Tudo Menos Economia

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Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

28 de Março de 2016, 20:05

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Hillary ou Bernie …

As primárias deste ano, para eleição do candidato (ou candidata) do partido democrático, estão a ser as mais renhidas e interessantes desde há muitos anos[1]. Tipicamente, as primárias ficam decididas logo no início do processo. Os candidatos que não conseguem afirmar-se no início, deixam de conseguir financiar a campanha e desistem.

Contudo este ano não tem sido assim.

Do lado do partido democrático, Hillary Clinton é a favorita e é tacita ou explicitamente apoiada por muito do “establishment” de esquerda (ou liberal, como o conceito é definido nos EUA), incluindo meios de comunicação social como o New York Times. Recolhe ainda o apoio da quase totalidade dos super-delegados, notáveis do partido que elegem o candidato à presidência do seu partido, e que podem mudar o seu sentido de voto. Mas Bernie Sanders, o outro candidato das primárias dos democratas, tem tido resultados surpreendentes para um país como os EUA, considerando que Bernie Sanders se proclama um “democratic socialist”, democrata socialista ou, talvez, social-democrata, num país onde socialismo é equacionado com comunismo e em que Bernie Sanders se posiciona claramente na ala esquerda do partido democrata.

O certo é que no último sábado, Bernie Sanders ganhou as três primárias que se realizaram no Alasca, Havai e Washington, com vitórias muito expressivas, entre 70% e 82%. Hillary Clinton praticamente só teve vitórias deste tipo nos estados do Sul, sobretudo graças ao voto das minorias étnicas (afro-americanos e latinos). Bernie Sanders venceu em 14 dos 33 estados onde já decorreram primárias mas, 5 das 19 vitórias de Hillary Clinton, foram por margens muito estreitas, em dois dos casos por algumas décimas de ponto percentual.

Hillary Clinton continua à frente contabilizando o apoio de 1243 dos delegados eleitos nas primárias, enquanto Bernie Sanders conseguiu 975 delegados. A diferença, embora grande e difícil de inverter até ao final das primárias, não é assim tão significativa. Onde Hillary ganha esmagadoramente é no apoio dos super-delegados (469 vs 29), o que significa que as cúpulas do partido democrático preferem Hillary Clinton a Bernie Sanders.

As vitórias de Bernie Sanders significam contudo que a campanha de Hillary Clinton está em apuros. Estas primárias deveriam ter sido um passeio para Hillary Clinton e não o têm sido. E isso coloca dúvidas em relação à candidata à presidência.

Para a nomeação, as primárias futuras mais importantes são a 19 de Abril, no Estado de Nova York, com 247 delegados em jogo e, em Junho, as da Califórnia (548 delegados). E Hillary, que é a favorita em ambos os estados, parece não querer arriscar, não aceitando, até à data, participar num debate em Nova York com Bernie Sanders.

Parece-me que se Hillary Clinton perder as primárias no estado de Nova York (cujas sondagens lidera 63% vs 28,5%) ou na Califórnia (47,5% vs 38,5%), algo que nesta altura parece muito improvável, a nomeação poderá ficar em dúvida, mesmo que tenha o maior número de delegados. Se ganhar pelo menos um desses estados, de forma clara, parece-me que Hillary conseguirá assegurar a sua nomeação como candidata do partido democrata.

O campo de Bernie Sanders tira conforto dos resultados surpreendentes atingidos até à data e do facto das sondagens indicarem que em eleições contra Donald Trump, Bernie Sanders ter melhor hipótese de vencer.

Hillary Clinton pareceria a candidata natural do partido democrático. Mas afigura-se-me que as suas ligações a Wall Street e aos grandes interesses financeiros, o escândalo em torno do uso de um servidor de e-mail privado para correspondência classificada, enquanto Secretária de Estado, que está a ser investigado pelo FBI, bem como toda a sua estratégia das últimas décadas em posicionar-se como falcão (“hawk”) em relação à política externa dos EUA – estratégia que se afigura ter sido uma decisão calculada de uma antiga jovem oponente da guerra do Vietnam já a pensar numa candidatura à presidência – desagradam a uma parte significativa do eleitorado democrático cansado de guerras sem fim e, sobretudo, cansado da falta de perspectivas para a classe média. Não esqueçamos que dos 124,5 milhões de americanos em idade activa (entre 25 e 54 anos), 28,9 milhões (23,2%) não trabalham, ou porque estão desempregados ou porque nem sequer procuram trabalho (não pertencendo à população activa).

Por conseguinte, o voto em Bernie Sanders parece-me o voto do desencantamento do eleitorado democrático com a sua máquina partidária, com o seu establishment e um sinal de que esse eleitorado quer mudança, mudança essa que Barack Obama, ao contrário do prometido, aparentemente não trouxe.

Vamos aguardar pelas cenas dos próximos capítulos, i.e., pelas próximas primárias, em que tanto se decide…

 

 

 

P.S.- Guardarei a análise das primárias do partido republicano para um próximo post

 

[1] As primárias de 2008 entre Barack Obama e Hillary Clinton também foram muito disputadas, com Obama a ganhar através do apoio dos superdelegados. Não obstante, estas primárias parecem-me mais interessantes.

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