Tudo Menos Economia

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Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

28 de Março de 2016, 12:00

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O “longe” é sempre distante, a não ser que se torne próximo

Em 1960, era eu um jovem estudante e a televisão dava os primeiros passos em Portugal. Mas, ainda hoje, tenho bem presente o que, em mim, provocou a notícia desenvolvida de um brutal sismo em Agadir na costa marroquina e que matou metade da população da cidade. De tal modo que o medo de um terramoto para mim nunca mais deixou de estar ligado à memória infantil desse acontecimento.

Agadir, onde os portugueses estiveram há séculos, é perto de nós. O sismo quase se “ouviu” na nossa costa atlântica. Não foi longe, na Ásia ou na América Central, foi ali, quase ao nosso lado.

O eticista Thomas M. Jones definiu seis critérios para medir a intensidade moral de um acto ou de um facto. A um deles chamou proximidade. Não apenas física ou geográfica, mas igualmente um sentimento de aproximação social, cultural, psicológica, religiosa sobre a magnitude das consequências dos actos ou das situações.

A globalização – entendida, sobretudo, como a diluição ou esbatimento acentuado da relevância da noção de distância e de tempo para as actividades, relações e processos sociais, económicos, políticos e mediáticos – tem contribuído para aproximar quase instantaneamente os acontecimentos, transformando a dimensão universal numa espécie de dimensão local sem paredes, para citar Torga. Agadir é já aqui. Mas não necessariamente para aproximar as pessoas.

Vem isto a propósito dos hediondos atentados e massacres que, infelizmente, se sucedem e são noticiados quase diariamente. Voltando à noção de intensidade moral, assistimos à diferenciação gritante do valor da vida (ou da morte) em função de estar (ou ser) próximo de ou longe de nós.

Ainda ontem, domingo de Páscoa, um massacre em Lahore, no Paquistão, foi noticiado. Morreram mais de 60 pessoas, a maioria crianças, junto de um parque infantil após a celebração pascal de cristãos paquistaneses. As televisões deram todo o tempo para uma vergonhosa tentativa de manifestantes extremistas na sofrida Bruxelas, mas limitaram-se a uma fugaz informação sobre a devastação no Punjab paquistanês. Há dias, novo ataque perpetrado no Iraque matou dezenas de homens e mulheres indefesos. Como na destruída Síria, Istambul, Costa do Marfim, Tunísia, Chade, Camarões, Líbia, Iémen. Mas aqui, nestes sítios, não há enviados especiais e ninguém se atreve a dizer que “je suis…” Porque é distante e está ao alcance “eliminador” de um qualquer zapping. Não causa apreensão, nem gera medo, a não ser alertar para os perigos do … turismo ocidental!

A morte longínqua parece não ter o mesmo efeito da morte aqui ao lado. Não obstante, terá a consequência da banalização do que se ouve, lê ou vê numa curta notícia, mais ou menos descartável, que gera um fugaz desassossego de consciência. A não ser que morra um dos “nossos”, europeu ou americano. Aí o assunto ganha relevância noticiosa.

É assim, o mundo global, ao mesmo tempo dividido e retalhado. Até na morte, a injusta diferença se acentua. Lá longe, os frios números e as insensíveis estatísticas sobrepõem-se às pessoas. “Diante dos abismos espirituais e morais da humanidade” para citar o Papa Francisco na sua mensagem Urbi et Orbi do domingo de Páscoa, o Ocidente só desperta na proximidade (de que falava Thomas M. Jones). Ou sempre que o longe se torna perto. Como, desgraçadamente, está a acontecer cada vez mais.

Comentários

  1. Percebo muito bem o que quer dizer, mas a verdade é que cada ser humano não pode afligir-se com todas as tragédias que acontecem no mundo a todo o instante e que, nos tempos actuais, estão à distância de um clique de rato. Eu posso ficar mais chocada e comovida com um pequeno incêndio ao fundo da minha rua que desalojou uma família com 3 filhos pequenos, do que com uma inundação que matou centenas de pessoas – incluindo crianças – no Bangladesh. Feliz ou infelizmente, não creio que haja algo de errado nisso. Também é verdade que a relevância do que aconteceu, por exemplo, em Bruxelas, é enfatizada pelo facto de haver milhares de portugueses directa e indirectamente afectados pelos eventos, ao passo que os trágicos eventos no Médio Oriente não têm a tal “proximidade” de que nos fala no texto. Ignorar isto seria ignorar a própria natureza humana.

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