Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

30 de Março de 2016, 08:00

Por

Cruyff

johan-cruyff-1947-2016Quando morre alguém com notoriedade há uma tendência generalizada para a comparação com outras personalidades no mesmo campo de acção.

É manifestamente o caso, no campo desportivo. E, principalmente, no reino do futebol. Foi o que sucedeu agora com o desaparecimento de um ídolo marcante: Johan Cruyff.

É uma marca deste tempo global, acompanhar o féretro não só de superlativos (absolutos ou relativos) sobre o falecido, como de comparativos (e discussões à volta dos mesmos) com outros intérpretes.

Cruyff morreu. Logo, é comparado. Com Pelé, Eusébio, Maradona, Di Stéfano, Beckenbauer, etc. e a inevitável parelha da actualidade Ronaldo / Messi.

Esta compulsão de cotejo é, na minha opinião, deslocada. E, não raro, injusta. Tempos e contextos diferentes que, se igualizados, ferem o princípio aristotélico da equidade. Mas, sobretudo, transmite a ideia de que as pessoas (neste ou noutro campo qualquer) só valem se comparadas ou numa hétero-emulação competitiva, e não por si e na sua auto-emulação.

Ora, Cruyff – cidadão do mundo, holandês por sangue, catalão por afecto – vale e valeu por si. Em vida, agora eternizada pela morte, o nome de Cruyff, com a sua fonética neerlandesa, funde-se com futebol, na sua etimologia britânica tornada universal. Foi tudo: campeão, treinador, sindicalista, seleccionador, profeta, comentador, educador, professor, mobilizador, vanguardista.

Nascido um ano depois de Cruyff, pude acompanhar, de perto, o seu mister de arte, engenho, perfeição. Um jogador que jorrava elegância nos relvados, inteligência nos movimentos, eficácia nas decisões. Foi Cruyff que me levou a gostar sempre do Ajax e do seu futebol de arte.  Foi Cruyff que mais terá contribuído para reinventar a inteligência ao serviço deste desporto.

Cruyff foi um revolucionário romântico. Às vezes, rebelde. Outras vezes, compassivo e poético. Mas sempre com um futebol perfumado. O holandês entendia-o como o palco para uma orquestra completa, disciplinada e, ao mesmo tempo, criadora e criativa.

Jogar futebol é muito simples, mas jogar um futebol simples é a coisa mais difícil que há” resumia o génio holandês. Ou “o futebol é um desporto que se joga com o cérebro e não tanto com as pernas”. Como li no “El Pais”, Cruyff foi o Gabriel Garcia Márquez do futebol. E tal como o Nobel colombiano escreveu, “o que você viveu ninguém rouba”. Cruyff para sempre recordar e continuar.

Comentários

  1. Cruyff foi um colosso. É o único que coloco ao nível de Pelé. É preciso ser velho para poder dizer isto. Eram os jogadores puros, nascidos para jogar futebol como vocação de vida.

    Que saudades tenho de Cruyff!!! De 1978…aquele que liquidou o Brasil, um 2-0 do adeus do escrete canarinho.

    Valeu a pena ter vivido para poder ter visto jogar Cruyff e Pelé, quer através da TV quer ao vivo.

    Neste momento não tenho clube – o meu clube da adolescência e de jovem adulto(de José Augusto, Eusébio(Santana), Águas(Torres), Coluna e Cavém(Simões) ) foi ocupado por gente pequena. Aliás, o futebol está desvirtuado. Não suporto o aproveitamento em torno do jogo. É quase miserável…E por políticos encartados…Que tristeza…

    É bom pensar que Cruyff esteve entre nós. E, muito importante, sempre ligado ao futebol, como aliás o post refere.

    Cruyff forever!!!

  2. Caro articulista…
    Homenageou de forma sublime esse Grande Senhor do Futebol, como disse, foi ator, dramaturgo, crítico e ainda teve tempo para transformar o futebol num fenómeno bem mais complexo e, sobretudo belo, do que o simplismo do:”acho que…vamos com certeza ganhar…seremos melhores do que os adversários…”! Definiu-o como ele gostava afinal da Vida: coisa simples, mas superiormente interpretada, como uma orquestra recheada de acordes que nos entram na cabeça e não mais nos abandonam…deu-lhe a dimensão superior de uma vida que ele sempre teve e não, como agora tantos, ensandeceu com o triunfalismo momentâneo dos próprios a falar de Cruyff. Espero que um dia alguém fale de si da mesma forma brilhante: retilínea e simples como o senhor preencheu este espaço e sobretudo não propenso à lamecha fácil mas ao sentimento que desliza para a emoção. Obrigada Dr. Bagão Félix

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