Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

17 de Fevereiro de 2016, 14:31

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Passos sabe bem o que quer. Só não pode dizer como

Em tempos de crise, vai-se tornando comum que a política se transforme em jogo. Passos Coelho manifestou a sua surpresa e indignação pela venda de parte do consórcio comprador da TAP aos chineses da Hainan Airlines e culpou o governo pela ocultação do negócio, como aqui comentei. Acontece que o mundo informativo é vertiginoso e não tardaram dois dias até se saber que Passos Coelho conhecia o interesse e o caso quando assinou a venda da TAP nas últimas horas do seu governo – e, já agora, isso revela que sabia que os compradores não tinham dinheiro para a TAP e eram testas-de-ferro de outros interesses. Mesmo assim, fica a dúvida: porque é que o presidente do PSD não resistiu à tentação de uma declaração que seria desmentida em poucos dias? Pensará ele que tudo se dissolve na voracidade informativa e que tudo se esquece na vida política, e que portanto as suas declarações são inimputáveis? Ou que, nesta inimputabilidade, se apresenta como candidato a primeiro-ministro? Tudo improvável, tudo realidade.

A minha explicação, em todo o caso, é ainda outra: Passos sabe o que quer e só não pode dizer como. Ou porque envergonha ou porque é demasiado.

O mesmo se verifica quanto ao Orçamento de Estado. Passos Coelho, e aliás também o CDS, mostraram a sua indignação compungida pelo aumento de impostos sobre os combustíveis. Pobre “classe média”, de novo sacrificada! Pobre economia, de novo arrastada para os abismos da recessão pela esfomeada vertigem do monstro do Estado! É um enorme aumento de impostos, dizem à uma o PSD e CDS, e nós somos os partidos dos contribuintes, que ninguém se esqueça.

No entanto, ao atentarmos no argumento, o assunto torna-se mais penumbroso.

Em primeiro lugar, porque PSD e CDS conduziram um “colossal aumento de impostos” que, nos anos da sua saudosa governação, se alçou a 6126 milhões de euros, sendo que só o aumento do IRS foi de 3007 milhões. Em 2013, estas medidas implicaram uma sobretaxa de 4% no IRS e a redução de escalões com aumento de impostos, chegando-se ao tal “colossal aumento de impostos” de mais de 2,8 mil milhões só nesse ano. Nunca se tinha ido tão longe.

Em segundo lugar, porque os dois partidos de direita parecem pedir mais e não menos impostos. Pois PSD e CDS alegam que Portugal não está a cumprir satisfatoriamente as regras de redução do défice estrutural e portanto devia fazer mais nesse sentido. Que esse tal de défice estrutural é um bicho estranho, já aqui argumentei neste blog, como depois o fizeram em público personalidades tão diferentes como Bagão Félix e Manuela Ferreira Leite, ou, de modo mais técnico e detalhado, Mariana Mortágua. Mas o facto é que PSD e CDS, à uma, querem mais abatimento do défice “estrutural” e, como não se fazem omeletas sem partir ovos, já se adivinha por onde vão.

E todo o caso, repare-se na contradição: os partidos indignados com o imposto sobre os carros da classe média, esses partidos que querem menos tributação, querem ao mesmo tempo mais redução de défice, ou seja, mais tributação ou menos salários e pensões (coitada da classe média, que já sabe onde isso vai dar).

Façamos então, caros leitores, o exercício que Passos Coelho quer evitar: vamos calcular o que seria o Orçamento para 2016 do PSD e do CDS, ou o que ele sabe mas não pode dizer. Não preciso para tanto de me atrever a adivinhações, nem a maniqueísmos, nem a controvérsias: basta usar os números fornecidos pelo PSD e CDS a Bruxelas em meados de 2015 com o seu plano orçamental para 2015-2019 e citar friamente os seus cálculos oficiais.

Comparado com o Orçamento de António Costa esse plano apresentado em Bruxelas, e bem recebido aliás, previa passar os impostos de 45638 milhões para 47759, ou seja, um aumento de 2131 milhões de euros, enquanto o governo actual propõe um aumento de 1334 milhões, com forte incidência nos combustíveis. A diferença são 797 milhões, que Passos Coelho e o CDS cobrariam a mais (e só estou a tratar de impostos para já), em prol do tal do défice estrutural. Um aumento de impostos, não vos parece?

Se formos ao detalhe, fica tudo claro: o plano entregue pelo PSD e CDS a Bruxelas, comparado com o Orçamento Costa, carrega mais 740 milhões no IVA, mais 573 milhões em impostos sobre património, mais 417 milhões em IRS e ainda mais 102 milhões em IRC, só cobrando menos 330 milhões em combustíveis e outros. Minha cara classe média, como te sentes perante esta alternativa?

Passemos então dos impostos para outras matérias.

O que o Orçamento PSD e CDS não faria, como se sabe, era aliviar do mesmo modo os salários da função pública (pouparia 225 milhões nisso) ou as pensões que tinham sido congeladas (menos 63 milhões), portanto ainda manteria cerca de 300 milhões em prol do défice estrutural e outras engenhocas. Somados aos 797 milhões de impostos a mais do que Costa, já se chega aos cerca de 1100 milhões, pobre classe média.

Não basta ainda. Passos Coelho prometeu mais. A Bruxelas garantiu que, além do congelamento das pensões (retirando-lhes 1660 milhões em quatro anos), ainda reduziria o custo da segurança social em mais 2400 milhões no mesmo período (600 por ano), ou seja, reduziria as pensões. E assim se somam cerca de 1700 milhões (797 de impostos, mais 288 de salários de função publica, mais 663 de congelamento e cortes em pensões). Ainda seria preciso mais para cumprir o plano de Passos e do CDS em Bruxelas mas fiquemo-nos por aqui.

Reconheceu, caro leitor ou leitora, o padrão? Tudo com os números do próprio PSD e CDS, aqui tem a factura: são aumentos de impostos e corte de pensões, afinal a única receita conhecida para a austeridade de sempre.

Acho que já sabe porque é que Passos Coelho quer tudo e o seu contrário (critica os aumentos de impostos quando prometeu maiores aumentos de impostos) e sobretudo não pode dizer o que faria, mesmo que tenha na pasta os números que prometeu a Bruxelas.

Comentários

  1. Passos Coelho, como é típico e próprio de um líder do maior partido da oposição, que, recorde-se, ganhou as eleições legislativas, faz campanha para chegar a primeiro ministro, com todos os instrumentos políticos típicos. O que não é normal é um primeiro ministro pro forma ter uma máquina tributária ao seu serviço para pagar a campanha eleitoral que está a fazer para tentar chegar a primeiro ministro. Não obstante as generosidades orçamentais, as sondagens continuam a devolver-lhe um único cenário: ministro? só se for pró forma. Entretanto, Portugal segue desgovernado.

  2. Excelente desmistificação de mais um mito que o PSD-CDS querem incutir na sociedade. Há limites para a demagogia e baixa política.

    Parabéns.

  3. Apesar de tudo, continua a ser o grande obstaculo. Em eleições é obvio que não dá hipoteses. E nem precisa de comprar votos.
    É por isso o alvo a abater.
    Se conseguir manter-se calado, o poder será seu, para bem de Portugal.

  4. Discordo. Passos não sabe o que quer, aliás não sabe nada. Sabe apenas ser a voz do dono (leia-se Schuble). As constantes contradições são a prova disso; nem diz o que sabe, nem sabe o que diz. Tem é a cobertura de uma certa imprensa, que sem o seu apoio, ele Coelho, nem sairia da toca. Mas este povinho, está amestrado feito animal de circo; assustado em tentar sobreviver e Coelho e Portas, honra lhes seja feita, conseguiram fazer acreditar que os culpados de TUDO, foram os PIEGAS IGNORANTES. A CASTA PULHITICA vai SUGANDO tudo, ILIBAM-SE DE TUDO, SÃO INIMPUTÁVEIS, AUMENTAM AS SUAS REGALIAS. Ver Coelho a pedir DECORO é ridículo. Ele tem razão; o POVO POE-SE A JEITO e depois da primeira vez, as outras já não doem…Ele sabe o que quer e quem lhe dá ordens também; é tudo uma questão de preço…

  5. Isso é o que o centrão tem feito ao longo dos últimos 40 anos, a questão é se o PCP e o BE, que são tão contrários a isso, vão agora aprovar essas medidas (sem falar que, estes dois últimos, nunca os ouço defender os desempregados, falam só nos trabalhadores e reformados, os outros não contam).

    1. Na verdade, para a extrema-esquerda, alguns trabalhadores até são mais iguais do que os outros. Estão sobretudo interessados em defender a clientela da CGTP. Entre estes, sobretudo os funcionários públicos. Entre estes, sobretudo os mais bem pagos, como os professores universitários, classe a que Louçã pertence. E, claro, também os funcionários das empresas de transportes públicos de Lisboa e do Porto, com o objetivo óbvio de o Comité Central poder paralisar o país sempre que lhe der na real gana.

    2. Justamente! Onde estão as políticas para auxiliar os desempregados fantasma? Os tais que não constam da estatística martelada de desemprego. E aqueles que trabalham à jorna? e os tarafeiros? E os desempregados de longa duração eufemisticamente chamados de inactivos? Para quando uma decisão que reformule completamente os conceitos estatísticos de modo a que estes reflictam a realidade miserável portuguesa? O que se vê é um “socialismo” à la bourgeois.

  6. “Pensará ele que tudo se dissolve na voracidade informativa e que tudo se esquece na vida política, e que portanto as suas declarações são inimputáveis?” Ai pode crer que é verdade, se não pensa assim é inocente. “Uma estação que tem 50% de share vende tudo, até o Presidente da República! Vende aos bocados: um bocado de Presidente da República para aqui, outro bocado para acoli, outro bocado para acolá, vende tudo! Vende sabonetes!” – Emídio Rangel

  7. Os Passianos acreditam no paradigma da “social-democracia” construída à base de destruição do tecido social (classe média em particular), redução dos salários reais, privatização dos serviços do Estado e outros sectores estratégicos, tudo em prol do único desígnio nacional: o pagamento da dívida. O orçamento só é tema de conversa porque não é o “deles”. Os aumentos de impostos (que sempre existiram nos combustíveis e no tabaco) só comprometem a economia, porque não são os “deles”. Já se sabe que os impostos são, para os neoliberais, castradores da iniciativa privada. Talvez por isso tenham compensado com subvenções o ensino privado, ou beneficiado os compradores das empresas do sector do Estado com rendas generosas. A imbecilidade (não há outro adjectivo) dos argumentos, e as contradições são tantas, que já não há paciência. A única maneira de preservar a higiene mental é fazer um esforço para ignorar a propaganda dos títeres produzidos ali para os lados da Santana à Lapa.

    1. Convenhamos que a solução para contrariar a vontade e o poder da iniciativa privada é a nacionalização, o comunismo, portanto, mas parece que isso está em desuso, como comprovam os países socialistas/comunistas.

    2. Não, não é. Já ouviu falar de Keynes? Uma pista: não tem nada a ver com colectivizarão dos meios de produção.

    3. PSG, convido-o vivamente a ler “Contending Economic Theories” (MIT Press, 2012) do “dynamic duo” do Marxismo norte-americano contemporâneo, Richard Wolff e Stephen Resnick — é um manual de teoria económica sóbrio e actual, muito pedagógico e bem argumentado, único no seu género. Penso que saberá retirar dele o que argumentar — “Não, não é” e snobismo, convirá, não é argumento. Caso o deseje e ofereça argumentos, discutirei consigo, com todo o gosto.

      A todos os que nos cruzem aqui, fica também a referência a um ensaio recente, que espero de leitura inspiradora, também de Richard Wolff: “Democracy at the Workplace” (“Democracy no Local de Trabalho”, seria o seu título em português — e porque não? Afinal, é aí que passamos uma boa parte das nossas vidas). E é só um exemplo entre uma miríade de autores contemporâneos de grande qualidade e alternativas políticas/sociais a descobrir — e sim, autores e alternativas de grande qualidade também existem em Portugal, e não haverá quem procure que não encontre.

    4. Correcção: o título do livro de Wolff referido acima não é “Democracy at the Workplace” mas “Democracy at Work”.

    5. Caro António. Terei o maior gosto em trocar impressões consigo sobre esta, ou outras matérias. Refuto, no entanto, a rotulagem : há muito que professo as teorias de John Maynard, e se fiz referência ao douto, não foi por acaso. Com mais tempo – e paciência – poderia discorrer sobre o pensamento keynessiano, mas Francisco Louçã está muitíssimo mais habilitado para o fazer do que eu. Cumprimentos e até breve.

  8. Ainda bem que continuam a existir comentadores que nos vêm lembrando das vigarices a que se propõem,continuando a mentir desde que se propôs a 1º ministro,para,mais uma vez,enganar os papalvos para voltar a pôr a mão no pote,inclusivamente,declarando-se social-democrata.

    1. 40 anos não chegam para perceber a estratégia dos políticos na conquista (assalto) ao poder? Isto não mudará nunca e só se alterará com revoluções, para depois retornar ao status quo. O povéu está como diz o Guerra Junqueiro “Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; Um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai…”… e com o mundo virtual de hoje (válvula de escape) as coisas serão piores.

  9. Mas o a actriz Catarina, vai votar favoravelmente a reposição de salários para os funcionários públicos que ganham mais de 4.000 euros por mês, ou não?
    Delirante mesmo, a carga de trabalhos a que o Bloco se presta para justificar que estão a defender os rendimentos da classe média alta em detrimento dos desgraçadinhos dos pobrezinhos que a esquerda caviar diz defender.
    Nós não necessitamos de um partido neo-liberal em Portugal, para isso temos o Bloco.

    1. Miguel, bem-vindo a este espaço. Agora que tiveste oportunidade de ler mais um excelente e esclarecedor artigo do Prof. Louçã, que, entre outras coisas, deixa claro(para mim sempre foi) o intrujão que PPC sempre foi, é e sempre será, pergunto-te se tens alguma coisa a objectar?

      E pergunto com todo o interesse, porque gostava de debater contigo como pessoas civilizadas que somos, ou só eu é que me enquadro nesta definição?

      PS: O Passos diz que espera chegar a casa e que tenhas o tacho feito;)

      Cumprimentos.

    2. O Miguel quer esclarecer-nos e dizer que mais leis é que quer que o governo viole? Já que está a escolher-las…

  10. Politicos incompetentes, corruptos, salafrarios e ate assassinos

    ESTA E A CLASSE QUE TEM DESTRUIDO O PAIS

    PORQUE NAO ESTAO PRESOS???? JA FALTOU MAIS

    OS PARTIDOS FORAM ASSALTADOS POR CRIANÇAS CORRUPTAS A ROUBAREM AS DESCARADAS

    OS SERVIÇOS PUBLICOS SAO EMPRESAS FAMILIARES, ONDE VEMOS OS AVOS, FILHOS E NETOS DESTA GENTALHA

    POR MIM ERAM ENFORCADOS EM PRAÇA PUBLICA ESTES E QUEM OS APOIA E ESCONDE TODA A ALDRABICE QUE NOS ENFIAM

    Filipe – Farto de tanto ladrão a solta

    1. Em quem votaste? Eu não voto em ladrões e se todos fizessem como eu, os ladrões já estavam fora de actividade.

  11. Preocupa-me que, em Portugal, se possa debitar tanta mentira e não ser apupado de aldrabão em qualquer queijaria que determinado indivíduo entrasse. Podia-se alegar que é apenas desprezo, mas quando determinado indivíduo continua com quase 40% das intenções de voto…

    1. Nada como uma “democracia popular e socialista” para que o povo aprenda a votar nos seus “verdadeiros representantes”.

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