Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

31 de Janeiro de 2016, 17:35

Por

Os amigos do [prato] alheio

pratos de carneHá dias, num restaurante com muita gente e com mesas separadas por uma mínima distância, o que permitia que os mais surdos conseguissem ouvir a conversa do lado, pus-me a pensar na prática muito usual de alguém – enquanto lê o cardápio – passar os olhos em redor para ver o que se vai comendo.

O restaurante era italiano. Certamente havia debutantes em pasta que não sabiam distinguir as muitas formas de a fazer. Mas, mesmo com a nossa comidinha portuguesa, o “piscar de olho” para o prato da direita ou da esquerda está enraizado nos hábitos dos comensais.

Há até os mais afoitos que indicam o prato eleito, não através de sons, mas orientando a sua preferência através do descontraído dedo indicador apontado, em riste e com fome, para o prato da vizinhança. É uma espécie de “selfie gastronómica” por interposto sujeito e por via de uma invasiva coligação entre o olho, a barriga e o dedo. Às vezes, sucede que por causa de outro dedo – agora do empregado – apontando no menu o nome do prato até aí incógnito, a antes tão exuberante determinação digital sucumbe perante a lei da moeda.

Agora que passou a ser criminalizado o piropo sexual, confesso que este assédio gastronómico através da gulosa vista também deveria ser prevenido. Já senti, por via olhuda, o meu prato a encolher…

Isto é o que, amiúde, se passa antes. Mas há os reincidentes que, mesmo depois de escolhido o prato, e caso o vizinho tenha escolhido o mesmo, passam o tempo a comparar a quantidade, a disposição da guarnição ou a dose da carne, peixe, bacalhau, filetes ou pizza. Com mais ou menos comparativos, lá acabam por comer a sua dose, mas julgo que com a amargura de se acharem negativamente discriminados. Uns infelizes que quase sempre têm mais olhos do que barriga. Sobretudo quando chegamos às doces sobremesas portuguesas.

No fim, vem a conta e o vizinho já saiu.

Há anos, até vi uma pessoa reclamar que não tinha o pau de canela com o café, como eu tinha. Dito e feito. Veio o adereço, a colher lá serviu para mexer o café e a pobre da especiaria em forma de pau foi sujeita à aleivosia dentária do reclamante. Não cheguei a saber se partiu algum dente. Nem ouvi o piedoso pedido de socorro por parte da caneleira. Quanto á minha, depois de cumprida a função aromática no café, trouxe-a para o meu papagaio que agradeceu com distintas bicadas.

Comentários

  1. Todas as atitudes que supostamente aconteceram, são perfeitamente normais. Claro que não deixo de ressalvar os exageros do Sr. Ex-ministro da segurança social, sobre o tipo de reclamações que diz ter ouvido.

    Mas se aconteceram, provavelmente vieram de pessoas que pagam a segurança social aos seus prováveis funcionários o que nem sempre aconteceu com sua excelência.

    Apontar com o dedo para direcionar o olhar do outro em determinada direção é simplório sim. Mas não existe nenhuma maldade nisso. Mas apontar alguém em jeito de acusar sem que a outra pessoa tenha feito aquilo de que era acusada, isso já é maldade. E vossa “insolência” também já o fez.

    1. Na minha opinião há razões para olhar para os pratos dos vizinhos especialmente se não se conhecer o restaurante. Eu sou dos que olho e posso explicar porquê. Existem pratos cuja qualidade varia drasticamente com a confecção, como exemplo veja-se o bacalhau à Brás. É delicioso se bem feito (húmido com os ovos mal cozidos, uma cebola bem puxada uma molinada de pimenta) e intragável se mal feito (ovos mexidos secos com batata palha seca e cebola encruada). Basta porém um relance para se obter muito mais informação do que o que está escrito na carta. Professor Bagão Felix, como sei que é católico não se esqueça de uma ave Maria pela frase “já senti, por via olhuda o meu prato a encolher” isto que disse é pura gula. :) o melhor dos pecados…

  2. Síndromas infantis do tuga… Voltando a uma das minhas paixões, as citações inteligentes:

    «Quando as pessoas têm liberdade para fazer o que querem, começam, em geral, a imitar-se mutuamente.»
    Françoise Sagan

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