Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

22 de Fevereiro de 2016, 12:39

Por

A biblioteca de Eco e os cinco minutos de jazz

As evocações homenegeatórias a Umberto Eco destacaram o filósofo que devolveu a curiosidade à filosofia, o escritor que se divertiu com os seus romances (havia nele um Salgari que nunca escondeu e que norteou a sua busca das terras incógnitas) e o homem cívico que compreendeu que a força de Berlusconi era só a nossa fraqueza, nossa, dos cidadãos desprotegidos perante o tumulto comunicacional e a perda de identidades que a pós-moderna cosmologia impõe. A vertigem do efémero era o ódio de Eco, como se pode compreendê-lo. Eco, como, entre nós, Eduardo Lourenço ou João Martins Pereira, ou Augusto Abelaira, ou Urbano Tavares Rodrigues, era o Montaigne de um tempo novo que ainda brande a modernidade contra o culto do flash, da cosmética e do pronto-a-vestir que dá conforto às transumâncias ideológicas.

Por isso mesmo, a biblioteca era a sua vida. Mas não qualquer biblioteca. Sem labirintos, como a do Nome da Rosa, embora talvez com esconderijos, porque os há sempre, uma biblioteca pessoal não deve ter mais de trinta mil livros, dizia Eco para si mesmo. É muito livro, não sei se ele os pensava poder ler todos, mais os que lá não estão e passam por nós. Na verdade, ler esses livros não é a medida de um bibliotecário, é simplesmente viver com eles, com o gosto da novidade, com o espírito do coleccionador, com o fascínio das ideias escondidas: quando lemos um bom livro nunca terminamos de o ler.

À sua maneira, José Duarte é também um bibliotecário de sons, um coleccionador de jazz, e que tem também um limite, embora o desafie sempre e já lá vão cinquenta anos, e com que graça e enlevo ele cuida dos seus sons, ninguém saberá contar o que lhe devemos. Começou ainda Salazar era vivo e lutava-se nas colónias, o Vietname era uma certeza para Washington e ninguém tinha ouvido falar de Pinochet, a Checoslováquia ainda não tinha sido ocupada. Continuou pelos anos fora, como se o som dele fosse o eco bom do que se ia passando no mundo. E não era? Quando ouvimos uma boa música nunca terminamos de a ouvir.

Os “5 minutos” foram de tudo e disseram quase tudo.  Mas não se pode ouvir tudo, mesmo que os arranjos que o “5 minutos de jazz” vai pondo no ar sejam como esses livros que adoramos, que tocamos e que lemos porque sabem mais do que nós. São eles que estão à nossa espera e que nos levam pela mão.

A biblioteca e o jazz são duas das respirações da vida. A vida é bela.

Comentários

  1. Mais um texto excepcional do autor Esperemos que a profecia do presidente Marcelo se realize sem falhas no que diz referência à magistral e imparável intervenção politica e teórica de F. Louçã. A propos, alguêm se recorda de um texto de E.Prado Coelho nos anos 80 no Semanário onde ele avaliava muito negativamente os primeiros acordes da carreira de cronista e comentador politico de J. Pacheco Pereira? E depois … foi o que se viu de classe, autonomia e independência na prática tribunicia de Imprensa do intelectual do PSD.Como sublinhou muito fortemente T.Adorno na sua magistral Teoria Estéctica, ” se nos dias de hoje já não existe coerência, era porque, outrora, a coerência era uma falsa coerência “, e nesse lance onde se joga todo o paradoxo da complexa simplicidade: ” O verdadeiro herói é sempre um herói por falta, o seu sonho era ter sido um homem vulgar como todos os outros( U.Eco, 1982, in ” A guerra do falso “)

  2. Há uma terceira respiração da vida, entre tantas outras, a que Leonor Teles deu um nome muito engraçado, gracioso, que passou fronteiras e venceu: “partir sapos”.

    Termino com Groucho Marx: “I’m not crazy about reality, but it’s still the only place to get a decent meal.”

  3. Ainda bem que o Eduardo Lourenço e o José Duarte, entre outros ,nos continuam a acompanhar e que , por perto,nas prateleiras das minhas estantes, estão algumas das obras admiráveis de Umberto Eco, entre muitas outras ,que não deixam de me fascinar.

  4. Em 14/09/2015, publicou António Guerreiro neste mesmo jornal um magnífico e hilariante artigo – O defeito Eco – que muito teria aproveitado a Francisco Louçã, se este fosse capaz de o ler. Nessa improvável circunstância, o efeito desejável teria sido, obviamente, o de curar Francisco Louçã da infeliz e delirante ideia de escrever este. Ter-nos-ia poupado ao confrangedor tropeção. Menos é mais. Menos é mais. Etc.

    1. Ainda bem que há gente que tanto gosta do lápis azul. Faz sentir melhor quem gosta da democracia.

  5. Haverá com certeza bibliotecas pessoais com 30 000 livros no entanto duvido (ao contrário do que foi noticiado no público) que o Umberto Eco ou seja lá quem for consiga mentalmente se orientar na dita sem recurso a ficheiros. Eu não tenho mil e já me perco. Outra coisa importante é que 30 000 livros ocupam as paredes de um T5 com os corredores incluídos tornando a habitação do leitor substancialmente mais cara. O meu sogro, deve ter 10 000 talvez nem chegue e já têm de alugar uma casa para os pôr, também não me parece que saiba exactamente o que tem, até porque já encontrei livros repetidos com 20 anos a separar as edições, significando que não sabia que já tinha livros que voltou a comprar.

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