Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

22 de Fevereiro de 2016, 08:22

Por

Progredir é crescer por dentro

Escreveu Miguel Torga na sua carta ao romancista e poeta brasileiro Ribeiro Couto (“Traço de União – Temas portugueses e brasileiros” edição Glaciar, 2016) que “progredir é crescer por dentro”. Por diferentes palavras, só do nosso interior se pode transformar o que nos é exterior. Assim, se completa o exterior que brota de dentro e o interior que perscruta de fora.

Há quem chame renovação, revolução ou conversão a esta transformação interior que nos leva a uma mudança exterior. Depende da perspectiva doutrinária, da ética religiosa ou até da estética política. Seja qual for o ângulo, a sua essência pressupõe um profundo respeito pela pessoa no seu todo e encerra uma abordagem personalista em que a soma não elimina as parcelas, antes se fortalece pela diferença das partes.

Observo, na minha contingência, o mundo como suportando uma crescente e porosa inércia mecanicista, longe da ideia de uma qualquer utopia. A sociedade hodierna é, muito, o produto (conta e resultado) de individualismos que, paradoxalmente, atrofiam a própria ideia de individualidade. Como também alimentam a aceitação da circunstância estimulada pelo fascínio dos meios e pelo mimetismo que transforma pessoas distintas em agregados dissolúveis e dissolventes.

No fundo voltamos à velha questão da ética personalista da verdade e do dever. Sobretudo do imperativo categórico de Kant que costumamos resumir na plebeia asserção de que não faças aos outros o que não queres que te façam a ti, mas que também devemos repristinar pela positiva (faz aos outros o que queres que te façam a ti). Voltamos ao nosso interior, onde não há lei, mas nós. Crescendo ou minguando? Aprofundando ou tornando-nos derrotados e indiferentes? Sendo exigentes connosco ou exigindo apenas do outro?

São Tomás de Aquino na sua obra-prima Suma Teológica, escrita na segunda metade do século XIII, distinguia sagazmente os bens interiores e os bens exteriores. Nos primeiros está o progresso, ou pelo menos a condição necessária para o concretizar. A que só nos obrigamos por dentro para os concretizarmos por fora: a solidariedade, a lealdade, a solicitude, a perseverança, o carácter, a decência, a autenticidade, a integridade, a honradez, a mansidão, a prudência e tantas outras expressões que podemos partilhar sem ficar com menos, mas permitindo que o outro fique com mais. Nos bens exteriores estão o dinheiro, o poder, a carreira, o sucesso, os interesses que, se divididos ou mancomunados com o outro, significam quase sempre menos para todos e tantas vezes dilaceram a ideia do bem comum.

Os bens interiores forjam-se e robustecem na ética (simétrica ou assimétrica) e não na lei. Os bens exteriores precisam do ordenamento jurídico para serem limitados e não abusados. Mas se não tiverem o respaldo dentro de nós – ou voltando a Torga, se nós não crescermos – depressa se tornam num regresso e jamais num progresso.

Neste enquadramento, o filósofo francês André Comte-Sponville escreveu uma magnífica obra “O capitalismo será moral?” em 2004. Permitindo-me aqui fazer uma adaptação do seu pensamento, poderemos falar de cinco ordens: a ordem tecnocientífica (estruturada por oposição do possível ao impossível), a ordem económica (estruturada por oposição do provável ao improvável), a ordem jurídico-política (estruturada por oposição do legal ao ilegal), a ordem da moral (entre o legítimo e o ilegítimo) e a ordem ético-humanista (o amor à verdade, o amor da liberdade e o amor da humanidade e do próximo). As primeiras quatro são necessárias, mas nunca serão suficientes, seja na sua órbita ou na sua interacção com as outras. Para estas ordens (externas) há a necessidade individual e colectiva de as melhorar consciente das suas limitações. Mas a ordem ético-humanista (interna) não precisa de ser limitada mas antes completada. Ou seja, do nosso interior para o interior do outro, que assim se renova no exterior de ambos.

Como escreveu Dostoiévski: “Somos todos responsáveis por tudo, diante de todos

É que jamais haverá o tudo sem o todo.

Comentários

  1. Estimado Bagão Félix para rematar o seu profícuo artigo faltou uma menção honrosa a Cristo – e àquela parábola em que ensina a Nicodemos, rico e generoso fariseu, do quão importante é para o Homem “nascer de novo”.

    – “Em verdade, em verdade te digo, quem não nascer de novo não pode ver o reino de Deus” (João, III, 3)

    Mas, o que é – quem, onde e quando – o reino de Deus?
    * * *
    Porventura sem fé, esperança, amor – e sem «utopia»! – já não seja possível recriar em nós, como apregoou o apóstolo Paulo, verdadeiros “imitadores de Cristo” [sin. cristão] e, daí, imaginar, recriar e viver o que seja o “reino de Deus”.
    Talvez, sem Portugal voltar a nascer de novo, quão quimera messiânica sebastianista, apagada num sono por despertar, nunca se compreenda o que em nós significou o sonho e a utopia finda desse outro império – o V Império -, que se espraia noutros mares infinitos por navegar e descobrir!]

    «Que símbolo fecundo
    Vem na aurora ansiosa?
    Na Cruz morta do Mundo
    A Vida, que é a Rosa.

    Que símbolo divino
    Traz o dia já visto?
    Na Cruz, que é o Destino,
    A Rosa, que é o Cristo.

    Que símbolo final
    Mostra o sol já desperto?
    Na Cruz morta e fatal
    A Rosa do Encoberto.»

    Fernando Pessoa: Mensagem / O Encoberto

    Nota: 44 parábolas ensinou Jesus. 44 poemas tema Mensagem.
    Octogonal é a cruz da Ordem de Cristo – e a charola templária do convento de Cristo em Tomar, que foi o centro espiritual de Portugal!
    O «Encoberto» significa o renascer do Cristo [a “rosa”] em nós – que, entre dores e espinhos, deve despontar sobre a cruz já morta do mundo! Cristo [sin. “ungido”] é a salvação, a ressurreição, o infinito e a eternidade…

    Abraço fraterno

  2. O CAPITALISMO E O LIBERALISMO SALVA VIDAS! E POR ISSO A SUA DEFESA IMPÔEM-SE À MINHA CONCIÊNCIA MORAL. A LIBERALIZAÇÂO DOS MERCADOS, A MUNDIALIZAÇÃO É UMA BENÇÃ PARA A HUMANIDADE! O CAPITALISMO SALVA VIDAS E É PROFUNDAMENTE MORAL !

    Adriano, reitero aqui o que Liberal disse e que tanto o irritou. A defesa do capitalismo e do liberalismo económico, porque estes são produtivos, é uma questão moral, também para mim! O capitalismo proporciona e tem proporcionado ao Homem condições materiais de vida como nunca antes foram possíveis antes da sua existência.

    Desde os tempos de Jesus Cristo, até os inícios do capitalismo, 1500 anos depois, a economia mundial experimentou quase crescimento algum; depois do século XVI explodiu exponencialmente até níveis inimagináveis de riqueza e bem estar. Este salto para frente da Humanidade desencadeou-se com a entrada em ação do liberalismo económico. Desde então a expansão do PIB global foi cada vez mais rápida e pronunciada.

    Mas vamos a dados mais recentes, àqueles que dizem respeito à mundialização do liberalismo económico . Em 1990 havia no mundo 1.926 milhões de pessoas a viver abaixo da pobreza extrema; hoje esse número caiu para 836 milhões. Não são números de uma qualquer ONG; são da ONU e referentes a 2015.

    A taxa de pobreza mundial baixou de 36%, em 1990, para 12% em 2015! Graças ao capitalismo a Humanidade assistiu a uma descida generalizada da miséria. A diminuição da fome no mundo, graças ao capitalismo, à liberalização dos mercados, e à mundialização é outra notícia que vale a pena celebrar. Se em começos dos anos 90 a desnutrição afetava 23,3% da população mundial, esta taxa ascende hoje a 12,9%.

    No sul da Ásia, em 1990, havia uma taxa de miséria de 52%; o número que encontramos hoje é de 17%. Na índia, a evolução é quase idêntica; caiu de 53% para 14%. O sudoeste asiático teve um desempenho parecido. Os seus níveis de pobreza eram 46% há um quarto de século, hoje a ONU redu-los a 7%. E se atentarmos à China verificamos que a caída foi inimaginável – de 61% passou para 4%… E tudo isto foi conseguido não com qualquer modelo coletivista, veja-se o caso da Venezuela, mas sim incentivando o capitalismo e o liberalismo económico.

    Lamento que em Portugal não exista um partido que se arrogue claramente do liberalismo económico e um liberal seja olhado como uma espécie de monstro. Não sou social democrata; não sou democrata cristão e por isso não posso votar nem no PSD, nem no CDS, dois partidos tíbios que não são carne nem são peixe. Para quando um partido verdadeiramente liberal em Portugal?

    O CAPITALISMO SALVA VIDAS! E A SUA DEFESA É UMA QUESTÂO MORAL!

    .

    1. Então vamos lá a ver, a partir do séc. XVI, os africanos agradecem profundamente ao capitalismo por serem escravizados, castrados, assassinados empilhados em magotes transportados como gado para uma vida de trabalho a favor da tal “explosão de riquezas e bem estar” que refere. Ainda hoje devido a um mapa estupido que só servio interesses europeus é um continente mergulhado em guerras civis e massacres étnicos. Nas Américas, por exemplo no Brazil, agradecem os 5 000 000 de índios exterminados e passados a fio de catana(quando estive na Amazônia com os índios tive de dizer que era suíço como recomendado pela polícia não fosse nenhum deles levar ainda hoje a mal a minha portugalidade) . O resto da América do sul não foi diferente, extinguindo-se os incas pelo seu ouro e matando tudo o que mexe, espalhando a doença e peste. Da América do Norte abstenho-me de falar mas pelo que tenho lido ainda deve ter sido pior. Mesmo a Europa apartir do séc XVI, encontrou-se muito pacificada como com certeza sabe, sem guerras nenhumas, tudo a favor das riquezas e do bem-estar, num mapa em constante mutação a fim de se dividir bem essas riquezas e esses bem estar. Culminou na paz e elegância do séc xx, que viu duas guerras inimaginaveis e cujos somatórios em mortes não teve igual em nenhum século da história. Talvez venha o record a ser batido neste que vivemos que não parece começar bem nesse usufruto do bem estar e das riquezas. Péço desculpa mas agora vou almoçar que também sou gente e se quiser pela noite falamos dos agradecimentos da Ásia ao capitalismo e nessas riquezas e bem estar modernos que nos fazem trabalhar 12 horas por dia por 600 paos e isto para quem tem trabalho.

    2. Caro José Manuel Ferreira, como referiu a China, eu lembrei-me da famosa frase de Deng Xiaoping: “não interessa se o gato é branco ou preto, o que interessa é que cace o rato”. Em Portugal acho que gostamos mais de escolher a cor do gato, mais vermelho, mais rosado, mais alaranjado… Saudações liberais!

  3. Interessante e oportuna reflexao numa altura em que o país anda abalado com os problemas da corrupçao e da ética na politica e nos negocios. A frase de Torga tras å ideia Gandhi, o líder politico e espiritual da independencia indiana, que dizia “à medida que tempo passa cada vez me interessam mais os homens e menos as ideias.” Nao sao de facto os ideais que definem os homens, mas o seu caráter.

    1. Houve aí uma artista qualquer que disse: quanto mais conheço os homens mais gosto de cobras e ratos. Quanto ao projecto Vênus e a essa fé na tecnologia, fie-se na virgem e nao corra. Mesmo o “sintético” vem de alguma matéria prima. Matéria primeira.

    2. Gandhi concordaria certamente com a artista. Quanto ao problema das materias primas, nao ha razao para perder o sono; a longo prazo estamos todos mortos.

  4. Perdoe-me o autor, mas parece-me muita filosofia para dizer que o homem não é só indivíduo, também pertence a uma família, a uma comunidade, a um país, a um planeta azul… Quanto ao capitalismo, ele é moral na medida em que é produtivo, e se isso é conseguido, como é, através do interesse próprio de produtores E consumidores, tant pis, como diria um filósofo francês! Concordo que o Homem não é só matéria, mas assombra-me a velocidade com que uns tais de “utópicos” passam por cima da matéria e mesmo do espírito fecundo e presente, para construírem os seus castelos no ar. Milhões morreram e morrem por causa desses castelos no ar.

    1. Dizer que o capitalismo é moral por ser produtivo é arrepiante. Estou neste momento a controlar o meu ser (por respeito ao blog) para não lhe dirigir já um xurrilho de insultos do mais torpe e baixo que a minha imaginação consegue encontrar. Assusta-me saber que o Sr. Liberal existe e dorme sendo como é. Assusta-me imaginar o que raio aconteceu na sua cabeça para penssar assim. O que terá acontecido para se permitir sem vergonha e com o mundo na frente pensar assim? Quais as violências que sofreu para apresentar agora este tipo de deformação? Quem o criou? Como se deve sentir quem o criou?

      Já muitos morreram a lutar pelas suas utopias mas nem número é comparado com os que sem utopia foram assasinados pelo capitalismo.

      Não costumo ligar a disparates mas este bateu fundo e ofendeu-me!

    2. A Economia de Mercado não é moral nem imoral — é apenas um sistema económico que tem a grande vantagem de ser descentralizado. Já o capitalismo é nojento. É nojento porque traz à tona o que nós temos de pior… a ganância, a inveja, o egoísmo, a trapaça, a alienação…

    3. Não é xurrilho Adriano, é chorrilho. Se percebo, para o Adriano ser produtivo é um detalhe… E falava eu da velocidade com que alguns passam por cima desse “pormenor” que é o mundo material, que como dizia Woody Allen, é uma merda mas ainda é o único sítio onde se pode comer um bom bife!
      Não costumo falar sobre mim por aqui, mas não se inquiete com a minha cabeça, até lhe adianto que nunca esteve melhor do que agora. Pode é ter um problema para si e para outras pessoas tolerantes como o Adriano, está completamente limpa de marxismos locais e internacionalistas. Mas não me envergonho disso, tenho orgulho, porque este nosso país é uma autêntica barrela de socialismos sortidos, da qual poucos conseguem escapar. Grande espanto estarmos na bancarrota…

    4. Para o Filipe Martins há um BES bom e um BES mau, um capitalismo bom e um capitalismo mau… Será isto o neo-maniqueísmo?!

    5. Ser produtivo não é um detalhe é um problema. Dada a finitude das matérias primas e as diferentes guerras e assasínios necessários para as conseguir, dada a fossa séptica criada e instalada pelo liberalismo no planeta terra estar já a transbordar, conclui-se que não se trata de um “detalhe”. É mesmo necessário reduzir a produção e não será pouco. Resta ver se é uma qualquer catástrofe que o obriga ou se por outro lado os mais novos se mostraram mais sábios que os mais velhos. Não posso, enquanto isso, deixar de o imaginar sozinho, corcunda e postulento de volta do seu querido Marx e com a cabeça profundamente embutida no século XIX, comendo bifes numa qualquer cave há sua escolha cossando-se e rindo. Arrepia-me!

    6. Liberal, agradeço a citação. Imagino que saiba que a frase de Woody Allen, que de facto tem muita piada, é uma variante da frase de Groucho Marx: “I’m not crazy about reality, but it’s still the only place to get a decent meal.”
      Imagino que saiba que tanto Woody Allen como Groucho Marx não são de todo politicamente seus correligionários, muito pelo contrário.

      Adriano, quanto a Marx, um dia que visite ou revisite a obra de Marx poderá verificar que no seu século XIX ele partilhava já a preocupação ambiental que comunica.

    7. Adriano, a finitude das materias primas ou o impacto ambiental das actividades humanas nao sao nada que nao tenha soluçao com o engenho humano. Como observou Marx, o homem encontra sempre soluçoes para os problemas que cria, e nisto a historia tem-lhe dado razao. As soluçoes só podem estar no progresso, nao no regresso. Quando as materias primas escassearem usam-se substitutos sinteticos, haja oportunidades para ganhar dinheiro com as invençoes! As alteraçoes climaticas sao algo talvez mais problematico mas, no que ås emissoes de carbono diz respeito, nada indica que nao venhamos a conseguir ter uma economia baseada em emissoes (antropogenicas) zero. O engenho e a criatividade humanas nao têm limites.

    8. Caro António Florença, se bem me lembro a frase de Woody Allen era “reality sucks, but it still is the only place where you can eat a nice steak”. Mas isto é de memória, e nem sequer sou capaz de a localizar. Não avalio a arte pelas convicções ideológicas do artista, penso que isso é um erro. Ou uma tolice!

    9. Liberal, por uma vez estamos de acordo em tudo: a frase de Woody Allen é a que cita — uma variante, directamente inspirada, da frase de Groucho Marx que cito acima. Quanto a Arte e Política, inteiramente de acordo.

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