Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

26 de Fevereiro de 2016, 09:19

Por

“Vemos, ouvimos e lemos. Não podemos ignorar”

ng6000273Dizia assim uma notícia da Lusa – com impacto limitado nos nossos media – de domingo, 21 de Fevereiro:

Um hotel preparado para acolher refugiados na localidade de Bautzen, no leste da Alemanha, ficou seriamente danificado na noite passada por um incêndio, enquanto grupos de vizinhos festejavam o sinistro [sublinhado meu].

A polícia deteve temporariamente três pessoas, por interferirem no trabalho dos bombeiros envolvidos no combate às chamas.

Os incêndios em unidades destinadas a acolher refugiados, já habitadas ou em construção, têm-se sucedido nos últimos meses, muitos deles alegadamente ateados propositadamente para impedir que cheguem à população alvo.

E acrescentava-se na mesma notícia que a chegada de milhares de refugiados à Alemanha – o país recebeu no ano passado cerca de 1,1 milhões – fez disparar os ataques contra habitações destinadas a requerentes de asilo, já habitadas ou em construção.

Esta triste notícia fala por si. Não é preciso acrescentar mais nada. A indiferença perante a dor alheia alastra num mundo “convidado” a ser cada vez mais amoral e individualista. Que importância tem esta notícia quando comparada com o exibicionismo da ganância, o elogio da avareza e da luxúria, a propagação da batota, o vazio de ideais, a alienação social-futebolística dos dias de hoje? Como escreveu Sophia de Mello Breyner, “o nosso tempo é pecado organizado”.

Paradoxalmente a chanceler Merkel, sempre tão áspera e (nem sempre justificadamente) criticada como a personificação do mal, pode vir a sucumbir pela circunstância de ser quase a única, na Europa, a ter uma política de acolhimento mais aberta. Bem sei que, como se diz em linguagem eticista, será uma espécie de “enlightened ethical egoism” ou “enlightened utilitarianism” (egoísmo ético ou utilitarismo esclarecidos), isto é uma acção ou decisão que, além de trazer benefícios para os refugiados, pode ter, mais tarde, bom retorno para o país acolhedor.

Como há dias exortou o Papa Francisco este tipo de situações, que se vêm verificando perante muita apatia, “parece minar as bases desse ‘espírito humanista’ que a Europa ama e defende desde sempre”,  advertindo que tal não pode impedi-la de continuar a ser “um farol de humanidade“.

Volto à poetisa, na sua ‘Cantata de paz’: “Vemos, ouvimos e lemos. Não podemos ignorar”.

Comentários

  1. “Vemos, ouvimos e lemos”, certo, mas talvez não vejamos, não oiçamos, nem leiamos o que valeria a pena ver, ouvir e ler. O papa Francisco bem poderia alimentar os anseios dos Sírios e outros migrantes com um discurso de incentivo à rejeição dos valores ocidentais, fazendo-lhes ver que têm tudo a perder ao abandonar as suas terras e que, se elas se tornaram inóspitas, isso se deve ao desleixo para com o meu meio natural e ao abandono dos valores das suas próprias culturas. O Papa Francisco, tal como os grandes mentores da ortodoxia liberal e moral, nunca ousaram aterrar no Ruanda ou no Darfur e constatar o quanto a pressão demográfica ali exerce uma prevalência de guerras e genocídios, sim, a moral cristã que que se eleva contra o aborto e a contracepção, lembro que os EUA se recusam a introduzir nos seus donativos a esses povos, um pacote de incentivos à contracepção. Do mesmo modo, a indignação que se manifesta ao denunciar os incêndios a futuros abrigos para refugiados, revela uma leitura opaca e um alheamento dos contornos que as migrações tomaram. Os edifícios que vemos arder nos jornais de media representam negócios associados ao drama que dizem bem da dimensão da violência que se exerce contra esta gente, não ao incendiar-lhes os futuros abrigos, mas sim ao levá-los a iniciar uma migração tudo menos inevitável, já que é a economia da violência que se apoderou daqueles territórios, não a economia que definha ou se gere mal, é uma economia estatal que tem proeminência na violência contra as populações, economia essa sustentada e imposta pelos grandes países ocidentais e pelo alheamento dos cidadãos no ocidente em geral. Na Alemanha, o negócio dos contentores explodiu e viu os preços aumentar mais de 800%, ao ponto de haver necessidade de recorrer aos fabricantes de contentores polacos (um negócio para todos). Na Alemanha, o negócio das casas préfabricadas está de vento em poupa, com um crescimento na ordem dos 15/20%. Na Alemanha, imobiliárias suíças convertem edifícios devolutos de escolas, fábricas e outras instituições em declínio para alojar os migrantes, obtendo lucros fabulosos com a intermediação do governo alemão, os edifícios que vemos arder são vários destes casos. Os populares vêem assim ser-lhes imposta uma vizinhança conflituosa, pois uma legião de migrantes com culturas e sentimentos díspares invade-lhes o espaço e a vida quotidiana, sem que tenham sido acauteladas as diferenças e a tolerância da cultura alemã, a localização destes abrigos obedece a critérios absolutamente aleatórios como “a disponibilidade daquele edifício naquele lugar”. Os táxis estão a apresentar resultados do exercício completamente fora das previsões porque o sistema de saúde alemão lhes atribuiu a prestação de deslocações dos migrantes às convocatórias. Estaria o autor deste artigo disposto a tolerar uma simples comunidade de ciganos num terreno próximo da sua moradia? Pelo que me é dado observar pelo país fora, duvido…O filme de Leonor Teles confirma-o.

  2. Professor, óptima posta e “obrigado” por me dar esta triste notícia. Não há palavras para descrever estes actos. Eu não acredito em prisões, mas reconheço que este tipo de crime cujo o intúito não é beneficiar o criminoso mas simplesmente prejudicar terceiros, faz-me uma confusão à cabeça… Um gajo tem fome e assalta a padaria, ou não tem dinheiro e assalta o banco são coisas que não estão correctas mas entendem-se. Agora atirar fogo aos abrigos para prejudicar os miseráveis dos refugiados sem nenhum benefício pessoal só para prejudicar os ditos, é coisa de doença mental. Só podem ser pessoas doentes da cabeça. Cobardes e pequenos e doentes. Diga-me por favor o que posso fazer para combater isto. O meu fígado agradece.

    1. E olhe que o fígado do Adriano já está muito abalado pelos meus comentários, imagino que também cobardes, pequenos e doentes! Como ele usa a mesma linguagem para mim e para criminosos, se calhar não lhe faria mal olhar para a sua própria saúde mental… O problema Adriano, não são os que se tratam, são os outros!

  3. «A indiferença perante a dor alheia alastra num mundo “convidado” a ser cada vez mais amoral e individualista».

    Permita-me que discorde. Voltei a ler algumas partes da Comédia Humana de Balzac, para quem o romance era «a história privada das nações», e se comparados com os valores morais dos seres do século XIX, gente de uma cupidez, imoralidade, hipocrisia e escandalosa indiferença pelo próximo; nós, Homem de princípios do século XXI somos anjo de bondade nos nosso valores e formas coletivas de organização.

    Não sei se o homem poderá alguma vez mudar, mas o que me parece certo, e de assinalar, é que os modelos sociais, e os valores, coletivos ou privados, que o Ocidente tem sabido encontrar são reveladores de um paulatino progresso moral e de maior preocupação para com a sorte do próximo. Acha que Auschwitz, a Inquisição, o Colonialismo, por exemplo, seriam hoje possíveis? Eu creio que não.

    O ser humano tem feito notórios progressos a nível moral e a sua preocupação, pelo menos no Ocidente, para com a Ética, é assinável. E já que comecei por falar do Romance, género que espelha os valores das sociedades, poderia dar o caso da evolução da instituição do casamento e de outros aspetos da moral na vida privada. Hoje há seguramente mais divórcios, mas o adultério não é o pão nosso de cada dia, como era no século XIX, e literatura de então tão bem ilustra.

    1. Só mais uma nota: Creio que a visão pessimista, relativamente à suposta degradação moral e ética nas sociedades contemporâneas, visão que não partilho mas que verifico frequentemente nos católicos, da qual o papa é o arauto, deve-se ao facto de eles acreditarem – e a meu ver sem razão – que a crescente descristianização das nossas sociedades está a conduzi-las para uma degradação ética e de valores.

      O facto das nossas sociedades serem cada vez menos cristãs hoje, pelo menos na Europa, não significa que o Homem esteja a se tornar mais mau. A descristianização do nosso continente não tem conduzido a Europa a menos valores morais. Para os católicos é conveniente pensar isso mas creio que eles estão enganados.

      A Ética existe e progride; só que já não tem um fundamento cristão ou de ordem religiosa, tão caro aos católicos e crentes; é qualquer coisa da ordem unicamente do cívico e já não do domínio da revelação ou do religioso.

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