Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

1 de Abril de 2016, 08:07

Por

Dia das inverdades

Hoje é o Dia das Mentiras. O tal que foi noticiado – com um ar sério – como o dia em que o Orçamento do Estado para 2016 não poderia ser aprovado. Lá teríamos que continuar em regime de duodécimos (boa notícia) e lá se ia o agravamento dos impostos indirectos (boa notícia, também). Mas é mentira!

Agora não há dia que não seja um Dia Mundial ou Nacional de qualquer coisa. O problema é que a procura já excede quase a oferta dos 365 dias (mesmo com a generosidade de um dia adicional nos anos bissextos).

Há dias para tudo: a bem da verdade ou da aparência de parentescos e a benefício do comércio, como o dia do Pai, da Mãe – este inexplicavelmente em data móvel – dos Namorados, dos Avós, mas não das sogras. E, claro está, o Dia Internacional da Família, da Mulher, da Criança, da Juventude, do Idoso. Há ainda o Dia dos Migrantes, Refugiados (bem seria que fosse todos os dias no tempo que vivemos), Indígenas, etc.

Há dias que não lembram ao diabo: o Dia Mundial do Animal de Laboratório (de que tipo?), o Dia do Relógio de Sol (onde?), o Dia Internacional da Saudação (qual?).

Há muitos dias para os que sofrem com a falta de saúde: o genérico Dia Mundial do Doente e os de especialidade, como por exemplo, da Hemofilia, da Bengala Branca, da Diabetes, da Sida, dos Leprosos, da Osteoporose, das Hepatites, da Tuberculose, Doenças Raras e até o da Incontinência Urinária.

Porque para a manutenção da saúde precisamos de ser acarinhados, há o Dia Mundial da Saúde, do Enfermeiro e do Dador de Sangue.

Em termos profissionais, há umas actividades mais beneficiadas do que outras com direito ao seu dia e, se calhar, à sua tolerância de ponto corporativa. São os bombeiros, alfaiates, ardinas (onde?), engenheiros, arquitectos, agricultores, professores, jornalistas, comerciantes, estudantes, combatentes, turistas, cosmonautas e … engolidores de espadas (este, em 28 de Fevereiro)! E o mais democrático e popular, porque transformado em feriado para todos e manifestações para alguns: o Dia do Trabalhador!

Há também o Dia Nacional do Folclore. Ou será todos os dias?

E o Dia Mundial do Canhoto. E então do destro, que é feito dele?

E o Dia Mundial da Normalização, confesso, não sei porquê.

E o Dia Mundial da Poupança, em vias de ser extinto.

E o Dia Mundial das Aves, da Árvore (a meias com o da Poesia), dos Oceanos, do Animal (não especificado) e até das Zonas Húmidas (também não especificadas), entre muitos outros para honrar a tão maltratada Natureza.

Há o dia da Língua Materna, mas não o da língua madrasta. E, cá por mim, alinho na ideia de um Dia Nacional contra o Acordo Ortográfico.

Há outros dias que não o das Mentiras, mas que para lá caminham preocupantemente: o da Paz, da Tolerância, do Comércio Justo e – imagine-se! – o do Pensamento (por alguma razão somos … racionais).

Dia das Mentiras. Para alguma gente, o verdadeiro e genuíno dia do ano. Curioso é que no dia anterior é o agora Dia Mundial do Back-up, que convida as pessoas a fazerem cópias de segurança, do computador, do telemóvel e do tablet, onde, por certo, se incluem mentiras.

Ah! Não se deveria agora mudar o Dia das Mentiras para Dia das Inverdades, como manda o glossário politicamente correcto?

Comentários

  1. São as coisas com que se preocupam as comunidades ociosas do “tempo livre” e do “passatempo”… A poupança realmente anda por baixo, já não merece um dia mundial, talvez o “minuto da poupança”?! César das Neves fala disso esta semana, apesar de ele ser muito generalista, é relevante.

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