Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

25 de Fevereiro de 2016, 09:15

Por

Queixinhas

Paulo Rangel veio defender-se acaloradamente da crítica que o primeiro-ministro lhe dirigiu, como muita gente.

A crítica era essencialmente esta: Rangel foi para uma sessão com Juncker alardear que o “braço direito” de Costa, o ilustre deputado Porfírio Silva, teria cometido o crime horribilis de comparar a União Europeia à URSS (sem KGB, assunto que aqui destaquei). Percebe-se Rangel: é sincero o seu próprio alarme quanto à putativa contaminação do PS, tão europeísta que ele era, pelos seus comparsas governamentais, chegando agora a maltratar a dama europeia. Pecado capital, bem entendido, e Juncker merecia ser avisado deste perigo ambulante que é o “braço direito” de Costa.

A coisa é tão absurda que pareceu a algum dos admiradores de Rangel uma queixinha pueril.

Ora, ofendido com a gozação, Rangel veio defender-se com dois argumentos principais.

O primeiro é que na “Europa” se pode discutir tudo: “Esta ideia provinciana e bacoca de que no Parlamento Europeu não se trata de assuntos que respeitam aos Estados-membros é verdadeiramente reaccionária e ultramontana”. Tem toda a razão. Pode-se e deve-se discutir tudo. O que já parece pouco sensato é este frenesim apontatório que Rangel levou ao Parlamento Europeu, o que levou o coitado do Juncker a manifestar incómodo pela sessão de bate boca que assim foi desencadeada pelo nosso eurodeputado. O problema de Rangel não foi “tratar de assuntos que respeitam aos Estados-membros”; foi desmerecê-los. Não foi criticar uma ideia; foi pedir ajuda ao chefe para obter a anuência e de caminho a confirmação de uma condenação ao herege e que lhe saía fraquinha.

O segundo argumento de Rangel é o tremendismo: ele não deixará passar o fim do mundo. Ou dito nas suas palavras, “Uma coisa lhe garanto, por muito que isso lhe custe: não me intimida nem me calará; continuarei a exercer em pleno o meu mandato em nome do meu país e de todos os que me elegeram”. Oh eleitores, oh ímpios, tremam, que Rangel se levanta! Ele “não se calará” nem que caiam os muros de Jericó!

Não sei se Rangel, que de eurodeputado argumentativo e bem fundamentado se transformou num político acossado que usa cada debate para exercer o mais espantoso frenesim, se dá conta de como esta hipérbole o esvazia de palavras. “Não me intimida nem me calará” soa bem, mas alguém o leva a sério? Se me permite um bom conselho, Paulo Rangel, bata-se, barafuste, argumente, faça como quiser, mas não se deixe cair na irrelevância e muito menos no ridículo.

Fazer queixinhas em Bruxelas ou Estrasburgo é simplesmente ridículo.

Comentários

  1. Estes esforços patéticos do grupo de Passos Coelho, Relvas, Marco e C.ª a quem Rangel presta militantes serviços revelam, na queda, a inconsistência que os animou na ascensão ou assalto ao poder para a alucinante destruição de Portugal no plano económico, financeiro, social, político e da soberania.

    Isso passa-lhes!

    Ainda não se deram conta do estado em que puseram a tal “UE”. Não se deram conta dos “europeistas” que perderam e dos eurocéticos que emergiram politicamente. Não se deram conta que a convergência nominal foi substituída pela divergência acentuada. Não perceberam que instigaram as rupturas e as guerras e estão cercados de guerra por fora e terrorismo por dentro e erguem muros uns aos outros e suspendem democracias pluralistas e liberdades essenciais.

    Não se dão conta que o seu radicalismo em nome da “UE” pura de rígidas regras acima dos homens e mulheres de carne e osso está a esboroar a construção europeia da paz, liberdade, democracia pluralista e prosperidade.

  2. O Paulo Rangel, como sabemos ficou histérico, porque julgou sempre que o OE, não passava em Bruxelas, daí esse rasgar das vestes de virgem ofendida.

  3. O Drama do pobre de espirito consiste no facto de na impossibilidade de chegar a Sacerdote se contentar em ser rato de Sacristia.

    Este tipo,é uma coisinha viscosa da qual qualquer pessoa que se respeite evita.

  4. “Aconteceram muitas coisas históricas no último semestre. Diria, sem querer ser ofensivo para ninguém, que a política portuguesa se caracteriza por a esquerda estar a mexer e a direita não. Isto foi evidente na campanha eleitoral [das legislativas], mais pela parte do Bloco que sempre foi um partido por uma outra Europa, mas houve também um aggioarnamento do PCP que pessoalmente saúdo. Em relação a estas prioridades há leituras diferentes, mesmo entre PS e PSD há leitura diferente das prioridades à UE, à ligação norte-atlântica, aliás o meu juízo pessoal é que é preciso reforçar essa ligação. Entre o PS e o PSD na justiça, segurança interna, defesa nacional, política europeia, política externa, no comprometimento com a União Económica e Monetária… os consensos não são só potenciais mas absolutamente necessários.” (Público, de 22 de Fevereiro)

    Penso que Augusto Santos Silva nos dá aqui um resumo percutante daquela que me parece ser a postura do PS (postura dum PS fiel ao PS sempre fiel à sua história).

    (entrevista completa, aqui: http://www.publico.pt/politica/noticia/pedimos-a-bruxelas-que-as-regras-sejam-claras-e-iguais-para-todos-1723874)

    1. Como o Francisco Louçã terá ocasião de verificar, a minha citação de Augusto Santos Silva é a sua resposta à questão do Público: “Há mudança do PCP e do Bloco em relação à Europa?” A sua resposta é interessante, dada a importância do seu ministério neste contexto, sobretudo pela expectativa clara de bloqueios e de consensos “absolutamente necessários”.

  5. Sempre me pareceu que este Paulo Rangel se tem em muito boa conta mas enfim vale o que vale e na minha opinião vale pouco embora pelas piores razões possa valer muito. Demonstrou nesta questão ser um político sem estofo permitindo que certos sentimentos mesquinhos tolhessem o seu comportamento.

  6. Paulo Rangel, que chegou a ser candidato a Presidente do PSD, manifesta a sua intenção de secundar o “chefe”, sublinhando a barragem de fogo ao programa de governo do PS ,encabeçada pelo líder do partido a que pertence, com o aviso às instâncias europeias para o perigo da contaminação do PS, o que a sua condição de arauto eleito julga conferir.Nada de novo.Também as intervenções de destacados tribunos parlamentares, seus correligionários, vêm denunciando o Syriza lusitano, com a veemência da desgraça.O que é novo, é o facto de ,pela primeira vez, existir no PE um eurodeputado eleito pelo voto de alguns portugueses, nomeadamente, pelo partido PSD, que se preocupe mais com a defesa das suas convicções pessoais do que com o patrocínio do que são os interesses do seu país.

  7. Infantilidades ,caprichos,egocentrismos,alias,tudo isto parece o recreio da escola,mas em versão pre-primaria,tudo o que retira credito e dignidade ao acto politico,alias os apoiantes do paf,em geral tem se mostrado bastante amuados(mais uma demostração de infantilização total)…recomendo Woody Alen,que já não é nenhuma criança.

  8. É certo que por muito que se pinte a ênfase para hiperbolizá-la, o que importa é a substância, Francisco Louçã. Não li nada de muito substancial no texto de Paulo Rangel.

    Se o herege anui, não é herege, mesmo que procure corrigir o passo entre os seus ou os demais — tivemos exemplos disso, Porfírio Silva é um exemplo patético, Alexis Tsipras um exemplo trágico.

    Estou completamente de acordo consigo, Francisco Louçã, precisaremos de ser muito mais firmes na heresia. “Vivemos uma época de transição, assim é a vida”, de facto.

    1. Peço desculpa mas dizer que “Porfírio Silva é um exemplo patético” não me parece correto! Parece é que nas declarações de PS (Porfírio Silva e não Partido Socialista) há uma ingenuidade pateta e não patética, dado se tratar de um político com aspirações. Dizer que o rei vai nu pode ser fatal para a sua carreira. Quem não tem aspirações políticas pode constatar (constatar é esotérico, todos podem) e dizer (este exoterismo só é admissível aos profanos da política) que a seita eurocrata, no seu monolitismo exacerbado, está cada vez mais parecida com o “apparatchik” soviético. Enlevados na opulência do próprio umbigo, esquecem a realidade e vivem na mesquinhez da sua parasitária autarcia. Há apenas uma diferença! As palas soviéticas deram origem à queda de um muro e as eurocratas parece que irão azo à construção de muitos muros.

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