Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

28 de Março de 2016, 08:49

Por

Uma acusação bizarra, ponto final, parágrafo

Ao escrever no PÚBLICO e, em particular, ao comentar assuntos que dominam as notícias, bem sei que me exponho a críticas, todas bem vindas, a correio de ódio, que saúdo com gosto, e a ter que aprender sempre com outros, o que agradeço. Mas não é muito comum ser metralhado por uma jornalista com agressividade, e ainda por cima mal fundamentada, num género muito Observador e que faz as delícias de uma certa polémica ao estilo do eu disse tudo e agora ponto final, parágrafo.

São José Almeida (SJA) acusa-me e a outros (Catarina e Jerónimo) de “excesso de ingenuidade em política (que) parece mais compadrio mal disfarçado de cegueira política”, a propósito do caso do impeachment a Dilma Roussef. Acrescenta, feroz: “E quando isso acontece, o que resta é apenas indignação com tanto despudor”. Ora, “ingenuidade” e até “cegueira política”, só posso admitir que é possível. Já “compadrio mal disfarçado”, o tal que provoca “indignação com tanto despudor”, já me parece excessivo. Vamos então às acusações, uma a uma.

Primeira acusação: protegem os camaradas

O texto começa como um panfleto: “É bonito! É até querido! É mesmo comovente constatar tanta camaradagem, tanta solidariedade para com correligionários e camaradas”. A acusação, nesse parágrafo, é esta: os dirigentes da esquerda calaram-se sobre o expediente de Dilma em nomear Lula, para o proteger de uma eventual ordem de prisão. A acusação é errada num ponto e confusa noutro.

É errada factualmente, em primeiro lugar. Dez segundos de jornalismo e um pouco menos de turva “indignação com tanto despudor” teriam permitido a SJA não passar pela vergonha de ignorar os factos. Para desgosto da sua narrativa, Catarina manifestou desde a primeira hora a sua rejeição do expediente da nomeação (por exemplo, aqui). SJA também poderia ter ouvido as minhas declarações na TSF, onde disse o mesmo. Ou poderia pesquisar tudo na internet, nos tais dez segundos.

Mas a acusação não é só errada ao ignorar que Catarina e eu criticamos o subterfúgio da nomeação de Lula. Ela tem uma insinuação que é outra vez ignorante dos factos e não fica sem resposta. O “tanta camaradagem, tanta solidariedade para com correligionários e camaradas” quer dizer precisamente o que está escrito, mas não saberá SJA – mais uma vez, dez segundos de jornalismo bastavam – que as relações políticas de Catarina são com o PSOL, opositor do PT e partido de esquerda que está fora do governo e que com ele não tem qualquer solidariedade, e que essas são igualmente as minhas relações políticas? (De facto, só o PCP poderia ser indiciado por relações de “camaradagem” com o governo de Dilma, pelo seu apoio ao PCdoB, que faz parte do governo, e mesmo assim não é a mesma coisa que o PT).

Não há portanto nenhum “camaradagem” com os tais “correligionários e camaradas”. Era mais bonito para o argumento, mas ainda assim precisava de ser verdadeiro.

Segunda acusação: acham que, se a corrupção for de esquerda, é aceitável

Tanta “indignação” com o “despudor” é porque os réus de SJA não percebem que “corrupção é corrupção, ponto final, parágrafo”. Devo confessar que fico atrapalhado com esta acusação, porque concordo que “corrupção é corrupção” e que a cor política do corrupto é indiferente para a medida da pena e até, mais, que se ocupa uma função pública isso é sempre uma condição agravante. Por isso, não vejo o sentido de polemizar sobre uma questão tão elementar em que não parece possível haver desacordo.

Claro que também não posso pedir a SJA que leia o que escrevo quando critica o que escrevo, porque se tivesse lido o PÚBLICO de quatro dias antes da sua sentença condenatória teria encontrado por exemplo a minha denúncia da “monstruosidade” da actuação do PT no caso que já foi julgado e que portanto nos dá segurança jurídica:

É preciso reconhecer que o PT alimentou esta monstruosidade. Os seus dirigentes acreditaram que a composição da aliança governista criaria uma distribuição de benesses e um espírito situacionista que cimentaria esta multidão de partidos e de interesses graúdos. Chegou-se ao ponto, quanto as primeiras frestas estalaram, de agenciar a compra e venda de votos de deputados com o Mensalão, para manter o governo a flutuar entre as suas próprias piranhas”.

Acontece que, pelo contrário, a investigação corrente é politicamente um imbróglio, pois a presidente, que não está em nenhuma das listas de pagamentos da Petrobrás e da Odebrecht, vai ser julgada por deputados que são abundantes nessas listas, a começar pelos promotores da operação e pelo presidente do parlamento federal. Portanto, antes de aceitarmos os editoriais do Globo ou da sua rede de televisão como sentença transitada em julgado convém termos alguma prudência.

Ou seja, se SJA já sabe que temos caso provado de corrupção, dou-lhe os parabéns e espero demonstração; se ela não tem essas provas e prefere esperar por tê-las antes de concluir, então estamos no mesmo lugar. Suponho que é mais prudente que um cidadão, mesmo quando é jornalista, não decida em vez dos tribunais.

Terceira acusação: estão a prejudicar o caminho da justiça

A acusação é assim: “Mas igualmente grave é a declaração feita por Catarina Martins de que a acção da Justiça brasileira é um ‘golpe de Estado do século XXI’, acusando ‘um poder judicial, com órgãos de comunicação social, que está a agir fora do Estado de direito’. Ou a relativização feita por Louçã na SIC, em que tentou reduzir ao ridículo as investigações.” Portanto, não é um golpe, é antes a justiça a funcionar.

Noto que, ciente da culpa de todos (da presidente Roussef e dos portugueses que, perante as notícias, acham que não há ainda caso julgado que a envie para a fundo dos infernos onde moram os corruptos), SJA se permite alguma leviandade para com os procedimentos da justiça brasileira. Escreve ela: “É um facto que o juiz Sérgio Moro extrapolou os limites do cargo ao divulgar escutas que devem ficar em sigilo. Mas isso em nada invalida que ele seja uma figura determinante pela coragem que tem demonstrado na investigação Lava-Jato”.

Então vejamos. O juiz Moro actua ilegalmente, a Ordem dos Advogados indigna-se e um juiz do Supremo Tribunal manda retirar-lhe o caso (é certo que anteriormente outro, participante nas manifestações derrubistas, tinha decidido manter esse juiz em funções). Em todo o caso, para já vale a decisão da punição (a justiça a funcionar?). SJA regista que “ele (Moro) extrapolou”, mas acrescenta logo, generosamente, que “isso (“extrapolar os limites do cargo”, ou seja, em bom português, actuar contra a lei) em nada invalida que ele seja uma figura determinante pela coragem que tem demonstrado”.

Em Portugal, devíamos tratar esta questão com muito cuidado. Pergunto: porque é que o PÚBLICO não tem por regra publicar escutas telefónicas que lhe cheguem ilegalmente? Porque, presumo eu, sabe que não pode ter certeza absoluta dessas fontes, porque sabe que é uma violação da justiça e em particular dos direitos de defesa e porque a imprensa está assim a ser manipulada, contribuindo para uma visão parcial do processo e portanto para uma condenação preliminar. Foi também por isso que condenei sempre o jogo perigosíssimo que magistrados fazem em Portugal com escutas: assim o fiz quando se tratava de Sócrates, como o tinha feito quando se tratava de Isaltino Morais. Não tem nada que ver com os casos concretos, nem com as pessoas, tem que ver com a justiça. Se magistrados usam um expediente ilegal para actuar num processo em que têm responsabilidade, não há justiça.

Não vou fazer uma lista das ilegalidades cometidas pelo juiz Moro ou por outros juízes que, em nome da sua causa política, estão a protagonizar este processo. Mas ignorá-las em nome da convicção de que os seus acusados são em qualquer caso culpados é ceder a um perigoso populismo. Escreve SJA: “Considera Louçã que nós acreditamos que ele acredita que é apenas por causa de um juiz que é teimoso e persegue Lula que este está a ser investigado? Será que Jerónimo de Sousa e a restante direcção do PCP acreditam mesmo que nós acreditamos que eles acreditam que o que está em causa é um ataque do capitalismo e dos Estados Unidos a um líder de esquerda? Minhas senhoras e meus senhores, corrupção é corrupção. Ponto final. Parágrafo.”

Portanto, SJA sabe que não é um jogo político e determina que as deficiências da investigação judiciária são irrelevantes, porque é mesmo corrupção. Sentença final, sem direito de apelo.

Acho isto bizarro. Porque é que uma jornalista veterana, que já viu de tudo, se entusiasma desta forma e transforma a sua íntima convicção de culpa numa declaração política? Porque é que relativiza as regras da justiça, mesmo sabendo, como decerto sabe, que sem regras não há justiça, só sobram expedientes? Porque é que insinua esta coisa extraordinária do se está a ser investigado, alguma coisa terá feito pela certa?

Admitamos por um momento que Lula é culpado daquilo de que não está acusado, e Dilma também. Mesmo assim, não precisaremos nós – no Brasil como em Portugal, já agora – de uma justiça que proceda correctamente? E de um jornalismo que trate os factos sem excessivas emoções e sem condenações antes mesmo de a justiça formular uma acusação?

A minha única reclamação é esta: haja justiça com regras, com garantias e com leis, ponto final, parágrafo.

Comentários

  1. Infelizmente não se consegue acreditar numa palavra desde sr pois é tudo oportunismo e desejo dem manda ele próprio tudo o resto não presta e cheira mal pois o pós-moderno para ele é em 1911 na união sovietica …

  2. A São José foi corrida do Presépio pelo Deus Menino depois de ter passado a ser teleguiada por uma observadeira a quem, ou obedece, ou leva tau-tau a sério. O resto nem interessa.

  3. O mais espantoso no comentário do prof. Louçã ao artigo critico de SJA é a ausência de mediação doutrinária sustentável, acenando envergonhadamente com a faixa do PSOL. O Partido do Socialismo e Liberdade de Heloisa Helena, Ivan Valente e Plinio de Arruda Sampaio , o núcleo duro dirigente do partido, não tem conseguido erguer uma alternativa credivel ao PT, dando origem maquiavelicamente a uma nebulosa de novos partidos radicais neo-estalinistas com um futuro também muito problemático…Por outro lado, a hipótese de golpe de Estado militar não parece ter credibilidade de espécie alguma; e o golpe-dito-constitucional carece de apoio parlamentar óbviamente.

    1. “Ausência de mediação doutrinária sustentável”? Agradeço que me envie da próxima vez o texto que devo escrever para ser “sustentável”.

  4. Sobre até que ponto SJA interiorizou o discurso dominante antes do actual governo lembro uma pergunta que ela ou o seu colega Pedro Sousa Carvalho fizeram a António Costa a 7 de Dezembro passado, e que lhes custou o ridículo de se sujeitarem à resposta dele:

    “P. Que reformas estruturais ou agenda reformista é possível fazer ou ter com um Governo minoritário?
    R. A sua pergunta demonstra como a expressão reforma estrutural foi poluída ideologicamente pela direita. Portanto, só é capaz de conceber como reformas as reformas da direita. O nosso programa é muito reformista, não tem é as reformas da direita.”

    1. Não creio também que seja o caso, acho até que se trate de uma jornalista destacada. O facto de estar em desacordo com a sua posição política não me leva a mudar de opinião a esse respeito.

  5. Exm.º Professor, leio-o com frequência, respeito as suas opiniões. Aceitá-las ou não é um acto próprio do meu direito natural de pensar. Li também SJA e voltei a reler o seu (polémico) artigo, várias vezes. Da minha análise e “julgamento” resulta que V. Ex.ª pôs-se a jeito. O Mestre cochilou.

  6. De que serve tentar chamar à razão alguém mal intencionado e cuja função é defender a direita? Os de direita vão aclamar, mesmo sabendo que são acusações infundadas, os da esquerda já perceberam o esquema que estes jornalistas apaniguados de direita andam a fazer, desde a campanha para empossarem o pinóquio de massamá como 1º ministro. É portanto ingrato estar a dar crédito a estas raparigas (e rapazes) das mijas do PSD (https://www.youtube.com/watch?v=7OWMB3ewpNM).

    1. Primeiro: este comentário evidencia que quem o escreve não sabe quem é a SJA, que esta escreve no Público e que o escreve são coisas normalmente muito interessantes e razoáveis.
      Segundo e fazendo agulha para o que interessa: o conteúdo desta crónica de SJA, que li no fim de semana, chocou-me pelo despropósito e incorrecção factual como o Francisco Louça justamente assinala. Estava habituado a mais da parte desta jornalista.è mais um caso. A muitas figuras do jornalismo que eu respeitava bastante está a fugir-lhes “o pé para a chinela” com a presente conjuntura que nos governa em Portugal. Está a fugir a muita gente o bom senso e o equilíbrio… Será porque “os pobrezinhos”, sempre muito bem vindos para receber esmolas na porta de entrada, agora entraram para a sala, estão a conversar e ( que ousadia…) quase se sentaram à mesa com “os ricos”? Estalou o verniz a muita gente. É bom conhecer a verdadeira natureza das pessoas com quem temos de conviver.

  7. Golpe no Brasil? Corrupção, dinheiros limpos?
    Construção, futebol, justiça, petroleo, luz divina?
    Cadeias de televisão e de noticias, arte e espectáculos!

    Manipulação pura e constante da verdade. Onde é que já se viu tamanha promiscuidade, (ou seria perversidade), dos poderosos? Em todo o mundo?
    Impossível!
    Bem vistas as coisas, todos estes temas são razão mais que suficiente para meter na cadeia os governantes (actuais) e se necessário a democracia que os tenha elegido. É que afinal “estes eleitos” deixaram o peixe nadar. Peixe graúdo não sabe de nada! Só come “peixinho”, naturalmente alguém tem que o fazer! Só que antes, convém deixar claro que os verdadeiros responsáveis, nem tem responsabilidade nem interesses nos assuntos. São verdadeiros amigos. São todos impolutos. São só inocentes e vitimas das cheias, que os rios de pilim trouxeram morro abaixo. Ou terá sido planalto abaixo(?), ou mar acima, quando alguns invejosos se intrometeram?
    Dos dois lados do atlântico, o bodo era finito. Esse é o problema. Com isso é que não contaram.

    Como sempre. Os primeiros a meter a mão na massa, (os de cima), é que são vitimas, (convém). Esses sim, tem que ser protegidos. Não vá o povo acertar na “lotaria” e lá está, meter pau neles.
    Ou será apenas por acaso, (e má fé também), que aparecem problemas na FIFA, na exploração e comercio do petróleo, nos diamantes, na bolsa, na banca, na finança, nas artes, nas convicções de fé, nas migrações.

    Homens de pouca fé. Ímpios. Traidores dos bons costumes do senhor das boas contas!

    Estes deuses são grandes, e poderosos. São os seus reinos, palácios e artimanhas que sempre agem. Tudo afecta e infecta. A todos, (entre todos), toca com o seu ungento carcanhol. Até que o pé descalço se acalme e se deixe de queixumes. Ou acalme a sua fome e sede de justiça.
    Está escrito.

  8. Se as investigações da corrupção forem até ao fim o desfecho significa por toda a classe política brasileira, e parte da justiça, na cadeia. Como uma democracia não pode funcionar sem classe política, aquilo que Moro e os demais, incluindo SJA, pretendem é por parte da classe politica na cadeia, como se depreende do fato de terem imposto sigilo sobre as novas listas vindas a público. E já se sabe qual parte, e o que acontecerá com a democracia Tem de haver uma solução politica para a crise brasileira, uma solução providenciada pelos corruptos. Porque a corrupção é um problema estrutural no Brasil. Essa solução tem de garantir a democracia, ou seja o respeito pelas urnas. Democracia que em última instância é a única garantia de que a corrupção continuará a ser combatida. Qualquer outra solução chama-se golpe.

  9. Como vem acontecendo de alguma tempo a esta parte, o Sr. reproduz as insinuações e acusações que os arguidos dos processos mediáticos em Portugal fazem aos magistrados: que violam o segredo de justiça, que disponibilizam as escutas aos jornalistas, etc, etc. Pergunto-me: tem provas do que afirma?
    Por outro lado, nunca se ouve uma palavra sobre as atitudes dos advogados que, em flagrante violação dos respectivos estatutos, vão para a comunicação social falar dos processos ou investigações em curso, sem contraditório, com o propósito evidente de descredibilizar as investigações, as quais, invariavelmente, resultam de “um delírio” do MP ou de uma cabala.
    Estão todos inocentes e não passam de vítimas da violação do segredo de justiça…
    Sobre o que se passa no Brasil, sabem os brasileiros ou quem conhece bem aquela realidade. Não é o meu caso.

    1. Provas? Abra o Correio da Manhã ou a Sábado e leia a transcrição de interrogatórios em vários casos. Precisa de mais provas? No Brasil, o juiz assumiu que foi ele quem divulgou a escuta, porque achou que era politicamente útil. Precisa de mais provas?

    2. Não são só as transcrições de interrogatórios mas também transcrições de conversas telefónicas, descrição de movimentos bancários (follow the money!) e transacções de imóveis, despesas sumptuárias, eu sei lá. De facto há provas que cheguem.

  10. Caro Louçã, o Estado Islâmico está a recrutar propagandistas. Oferecem escravos à discrição durante a vida e 72 virgens depois da morte. Não está interessado?

    1. Pelo menos, relativamente áquele de quem o Sr. usurpou (infelizmente para ele) o seu pseudónimo, não percebiamos o que dizia. Se fossem comentários do teor do seu, eu diria que, felizmente.

  11. Francisco Louçã, penso sinceramente que perde o seu tempo a explicar de novo a sua reclamação a São José Almeida ou mesmo ao público que o lê. Eu não acredito um segundo que ela acredite que você, Catarina Martins ou Jerónimo de Sousa, acredite que a corrupção não seja corrupção “ponto final, parágrafo”.

    Terminaria, procurando pôr termo a toda e qualquer amálgama, com a carta convocatória da frente Povo Sem Medo por uma “saída pela Esquerda” (disponível, aqui: https://www.facebook.com/events/1623699354567294/) e uma questão:

    Alguém acredita que S.J.A. não saiba da frente Povo Sem Medo por que se mobilizam as esquerdas da Esquerda no Brasil?

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