Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

30 de Março de 2016, 13:12

Por

Sordidez

Crise no Brasil, condenações em Angola, inquérito do Banif, eleições norte-americanas, morte de Cruyff, não faltam notícias. Mas talvez a mais importante de todas, a mais definitiva, a mais grave, esteja a ser sepultada pela avalancha de acontecimentos. Esse facto é a crise dos refugiados, pela sua enorme e trágica dimensão humana e pelos riscos que representa para o Mediterrâneo e todas as suas sociedades – e para a Europa.

Para a Europa, “a resposta encontrada foi a pior possível, alimentando um espírito do salve-se quem puder verdadeiramente indecoroso”, escreve Teresa de Sousa aqui no PÚBLICO.

Deste acordo, o “pior possível”, ainda se disse pouco, tão habituados que estamos ao silêncio ou à conveniência. Que só abrange 72 mil refugiados, que são colocados em campos na Turquia, um Estado que não assinou a Convenção de Genebra de 1951 sobre o tratamento de vítimas de guerras, e que são famílias sacrificadas. Que haverá novos fluxos de refugiados de guerras que nunca acabam e que a solução militarizada é inviável. Mas Wolfgang Munchau, no Financial Times, foi um pouco mais preciso: o acordo é sórdido, como “nunca se viu na moderna política europeia”. Lembra também Munchau que, no dia em que foi assinado o acordo com a Turquia, o presidente Recep Tayyip Erdogan, veio declarar tonitruante: imigrantes“Democracia, liberdade e força da lei, para nós essas palavras já não têm nenhum valor”.

No gráfico ao lado, percebemos que não é só Erdogan quem acha que estas palavras não têm valor: se as comunidades imigradas são condenadas à pobreza, então é fácil perceber os problemas sociais que daí resultarão (o gráfico dá-nos o risco de pobreza em cada sociedade, destacando o das comunidades de cidadãos de fora da UE28).

Se em tudo isto, na emergência e na vida quotidiana de tanta gente, as palavras deixaram de ter valor, esta sordidez é a vergonha no fundo da desumanidade.

Comentários

  1. Pingback: Sordidez | PINN
  2. Por falar em “sordidez”…voltando ao Brasil, no agudizar do discurso político, tome nota deste nome: Jair Messias BOLSONARO!

    “[…] em 2010, Jair Bolsonaro obteve cerca de 120 mil votos, sendo o décimo-primeiro deputado federal mais votado […]. Foi reeleito em 2014, como o deputado mais votado do Rio de Janeiro com 464.572 votos.” – pelo Partido Progressista.

    “Bolsonaro tornou-se conhecido nacionalmente por suas posições nacionalistas e conservadoras, por suas críticas ao comunismo e à esquerda e por declarações controversas. Também é conhecido por defender a ditadura militar no Brasil e por considerar a tortura uma prática legítima. Suas posições políticas geralmente são classificadas como alinhadas aos discursos da extrema-direita política.”
    Fonte: https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Jair_Bolsonaro

    No início de março deste ano, Bolsonaro foi apresentado como pré-candidato à Presidência pelo Partido Social Cristão, PSC – uma força política em crescendo de popularidade, combinando liberalismo económico com conservadorismo social, dirigido pelo pastor evangélico Everaldo Pereira.
    PSC: http://www.psc.org.br/site/comunicacao-psc/artigos.html

    Democracia? Liberdade? Força da Lei?… Populismo. Personalismo. Autoritarismo de Estado. Instrumentalização da Religião… Numa palavra, concordo com Louçã- “Sordidez”!

  3. Sim seria um bom título : “Turquia vence o concurso de tráfico de seres humanos”

    Médio Oriente:
    Querem impor nesta região uma sociedade “bicolor” —
    Sunitas de um lado e xiitas do outro …
    Criar divisões para mudar o espírito da população e incitar o ódio para sempre…

    Esta desestabilização religiosa no Médio Oriente é “uma conspiração maquiavélica contra a humanidade … que se expande agora á Europa…

    Iraque – 1.500.000 mortos http://www.justforeignpolicy.org/iraq/iraqdeaths_pg.html
    Síria – 500.000 mortos
    Afganistão – 26.000 mortos
    Palestina – 2.000.000 mortos
    Refugiados e deslocados dezenas de milhões.

    A Fragmentação do Médio Oriente + Desestabilização da Europa via invasão refugiados?

    Mas claro … tudo isto é um erro de cálculo …

    pobre USrael … Pobre Nato … Pobre Europa … Sempre a defender a “Liberdade e Democracia” …

    O agressor disfarça-se de vítima… E o Calimero está desculpado…

  4. A ser verídica, a frase do presidente turco é de facto impensável, absolutamente desoladora. E quer ele que o seu país adira à UE! Apesar de todos os seus defeitos, a adesão à ideia e à prática da democracia é uma condição ‘sine qua non’ da adesão à UE. É por essas e por outras que não posso concordar com uma crítica excessivamente rígida da UE.

  5. os paparazzi da informação estão a desorientar e a confundir as pessoas de forma consciente,com um proposito e de forma absolutamente desonesta.exemplos,não faltam:Banif/Tvi:Globo/Lula:Funcionarios publicos/Funcionarios privados:Emigrantes que roubam trabalhos:Refugiados que morrem no mediterraneo,mas mesmo assim são os maus….recordo que o paparazzo era uma personagem de La Dolce Vita,que era/é um filme que reflete a cultura mediatica/celebridades e os seus efeitos perversos ,bem á vista de todos.Se as pessoas se lembrassem da ultima imagem deste filme,saberiam que a humanidade não tem memoria.

  6. Convirá verificar se de facto Erdogan disse essas palavras. Suponho que FL é responsável o bastante para não se limitar a dizer que alguém disse que Erdogan disse. Procurei em todo o lado e não consegui encontrar, pelo que presumo deve ser um problema com o meu “motor de busca”. Será que me pode ajudar? Sem me apontar mais exemplos de alguém que disse que Erdogan disse.
    Mas, de facto, o problema não é Erdogan! É a Turquia que se tornou um alvo a abater, dado que constitui um obstáculo à progressão dos novos paladinos da democracia (vejam bem), os terroristas do PKK. Estes até conseguiram arranjar novos amigos(as) do outro lado do Atlântico.
    Aceitar que FL e CIA,sacrifiquem no altar da irmandade comunista, um estado laico, um estado de direito e democrático (o mesmo que deu primeiro que a França o direito de voto às mulheres), é uma questão que não pode ser deixada passada em claro. Nunca!

    Saúde.

    P.S. Por estas e por outras é que tenho dúvidas quanto à sinceridade dos protestos contra a prisão de LB, em Angola. Estou no meu direito.

    1. A citação está no Financial Times. A sua piada sobre “FL e CIA” é lamentável, porque supus que gostaria de ser levado a sério. Mas se concorda com a condenação em Luanda, é consigo.

  7. Esse acordo “sórdido” e desesperado explica-se antes de mais pela exigência dos cidadãos europeus para que algo seja feito para acabar com o descontrolo da migração a que temos assistido. Noutros sítios do mundo, talvez os líderes políticos escolhessem ignorar a populaça, mas a democracia tem destas coisas. A atitude hostil de muitos europeus pode ser lastimável, mas é certamente compreensível. Permitiu-se a entrada de multidões não identificadas, vindas do Magrebe ao Paquistão, e hoje em dia os verdadeiros refugiados ficam à porta. A não-integração de grande parte dos imigrantes nas últimas décadas, os ataques terroristas, o choque cultural com os refugiados nos países europeus mais generosos, tudo ajuda a compreender o famigerado acordo e outras medidas desesperadas que se seguirão. Quanto ao gráfico que apresenta, parece-me natural que alguém que chega à Europa sem dinheiro, muitas vezes sem falar a língua e com um grau de educação inferior tenha maior dificuldade em sair da pobreza. Quanto àqueles que já cá estão há muito tempo, as culpas são repartidas. O que é certo é que algumas comunidades de imigrantes se integram bem melhor do que outras.

  8. Turquia, um Estado que não assinou a Convenção de Genebra de 1951, CAMPO de CONCENTRAÇÃO de Guantánamo, às portas da EUROPA

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