo limite, pois tal nem sequer seria necessário: bastaria reestruturar a parte da dívida para começar a ter efeitos positivos substanciais.
Em contrapartida desta reestruturação, esses países ficariam proibidos de ter défice, salvo situações económicas excecionais como a crise de 2008-2009. E todo o superávit que tivessem (que deveria andar entre 0,5 e 1%) seria usado para ir pagando a dívida até esta ficar abaixo dos 60%.
Desde que o QE começou, o BCE já poderia ter tirado a €uropa da sarjeta, já poderia ter salvo N países, já poderíamos estar a crescer e a combater a pobreza.
Em vez disso, quem era rico fica mais rico e os desgraçados é que pagam. Queixam-se tanto do Rendimento Social de Inserção, mas esquecem-se que neste momento não há “freeloaders” maiores (e mais caros para a economia) do que a banca e os especuladores (ou seja, ganham dinheiro sem fazer nada!). No final, nós pagamos impostos e eles depositam tudo o que roubaram num off-shore qualquer… e ainda conseguem a proeza de ter uma maioria a votar continuadamente neste sistema…
Ninguém tem mão nesses “génios”… Nem os alemães, infelizmente. Mais cedo ou mais tarde, o ouro voltará a brilhar. Por uma razão, e por uma só razão: os investidores irão procurar alternativas à moeda dos Estados. E não são muitas as que têm.
Com que direito? Com o direito que Deus nosso senhor do capital lhe deu.
Obrigado por tentar abrir os nossos olhos Ricardo Cabral.
Mas olhe.
Nós gostamos da ilusão… A ilusão que proporciona o Totalitarismo do Capital e sua propaganda.
Deixemos a gestão do dinheiro e seus mecanismos a quem “sabe” cuidar dos “seus” interesses…
Mas Ricardo Cabral insiste … Insiste em nos recordar que apenas somos ovelhas … usadas para produzir lãs para os nossos donos…Que nos tratam de acordo com os seus interesses… E nos mantêm como escravos.
Caro Ricardo Cabral … nós gostamos de ser ovelhas … É mais confortável…
Deixemos que eles façam o “Trabalho de Deus”.
Está a pregar aos peixinhos… o povéu o que quer é novelas, futebol, big brothers e afins. O que é preciso é saber o que o governo pensa sobre isso (PCP e BE incluídos).