Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

24 de Fevereiro de 2016, 11:00

Por

O fim da nota de 500 euros

Nota de 500

Fonte: Wikipedia

O presidente Mario Draghi afirmou há já alguns dias que o BCE está a considerar retirar de circulação a nota com a maior denominação na zona euro – de 500 euros. O argumento é que seria útil para o combate a actividades ilegais como tráfego de droga, lavagem de dinheiro, corrupção, evasão fiscal e até terrorismo. Mario Draghi teve o cuidado de referir que “não tem nada a ver com reduzir dinheiro (em espécie)”.

Um editorial do New York Times de segunda-feira aplaude a medida.

Sendo plausível que a retirada de circulação de notas de grande denominação dificulte actividades ilegais, afigura-se que há outros factores a justificar tal decisão e o BCE deveria ser claro a explicar as razões mais importantes para acabar com a nota de 500 euros, ao invés de apresentar a sua proposta apenas com base naquele argumento.

De entre os possíveis argumentos poderão estar os seguintes:

Primeiro, o objectivo da política monetária não convencional que está a ser seguida na zona euro é implementar taxas de juro negativas de forma a “obrigar” consumidores, investidores e empresas a gastar e a investir na economia real. Esta política tem, porém, como resultado colateral, levar muitos agentes a utilizar as suas poupanças para “especular” nas bolsas.

Em parte em resultado da política monetária adoptada, as taxas de juro da dívida pública da Alemanha para maturidades inferiores a 9 anos são actualmente negativas, e algo similar ocorre noutros países do norte da Europa.

A taxa de juro de depósitos da banca comercial junto do BCE também é negativa, sendo -0,3% desde Dezembro de 2015. Considera-se quase certo que o Conselho do BCE venha a decidir baixar (tornar mais negativa) a taxa de juro dos depósitos da banca comercial junto do BCE na sua próxima reunião de 10 de Março.

Ora, com taxas de juro negativas em depósitos à ordem, depósitos a prazo, como também de títulos de dívida pública de países considerados seguros e mesmo títulos de dívida de grandes empresas privadas, muitos aforradores, nomeadamente particulares com elevado património, empresas, mas também fundos de companhias de seguros e fundos de pensões, poderão ser tentados a converter os seus depósitos em dinheiro e a guardá-lo, se não no colchão, pelo menos em cofres. Isto porque deixam de ter de pagar juros sobre as suas poupanças.

É isso que ocorre, por exemplo, na Suíça, onde a decisão do Banco Nacional Suíço de reduzir as taxas de depósitos para -0,75% levou alguns aforradores a trocarem os seus depósitos por dinheiro. Segundo o Wall Street Journal o número de notas de 1000 Francos Suíços (cerca de 916 euros, cada) em circulação cresceu 17% em 2015.

Ao retirar de circulação as notas de 500€, este processo – de conversão de poupanças em dinheiro em espécie – torna-se mais difícil. Se a nota de 200€ não vier a ser retirada logo a seguir (como é provável que ocorra), passa a ser necessário cerca de 2,5 vezes o espaço para armazenar a mesma quantidade de dinheiro.

Segundo, o principal problema que o BCE enfrenta com taxas de juro negativas é dos serviços prestados pela banca passarem a ser relativamente mais dispendiosos, i.e., torna-se menos vantajoso aplicar as poupanças num depósito bancário.

Portanto, aqueles aforradores que podem, e que não necessitam do seu dinheiro imediatamente, serão tentados a levantar os seus depósitos e a depositá-lo, por exemplo, num cofre situado dentro do próprio banco.

Na zona euro, em Dezembro de 2015, por cada euro público existiam 9 euros criados pela banca privada. Graças aos programas de liquidez criados pelo BCE a banca da zona euro dispõe de reservas (euros públicos) que representam 4,6% dos seus depósitos, muito acima das reservas mínimas de 1%. Se o público de repente passasse a preferir deter mais dinheiro na sua posse, a banca e em particular os maiores bancos europeus, poderiam enfrentar uma fuga de depósitos ao mesmo tempo que se verificaria uma queda do multiplicador monetário e da oferta de moeda na zona euro. Como os grandes aforradores, que verdadeiramente fazem a diferença, preferem notas de grandes denominações, ao acabar com a nota de 500 euros o BCE reduz a pressão das fugas de depósitos sobre o sistema bancário da zona euro e por conseguinte dá uma ajuda à banca.

Terceiro, as notas de 500 euros representarão perto de 30% do valor da moeda na posse do público não bancário. Se as notas de mais elevada denominação deixarem de existir é provável que o valor total da moeda na posse do público não bancário baixe. Ou seja, a moeda pública torna-se menos importante e a “moeda privada” torna-se mais importante. Por princípio, não concordo com a substituição da moeda pública por moeda privada, porque é uma forma encapotada de apoiar (e de subsidiar) a banca privada e de protegê-la das restrições orçamentais enfrentadas por qualquer actividade económica, inclusive a maior parte das actividades económicas de índole pública. Se não existir moeda pública, o risco de uma corrida à banca (e aos maiores bancos em particular) diminui, porque a banca pode criar a sua própria moeda privada. Por conseguinte, a banca pode adoptar estratégias mais arriscadas e mais irracionais sem estar sujeita à dita “disciplina do mercado”.

Dinheiro com papel crescente

Fonte: Reuters, via Público

 

Em resumo, existem outras possíveis razões pelas quais o BCE poderá pretender retirar de circulação as notas de 500 euros e, mesmo não concordando com elas, algumas dessas razões serão de legítimo interesse público. Se é assim, porque é que o BCE não apresenta também outros argumentos à opinião pública?

Comentários

  1. Parabéns por este serviço público de esclarecimento.
    Se retirarem as notas de 500 euros há sempre outras alternativas com mais de 5 mil anos.

  2. …o combate ao crime por esta via é uma treta e mais um acto de hipocrisia…é como apanhar o tipo que rouba carteiras no metro…é claro que os que estão no topo da pirâmide da série «tráfego de droga, lavagem de dinheiro, corrupção, evasão fiscal e até terrorismo» não sujam as mãos com notas…no tráfego de drogas os notas mais usadas são as de baixo valor bem como nas compras sem fatura ou mesmo no terrorismo pois as notas gordas dão muito nas vistas e eles são malévolos mas não estúpidos…isto tudo para reforçar o que RC aqui diz; esta medida tem tudo a ver com ajudar a banca embora para soundbite se utilize a criminalidade…

  3. 500€ por Ouro
    – E quais serão as expectativas em relação à evolução da cotação do «Ouro»?
    – Será mais apetecível voltar a usar os metais preciosos como reserva de valor?
    Refira-se que a cotação do ouro esteve em alta entre 2008 e 2012, o que motivou a multiplicação de casas de compra de ouro no mercado, cujo destino era a “reciclagem” e consequente conversão do metal em barras de ouro, com destino quase sempre à exportação. Estima-se que o ouro na posse das famílias (jóias e ouro amoedado) tenha caído substancialmente, enquanto nas montras das ourivesarias o metal amarelo tem perdido quilate, dado lugar de destaque às pratas e outras bijutarias…
    – Qual a opinião de Ricardo Cabral sobre os metais preciosos?

    1. Não lhe respondo por Ricardo Cabral, mas apenas por mim! Desde o estoiro da bolha tecnológica e do 11 de Setembro o ouro voltou a ganhar um estatuto, para muitos, de reserva de valor, que se foi intensificando com a crise financeira de 2008 e a ameaça permanente aos depósitos bancários, que agora vem dos próprios Estados e bancos centrais. Penso que é provável que com o agravar da crise económico-financeira mundial, o ouro ainda tenha belos dias à sua frente. Já se o António acreditar no fim da crise, a posição lógica é abandonar o ouro. Ricardo Cabral, economista, creio que concordará comigo se eu disser que o ouro é visto tradicionalmente como valor-refúgio. A prata vai a reboque, embora oscile mais, é mais “especulativa”.

  4. Estou baralhado, porque acho que ambos têm razão. Mas, de uma coisa estou certo: os ianques tudo têm feito e tudo farão -se os deixarem- para destruir o euro e a própria União Europeia !

  5. Não esqueçamos que a grande mágoa do sistema financeiro é não controlar todo o volume de dinheiro através de papel emitido pelos próprios bancos. É fácil imaginar uma moeda que só terá valor quando trocada na própria instituição que a emitiu, forçando a que os valores voltem à instituição sempre e quando a instituição o quiser, bastando desvalorizar o antigo papel com uma nova impressão. O sistema já existiu em Itália durante os anos 70 do século passado, cada região emitia o seu próprio dinheiro, o que impedia que ele fosse gasto noutra região. O que está na mente dos senhores da finança é acabar com o dinheiro circulante, onde (creio que na Noruega) há já alguns ensaios no terreno, só se aceitam cartões.
    Mas soberba hipocrisia, “Sendo plausível que a retirada de circulação de notas de grande denominação dificulte actividades ilegais”, note-se que a colocação de verbas astronómicas nos off shores não constitui uma actividade ilegal e essas não são formadas por notas de 500€ mas sim por obra e graça do sistema financeiro que (devemos fazer-lhe honra?) não consente que lhe escape, ainda assim, algum dinheiro dos negócios ilegais.

    1. A partir do momento em que o dinheiro não tenha existência material, os cidadãos que nisso consintam estarão totalmente e permanentemente à mercê dos bancos e dos seus “superiores hierárquicos”. Saúdo o povo suíço, que começou a levantar as notas gordas quando ameaçado de ser espoliado das suas poupanças pela palhaçada dos “juros negativos”, expressão neo-chique para roubo dos depósitos. Não é preciso ir muito longe na História para nos ocorrerem Estados que roubaram todos ou alguns dos seus cidadãos.

  6. É claro que o New York Times aplaude, porque desde 1999 que os americanos tudo fazem para destruir o euro e a sua credibilidade. Precisarei de explicar porquê? A nota de 500 euros já está espalhada pelo mundo, e quem as tem pode mesmo procurar outros activos, dólares US, ouro, as escolhas são quase infindáveis. É de uma tolice e de uma ingenuidade superlativas imaginar que as notas de 500 euros irão regressar aos bancos por um capricho do BCE, no melhor dos casos serão trocadas por denominações mais baixas. Mas há alternativas, e até felizes alternativas, para os Estados Unidos da América.

    Ricardo Cabral traz-nos hoje uma situação perto do surrealismo na Europa, em que um grupo de iluminados pretende fazer algo que contradiz os objectivos que DIZ ter. Se o objectivo é estimular a procura e assim provocar alguma inflação na zona euro, o que o BCE deveria estar a fazer era DAR a cada um dos cidadãos da zona euro uma ou algumas notas de 500, até porque grande parte desses cidadãos nem nunca as viram. A presunção dos tais iluminados de que irão poder forçar os detentores de moeda a gastá-la está no domínio da loucura, e da loucura da tirania. Sem mais.

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