Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

2 de Fevereiro de 2016, 08:56

Por

O Parto Orçamental

O Primeiro-ministro voltou, mais rapidamente do que se previa, à quadratura do círculo. Era fatal. Estava escrito no caminho das pedras, travestidas de preciosas. O ministro das Finanças tem procurado jogar xadrez com a Comissão Europeia. Usando sobretudo os cavalos para saltar por cima das folhas de cálculo e a rainha e torres emprestadas pela extasiada direcção do Bloco de Esquerda para “não ceder” ao jugo dos grandes da Europa, ponto final.

Não, ninguém sabia que há um tratado (Orçamental) que, goste-se ou não, é para levar a sério, até porque o partido do Governo o abençoou na votação parlamentar. Coisa de somenos que, certamente por descuidado acaso, divide oficialmente o PS do PCP e Bloco.

Tratado Orçamental que agora querem confundir com mau humor de uns residentes bruxelenses, como se tudo resumisse a estados de alma. Amuos técnicos, mas não políticos, acrescenta, sem corar, o nosso PM.

Eu também não gosto do visto prévio orçamental das autoridades europeias.  Compreendo a  necessidade de uma maior coordenação e vigilância multilateral das políticas económicas e orçamentais. Mas daí a tutelar, sem disfarces, os orçamentos nacionais vai uma grande, perigosa e não democrática distância. O certo é que esse pedaço de soberania voou numa manhã de nevoeiro parlamentar e quase toda a gente assobiou para o lado. Restam-nos, agora, os veementes protestos das hodiernas “padeiras de Aljubarrota”.

E também me sinto ofendido quando vejo os países mais poderosos borrifarem-se para os compromissos orçamentais e da dívida com a total complacência das mesmas autoridades que se mostram sempre mais inflexíveis com os “países da segunda divisão”.

Neste contexto, o esboço orçamental – já antes o escrevi – tinha tudo para não ser aceite, segundo as regras vigentes. Pouco inteligente do ponto de vista de táctica negocial, limitado nos objectivos de consolidação orçamental, mal feito e com erros grosseiros, manipulando as estimativas económicas para bater certo com as medidas de reversão decididas em velocidade acelerada (e antes do OE!), exageradamente ingénuo perante os credores e outros sinalizadores dos mercados financeiros, chumbado por entidades técnicas que têm dado inúmeras provas de independência face ao poder (Conselho de Finanças Públicas e a Unidade Técnica de Apoio Orçamental, UTAO).

O anterior Governo impôs depressa e à bruta a austeridade, sem doseamento terapêutico. O actual Governo cai no mesmo erro de aparente sinal contrário: desfez num ápice a austeridade, sem gradualismo, não se dando conta que quando a esmola é grande e apressada, o pobre desconfia e os credores se acautelam.

Já antevejo o fim desta saga: António Costa vencedor, ele que é considerado um ás mundial em transformar derrotas em vitórias. Mário Centeno sorridente e bonacheirão a dizer que sim, mas talvez. Catarina Martins a exultar porque, se não fosse ela, teria sido um desastre. PCP a exigir factura simplificada por via sindical. Tudo embrulhado como coisa menor: umas decimazinhas nuns “mapas de políticas invariantes” e no compulsivo Excel e – credo! – mais uns tantos “esforços fiscais temporários e socialmente justos” melhor ou pior dissimulados e ao virar da esquina. Tudo acompanhado pela habitual coreografia partidária, em passa-culpas de A para B e de B para A.

 

 

Comentários

  1. Admirável país que em Fevereiro anda a tentar enganar os outros sobre o orçamento de Estado que deveria ter em vigor a 1 de Janeiro… Isto sem que haja qualquer circunstância excepcional, é de notar.

  2. Lá para sexta feira temos novo OE,um mais que provavel aumento de impostos,um novo imposto(o sucessorio) ,as palmas da “esquerda”,os resmungos pouco audiveis da “direita”,o PM a justificar-se com o caso BANIF(ou seja o anterior governo) para “falhar” algumas promessas,e o que realmente interessa aos portugueses:o Sporting,Benfica e Porto a salvo de qualquer mais que justa falencia,porque o dinheiro continua a jorrar em catadupa porque antes tambem era assim.sempre foi assim,e antes assim,do que …pior.O velho ditado portugues ensina que quando se parte uma perna,podia ser pior:podia ter partido as duas…

  3. exasperante é a falta de pudor com que se “martela” a evidência exibindo a propaganda ao melhor estilo da coreia do norte. É uma alucinação pegada!

  4. Quando se pede dinheiro ao banco para uma casa tem-se que pagar senao o banco vem-nos buscar à casa . entao Portugal pede dinheiro ao estrangeiro para os seus vicios e agora que tem deficuldades a pagar a culpa sao dos outros paises . ainda ontem na TV mostrou o governo à aumentar de 150% certos salarios ganhem vergonha trabalhem.

    1. E quando o banco pede dinheiro a nós através do estado? Tem de pagar caso contrário ficamos com o banco, certo? Aí desculpe esqueci no caso dos bancos podem pedir dinheiro e não pagar, desculpe foi confusão.

    2. Os 150% de aumentos foi do anterior governo! Mas ainda ninguém disse que não se paga o que se deve. Agora a receita não resultou. Não supervisionaram e nem regularam, mesmo a Troika que andou a espiolhar tudo. Como diz o povo:”quem muito se agacha o dito se lhe vê!”

    1. No outro dia o tio da minha mulher que infelizmente sofre de cegueira ideológica voltou a cair na rua. O homem está sempre aberto e com pontos. É o sinal de trânsito na testa, a janela do rés-do-chão na boca, o guiador no estômago. É preciso fazer algo. Acabar com a cegueira ideológica que os faz alienar da realidade e das coisas como elas são.

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