Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

12 de Fevereiro de 2016, 10:14

Por

Quanto custa a um economista não perceber a crise

shortO filme “The Big Short”, em português “A Queda da Wall Street”, de Adam Mckay (2015), conta a história de vários homens que adivinharam o fim da bolha financeira do início do século e apostaram sobre a sua derrocada, tendo lucrado quando todos os outros faziam contas às perdas. Alguns desses personagens dirigiam fundos financeiros de maior ou menor dimensão, outros estavam a entrar no negócio – e todos se referem a casos reais. Eles anteciparam o que ninguém nem via nem pressentia, porque o efeito de manada arrastava todos os agentes financeiros numa vertigem de optimismo e de confiança que parecia imparável. Todos se imitavam e todos transbordavam de entusiasmo, excepto os cépticos ou pessimistas que descobriram a fraude que estava em marcha.

Os economistas devem portanto ser mais modestos do que foram até essa crise, evitando as certezas que frequentemente exibem e sobretudo a confiança nos mercados, que os deixam ficar sempre muito mal. Muitos dos mais engenhosos, dos melhores matemáticos, e certamente os entusiastas dos mercados financeiros, todos apostaram num crescimento imparável das valorizações bolsistas e dos preços dos activos financeiros. Nenhum problema, nenhum iceberg em nenhum Titanic poderia interromper esta senda gloriosa. Enganaram-se redondamente e arriscam-se a voltar a cair no mesmo erro nos dias que correm.

Lembro-lhes por isso um exemplo passado, o do economista norte-americano Irving Fisher (1867-1947). Fisher estudou economia matemática na Alemanha, voltou aos Estados Unidos e foi o primeiro e principal impulsionador da economia neoclássica no seu país. A sua doutrina económica viria a tornar-se dominante na academia e foi o primeiro presidente da Sociedade Econométrica, o núcleo de investigação que se tornou o padrão de excelência para a sua disciplina. Foi um homem de vida cheia, era conceituado e foi estudado.

Uma das suas virtudes era a imensa curiosidade técnica e a perspicácia inovadora: inventou uma cadeira articulada e, mais importante, um sistema de ficheiro com cartões indexados, que foi vendido por mais de meio milhão de dólares a uma empresa que viria a ser a Remington Rand. Economista famoso, professor admirado, empresário e inventor afortunado, herdeiro rico, Fisher não podia pedir mais às suas aventuras.

Mas foi mesmo como economista que perdeu a sua auréola. Prevendo nas vésperas do crash bolsista de 1929 que a Bolsa e os mercados financeiros caminhariam para um equilíbrio pacato, Fisher foi investindo a sua herança e os seus proveitos em acções, convidando os seus colegas a fazerem-no e, ao chegar ao dia do colapso, perdeu tudo. Dez milhões, parece ter sido o volume das suas perdes com a crise de 1929. A sua irmã, que nada percebia de finanças(mas tinha biblioteca), geriu melhor a sua parte da herança e foi ela quem teve que acudir ao famoso economista que se tinha enganado acerca da economia e desbaratado o seu pecúlio.

A Universidade de Yale, onde trabalhava, também veio em seu auxífisherlio e comprou a sua casa, para evitar que fosse expulso por falta de pagamento. Fisher continuou a não pagar a renda aos novos senhorios e propôs depois a anulação da dívida, o que foi aceite (a curiosidade é que os economistas que são discípulos de Fisher ou ignoram ou recusam este artifício negocial que salvou o seu inspirador). Ficou, no fim da vida, como uma curiosidade de um passado glorioso e de um erro colossal.

Fisher não compreendeu que os mercados financeiros são pelo menos como o relógio parado: haverá sempre uma hora certa para a crise e terá que se passar por ela. Estamos agora mais próximos dessa hora e os economistas deslumbrados com a engenharia financeira podiam perceber que lhes vai bater à porta; é portanto melhor irem vendendo as acções e desconfiarem um pouco mais dos mercados sacrossantos para não caírem nas aflições de Fisher.

Comentários

    1. Em resposta a lj, abaixo e passo a citar: “o problema são os que ficam esmagados nos andares de baixo…”

      PS: Obrigado, Francisco Louçã.

  1. A historia de Irving Fisher aqui contada é um encanto pelo que revela da fascinante personalidade do homem que, como muitos outros génios – economistas em particular – têm feito amplamente jus ao ditado que “em casa de ferreiro, espeto de pau”. Fisher, como é sabido, nao foi o unico grande economista a nao prever o crash de 1929 – os crashes bolsistas, ao que parece, nao sao faceis de prever, por isso é que acontecem. O eminente JM Keynes tambem perdeu a fortuna em 1929, e de novo outras vezes depois disso. Fisher e Keynes tiveram a má sorte de viverem a idade adulta nos anos 1920-40. Mas mais recentemente, no fim dos anos noventa, fez furor o caso do colapso da casa de investimento americana, Long Term Capital Management, cuja estrategia de investimento do seu fundo estrela, desenhada pelos premios Nobel M. Scholes e R. Merton, nao resistiu à crise financeira asiatica e da divida russa de 1997-98. Quanto ao conselho de que está na hora de começar a vender as açoes porque um novo crash pode estar à porta, é caso para pensar que, havendo tantos economistas a prever o pior, talvez nao venha a haver crash nenhum, e que talvez valha a pena especular com a continuaçao da volatilidade que tem imperado nos mercados de há um ano a esta parte ! Afinal de contas o petroleo continua barato, o dinheiro no banco nao rende nada, e ha riscos acrescidos de, um dia destes, os bancos começarem a cobrar-nos dinheiro pelos depositos – cortesia da politica agora na moda dos bancos centrais de aplicarem taxas de juro negativas às reservas dos bancos lá depositadas. Prever o futuro nao é facil … mas ha que estar precavido, é certo.

    1. P.S.: Do melhor que há sobre o tema é o livro “A Fool and his Money – the Odyssey of an Average Investor” de John Rothchild, mas o moderno classico do genero, “The Black Swan” de Nassim Taleb, tb é de nao perder.

  2. Vi o filme.
    Existem alguns pontos interessantes de discussão:

    (1) O mercado de acções da NYSE é eficiente, ou seja, toda a informação disponível está reflectida nos preços dos títulos?
    A realidade mostrou que não. Falava-se em surdina na Wall Street nos empréstimos hipotecários incumpridos.Tal questão não estava integrada na informação disponível;

    (2)A personagem de Christian Bale é reveladora: aparentemente, não utiliza ferramentas econométricas ou de análise de mercado. Fixa-se, antes, em alguns títulos, que elegeu como “guias”, ou seja, títulos cuja evolução tem forte correlação com o mercado(a chamada carteira de mercado). E verifica que é reveladora a perda nominal dos títulos. Soam na sua cabeça as campainhas de alarme;

    (3)É interessante que a irmã do economista Irving Fisher não tenha saído prejudicada dos efeitos de crash de 1929. E o próprio Fisher perdeu a sua fortuna. Ele que possivelmente, de acordo com a Teoria Financeira, expurgou da sua Carteira de Títulos o risco de mercado, procedendo à diversificação dos activos por diferentes valores e sectores de actividade. Entre nós, o professor César das Neves, economista e figura conhecida dos media, confessou, em certa ocasião, que, relativamente aos seus investimentos de poupança familiar, quem se ocupa do assunto é a sua esposa…;

    (4)A Economia é uma ciência social, com forte conflitualidade teórica interna: O modelo de Keynes e a Teoria Clássica(representante: Robert Skidelsky); Os Keynesianos e a reinterpretação de Keynes( James Tobin); A Escola Ortodoxa Monetarista(Milton Friedman); A Escola do Ciclo de Negócios(Robert Barro); Os Novos Keynesianos(Garrison), conforme “A Modern Guide To Macroeconomics”, Ed.E.Elgar, Uk, 1995. Várias correntes de opinião para explicar a economia.

  3. O Sr Louça manda vender! Vendam tudo!
    E se de repente começar tudo a subir com base em estimulos dos bancos centrais?
    O que o Dr Louça vai dizer? háaaa afinal enganei-me…LOL tb pode subir, mesmo que manipulado…
    A acontecer o DR LOUÇA vai ressarcir os prejudicados por causa dos seus comentarios?

    1. Mais estimulo do que o BCE tem vindo a injectar? Cerca de 60 bilioes por dia? Qual foi o resultado? Uma incrivel especulacao financeira. Se o mesmo estimulo tivesse sido injectado na economa real, a situacao seria outra.

  4. Gosto de ouvir os seus comentarios o Senhor esta ao nivel dos comentadores europeus principalemento dos franceses que gosto de escutar . o resto dos politicos, comentadores, e jornalistas da bola valem ZERO.

  5. O dr.schauble manda(e manda muito,claro,já toda a gente percebeu) os “mercados” ficarem “assustados”,estes por sua vez implicam com Portugal(é tão facil bater no parente pobre),ameaçam mesmo o actual governo deste país,a direita da “social democracia,sempre” rejubila e aplaude Bruxelas,maribando-se completamente para o famoso “indigena” portugues,ou seja,o contribuinte ,e abrindo portas para negocios em saldos(bancos,tap,aguas publicas,quintas,terrenos para construção junto ao mar,enfim,uma festa,uma grande festa á portuguesa)

    1. E os bancos passaram todos os “stress tests” feito pelo BCE, imagine se não passassem… O mundo gira em torno da mentira e especulação.

  6. Um texto interessante. Mas esperava que Francisco Louçã tivesse ido mais longe. Concretamente nos efeitos que o inevitável crash bolsista que se avizinha terá na nossa economia e na nossa dívida pública. Mais, se perante o “Inverno” que se avizinha, o atual governo não deveria antes a adoptar uma política prudente, de “formiga”, ao invés de uma política redistributiva, de “cigarra”.

    1. A formiga trabalhava incansavelmente no verão quando no meio dos seus afazeres encontrou uma cigarra que cantava o dia todo e aproveitava o que de gratuito a natureza lhe dava. A formiga avisou a cigarra que se não amealha-se teria dificuldades no inverno. A cigarra ouviu e prontamente ignorou a formiga cantando ainda com mais força.
      No ano seguinte a formiga volta a encontrar a cigarra e perguntou: como foi o teu inverno? A cigarra respondeu: mais ou menos… Andei aí a tocar na rua e nuns bares lá me safei e até conheci uma gente simpática, ficámos amigos e prontamente voltou a cantar.
      No terceiro verão ao voltarem-se a encontrar a cigarra perguntou: e este inverno como foi? A cigarra respondeu, foi porreiro pá, com a malta que conheci no ano passado formamos uma banda, até ta a ter sucesso a ver vamos… Por agora canto porque o tempo está bom… chegaram mesmo a trocar moradas para se corresponderem.
      No quarto ano a formiga não encontra a cigarra. Angustiada com a possibilidade de a cigarra ter morrido à fome, e apesar dos seu afazeres, lá arranjou tempo para lhe mandar um postal para ver se estava tudo bem. A cigarra respondeu que estava com pena mas nesse ano não se iriam encontrar porque a banda que formou gravou um disco que tinha tido um grande sucesso e estava agora nas Caraíbas a passar férias e a cantar mas só quando lhe apetecia. A formiga respondeu nos seguintes termos: olha cigarra, se nas Caraíbas encontrares o sr. La fontaine manda-o para a puta que o pariu!

    2. «Ninguém pode servir a dois senhores; pois ou há de aborrecer a um e amar ao outro, ou há de unir-se a um e desprezar ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas. Por isso vos digo: Não andeis cuidadosos da vossa vida pelo que haveis de comer ou beber, nem do vosso corpo pelo que haveis de vestir; não é a vida mais que o alimento, e o corpo mais que o vestido? Olhai para as aves do céu, que não semeiam, nem ceifam, nem ajuntam em celeiros, e vosso Pai celestial as alimenta; não valeis vós muito mais do que elas? Qual de vós, por mais ansioso que esteja, pode acrescentar um cúbito à sua estatura? Por que andais ansiosos pelo que haveis de vestir? Considerai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham nem fiam, contudo vos digo que nem Salomão em toda a sua glória se vestiu como um deles. Se Deus, pois, assim veste a erva do campo, que hoje existe, e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós, homens de pouca fé? Assim não andeis ansiosos, dizendo: Que havemos de comer? ou: Que havemos de beber? ou: Com que nos havemos de vestir? (Pois os gentios é que procuram todas estas coisas); porque vosso Pai celestial sabe que precisais de todas elas. Mas buscai primeiramente o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.» (Mateus 6:24-33)

    3. Essa parábola da Leonor é a maior treta: filmei um casal de passarinhos desde a feitura do ninho, postura dos ovos, nascimento dos filhotes, todo processo de alimentação e limpeza do ninho, até os filhotes terem crescido e ido a sua vida. E posso dizer que trabalham tanto quanto qualquer casal humano, tem os mesmos problemas se um dos progenitores morrer, etc, etc. Isso parece a lenga-lenga aqui do Louçã.

  7. Os mercados financeiros movimentam-se entre a ganância e o pânico. Correm com violência para a ganância sem limites e atiram-se do arranha-céus com desespero suicida e sem ponta de racionalidade. Manobram e manipulam tudo o que os deixarem manobrar e manipular. Condicionam a política o mais que podem quando os deixam. Portam-se como crianças mimadas, querem tudo e querem já. Em princípio quanto maior é a concentração da riqueza maior é o poder dos “mercados”. Quanto maior a redistribuição, o equilíbrio de rendimentos, menor é o seu poder. É um poder obscuro e antidemocrático por natureza. E, pior que tudo, é um poder hoje aceite socialmente, como podemos constatar nas reações observadas às oscilações da nossa dívida. Felizmente ainda há “do lado de lá” cabeças frias como a da Manuela Ferreira Leite, que sabe interpretar as pressões que se exercem sobre o nosso poder político usando “os mercados” como ferramenta. As previsões de economistas não podem nem devem ter que ver com o comportamento dos mercados. Estas previsões cabem a analistas especializados nos fatores que condicionam o comportamento de cada mercado em si, fatores endógenos e exógenos. Para quem coloca poupanças nos “mercados” os princípios mais importantes são diversificação, liquidez e limitação de perdas. Podem cavalgar-se facilmente bolhas especulativas mas é impossível prever inversões, o momento de “sair” depende da bolsa e da consciência de cada um. No que diz respeito estritamente ao “momento de sair” os mercados e a bolsa funcionam exatamente como o casino. É ler-se “O jogador” de Dostoievski.

    1. Você disse: Manobram e manipulam tudo o que os deixarem manobrar e manipular.
      O problema está aí mesmo, não há regras, não há travão, os dirigentes políticos não batem do punho sobre a mesa… E eles, estão onde estão, porque votamos neles. Queria eu ver um crack monumental para que o planeta abolisse o dinheiro de vez. Já há tentativas de funcionamento em muitos pontos do mundo… vai levar tempo, mas pode ser que lá chegámos. Tal como funcianamos é um horror para muios humanos deste planeta. Relisez “L’Horreur Economique” de Vivianne Forrestier

  8. É um post avisado. Alguém que o envie ao economista Mário Centeno para que não aposte tanto no cenário macroeconómico ultra mega optimista. Agora, tal como então, na grande depressão, os avisados, também reputados de cépticos e pessimistas, estão a ser apenas prudentes e não anti patriotas que agoiram o pior. Está à vista, bem à vista, é impossível não ver o ponteiro parado. A desgraça não será apenas a fortuna dos apostadores do OE que irá pelos ares, muito português cairá na miséria e muitos outros de lá não sairão para morrer nela. A ser assim, sou a favor da eutanásia. Não quero viver a velhice no Portugal que se avizinha. Miserável, velho, isolado.

  9. Com uma luz depurada, elíptica na forma e pungente no golpe, procurando falar de nós e por nós — e agora, que o próximo andar parece não estar longe — esta curta-metragem de Denis Villeneuve. Todos reconhecerão certamente a casa em que tudo se passa e todos os seus personagens: https://vimeo.com/75251217

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