Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

29 de Janeiro de 2016, 08:03

Por

O insuportável peso da desigualdade

A credível e prestigiada organização não-governamental Oxfam publicou os últimos dados sobre a desigualdade social no mundo, imediatamente antes da realização do Fórum Económico Mundial de Davos.

Vale a pena sumariar alguns dos pontos do relatório:

– A riqueza acumulada por 1% da população mundial foi, em 2015, equivalente ao património dos 99% restantes.

As 62 pessoas mais ricas acumularam o equivalente à riqueza dos 50% mais pobres da população mundial (em 2010 eram 388 pessoas).

– Um em cada nove seres humanos não tem o suficiente para comer.

– Mais de mil milhões de pessoas ainda vivem com menos de 1,25 dólares (pouco mais de um euro) por dia.

Estes números e a sua evolução falam por si. A desigualdade na distribuição dos bens é avassaladora e tende ainda a ser mais cavada. A crise por que vem passando o mundo agudizou a situação, tornando os ricos mais ricos e os pobres mais pobres. Os paraísos fiscais continuam inamovíveis e a corrupção alastra endemicamente. Vivemos perigosos tempos de “politeísmo” de dinheiro, poder, nacionalismos e integrismos.

Como há 70 anos já protestava Gandhi, “há riqueza suficiente no mundo para as necessidades do homem, mas não para a sua ambição”.

 E o que nos legou Davos na sua conferência deste ano? Silêncio, tão-só

Comentários

    1. Não há panaceias universais para problemas económicos, que se inscrevem num espaço, num tempo, e numa cultura particulares. Mas eu não conheço melhor ideia para mitigar a miséria em países ricos do que aquela que propôs o professor Milton Friedman, o imposto negativo sobre os rendimentos mais baixos. Como a ideia é excelente, é mesmo magnífica, nunca foi posta em prática. Já viram bem, metade ou mais da horda da “segurança social” despejada no desemprego? Que horror! Tantos psico-assistentes bondosos sem emprego… Impensável!

  1. Também é insuportável o moralismo hipócrita da direita que defende no papel mais igualdade quando na prática só fomenta (e defende aqueles que fomentam) mais desigualdade.

    1. Por exemplo, no caso do programa de resgate da Troika, ao cortar nos salários e pensões milionários do Estado, sem qualquer corte nos mesmo rendimentos mais baixos, fomentou-se DE FACTO, e não com blá blá “de esquerda”, a igualdade entre portugueses. Tal como ao reavaliar as propriedades para efeitos de IMI, avaliações essas que constituíam uma iniquidade grosseira e piada nacional, foi a igualdade que DE FACTO saiu a ganhar. A “esquerda” fala muito de igualdade, mas faz muito menos do que ela própria crê.

    2. O Liberal anda no bom caminho. Apoiar as quase inexistentes medidas de esquerda do anterior governo pode parecer pouco. Mas não deixa de ser um passo na boa direcção. Agora há que elaborar. Que outras medidas é que sugere para reduzir a desigualdade? A subida do salário mínimo? O Rendimento Social de Inserção? Os direitos dos trabalhadores? O Sistema Nacional de Saúde? A educação pública? A habitação social? A ilegalização dos paraísos fiscais? A luta contra os abusos de posição dominante das grandes empresas? A não privatização de empresas públicas lucrativas e estratégicas? Cuidado Liberal não diga que sim a tudo se não ainda é acusado pelos seus colegas de comer criancinhas.

    3. Caro Silva, não há perigo nenhum de eu responder que sim às suas questões. Leia o meu comentário das 19:21 de ontem, e não terá muitas dúvidas sobre o que nós liberais mais à direita pensamos do seu precioso “Estado Social”. Mas para não o deixar frustrado, digo-lhe ainda que a supressão do “subsídio de desemprego” seria uma das coisas que mais contribuiria para a igualdade em Portugal. E não vai ter como contestar.

    4. José, como é óbvio é a esquerda comunista portuguesa que tem mentalidade autocrática, ou fascista, se lhe quiser assim chamar. A prova disso é a expressão que ela própria cunhou, social-fascistas.

    5. será que ainda não apreendemos que isto de igualdades ou desigualdades não se resolvem com esquerdas com direitas ao centro direita centro esquerda mas que palhaçada de quem se governa com estas confusões isto só vai com pessoas que nada tem haver com politiquice.muito lobo vestido com pele de cordeiro ou nos safamos todos ou nos afundamos todos

    6. Este sr. Silva é o perfeito ignorante que acha que a defesa dos pobre é um desígnio da esquerda. se não fosse ignorante bastava olhar para os ditos países comunistas , coreia do Norte Venezuela, e tantos outros.

  2. É preciso saber brincar com os números, e as pessoas que publicam este tipo de “análises” são especialistas na matéria. São as mesmas pessoas que prevêem o “fim do mundo”, e que já o faziam no tempo dos romanos, como o fizeram antes do ano 1000, e antes do ano 2000, etc. É preciso descodificar e expor este discurso. É preciso sempre lembrar Joseph Goebbels: “uma mentira mil vezes repetida torna-se verdade”. E a verdade é que a humanidade nunca foi tão rica materialmente como no presente. E a verdade é que SEMPRE que se pôs em causa de forma radical a economia de mercado, o resultado foi a miséria geral. Não é a política que muda o mundo, é a técnica. A impotência dos socialismos portugueses não é inesperada, eles não têm mesmo qualquer resposta positiva à IMPRODUTIVIDADE do país, mas não querem sobretudo que os outros façam melhor. Por isso ficam todos felizes mal a Troika levanta voo, porque para eles isso é o sinal verde para novos disparates “sociais”.

  3. Se a China puder servir de exemplo, nao parece que o mundo esteja hoje pior que ha anos atras e que globalizaçao tenha prejudicado os paises em vias de desenvolvimento, pelo contrario. A China, por exemplo, é hoje um país mais desigual que ha trinta anos atras quando começou integrar-se na economia mundial, mas é um país muitissimo mais rico em que cerca de quinhentos milhoes de pessoas passaram a integrar a classe media, com poder de compra para poder viajar, ter smartphone e comprar carro. Mais de mil milhoes de pessoas poderao ainda viver com menos de 1,25 dolares por dia, mas tb neste indicador tem havido progresso. As desigualdades na repartiçao de rendimento têm aumentado mas creio que está por provar que haja hoje mais pobreza absoluta que antes ou que os mais pobres vivam hoje em piores condiçoes que no passado.

    1. Deixe lá am, quando os chineses eram todos paupérrimos é que era bom… Eram todos “iguais”! Uns mais iguais do que os outros, está bom de ver!

    2. Caro am. Penso que será mais útil medir o presente actual não contra o passado mas com o presente possível e com o amanhã. A questão não é saber se as coisas melhoraram de ontem para hoje mas saber se (1) mesmo que tenham melhorado, não poderiam ter melhorado muito mais e (2) o que fazer para elas melhorarem mais no futuro próximo.

    3. Silva : Com efeito, essas sao boas questoes. As estatisticas sobre a desigualdade dizem pouco se o seu aumento for devido ao crescimento do numero de multimilionarios (o Ronaldo e tantas outras vedetas como ele têm contribuido para o fenomeno, tanto como os jovens empresarios da “nova economia”) e nao ao empobrecimento da generalidade da populaçao. O Ronaldo talvez tenha ideias interessantes sobre estas questoes.

  4. O Bagão Félux constata realmente uma série de factos chocantes e indesmentíveis, mas limita-se a abanar a cabeça e a chorar lágrimas de crocodilo. A questão, como em tudo, é política, e o que se vê é o que o Bagão Félix alinha sempre politicamente com o sistema que permite essa acumulação de capital. O mesmo texto poderia ter sido escrito pelo Francisco Louçã, mas este, ao menos, tenta fazer qualquer coisa para mudar a situação.

  5. é estarrecedor. nas condições descritas, não há crescimento que seja viável. De há uns largos anos a esta parte o fluxo de capital é de sentido único, no sentido da acumulação. A circulação da moeda não cumpre um ciclo.

    1. Deixe-me adivinhar, graças à forte presença do estado na economia e das gigantescas dificuldades em criar emprego precário?

    2. Sim Paulo Marques, os Estados são os grandes responsáveis pelo que aconteceu à moeda nos países ricos. Eu sei que isso o chateia absolutamente, mas as moedas são obra dos Estados, e governadas pelos Estados, em monopólio. E têm feito um trabalho MISERÁVEL, e desde muito antes da crise de 2008, que provocaram involuntariamente.

  6. Dr. Bagão Félix, estas terríveis estatísticas suscitam-me o seguinte:

    Dentro de um país com controlo fronteiriço, quando a democracia funciona, pode conseguir-se, embora sempre com muita dificuldade, que a política se sobreponha à economia para garantir que o interesse geral prevalece sobre os interesses particulares. Com um mercado global, supranacional, em que as regras do seu funcionamento não sejam reguladas pelos parlamentos, a política nunca conseguirá prevalecer sobre a economia para defender os interesses gerais dos povos em detrimento dos interesses particulares de alguns. Parece-me por isso que o capitalismo, ainda que tenha propiciado um extraordinário desenvolvimento das sociedades, quando se globalizou transformou-se (não inocentemente) na melhor forma de controlo das conquistas democráticas – a única forma, ainda que frágil, dos mais pobres defenderem os seus interesses.

    Num mundo tão unido economicamente mas tão dividido politicamente, religiosamente, ideologicamente, parece impossível a criação de uma soberania global que regule a economia mundial e garanta uma melhor distribuição da riqueza. Parece-me portanto que enquanto a economia continuar a sobrepor-se às soberanias nacionais continuaremos a ter estas estatísticas terríveis: muitos pobres a sofrer e a morrer devido à extrema riqueza de alguns.

    Os movimentos políticos nacionais dos países pequenos, mesmo que quisessem, não teriam força nem dimensão para lutar por uma soberania política mundial que regulasse os mercados. A geopolítica feita pelos países poderosos tem outra agenda. Ou seja, olhando para a história, não vejo outro desfecho alternativo senão uma revolta muito violenta e assustadora que depois de muita desgraça volte a distribuir as cartas do baralho (às vezes, não para melhor). Antevê alguma solução, algum cenário mais optimista pelo qual valha a pena lutar?

    1. Nao é clara a relaçao entre “haver muitos pobres … devido à extrema riqueza de alguns”. Se Portugal tivesse uns quantos Bill Gates ou Marc Zuckerbergs seria provavelmente um país mais desigual mas seria tambem um país bem mais rico e com muito mais gente nas fileiras da classe media a ganhar bons salarios. A economia nao é geralmente um jogo de soma nula.

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