Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

29 de Janeiro de 2016, 19:36

Por

As consequências de “Bolonha”

Nas Universidades portuguesas conclui-se por estas alturas o primeiro semestre do ano lectivo 2015/2016. Afigura-se contudo que o ensino superior continua a ser, em larga medida, influenciado por dois eventos do passado recente: em 2007/2008, as universidades públicas nacionais introduziram novos currículos que cumpriam regras europeias tendentes à harmonização, sobretudo das licenciaturas e mestrados, a nível europeu e que permitiam o reconhecimento automático de créditos e de graus; e, desde meados da década passada, as universidades portuguesas sofrem cortes sistemáticos e recorrentes no financiamento proveniente do Orçamento do Estado, acompanhados de uma deterioração progressiva do enquadramento macroeconómico nacional que agrava ainda mais as condições de financiamento da maioria das universidades.

Bolonha acentua o enfoque da educação (superior) na aferição de resultados: o importante é a métrica, o “seriar” dos alunos e fazê-lo de forma contínua ao longo do semestre.

Bolonha, que desconheço, será certamente uma cidade com os seus encantos. E os alunos beneficiaram em algumas dimensões do processo de Bolonha. Mas, passados estes anos sobre essa grande reforma, é necessário reavaliá-la com frieza, porque Bolonha não deveria permanecer escrita em pedra…

Comentários

  1. Nos EUA é possível um percurso do tipo

    1. Bachelor’s degree in English Literature, num Liberal Arts College do Médio Oeste,

    2. Master’s degree in Physics, numa State University da Costa Oeste,

    3. Doctor of Philosophy degree in Computer Science numa Research University da Costa Leste,

    e outros ainda mais exóticos pelos nossos padrões.

    Na Alemanha é comum os estudantes correrem várias universidades, em vários estados federais.

    E quer num lado quer noutro é uso os estudantes viverem e regime de internato no campus universitário.

    Quando se importam modelos, supostamente muito bons, sem se importarem as condições objectivas que os tornaram muito bons… corre-se o risco de ter grandes desilusões

  2. Usar termos sem saber o seu significado é uma demonstração de analfabetismo muito característica da plebe universitária.

    É divertido o uso de termos latinos pela plebe universitária. O baccalaureatus (que quer dizer: o que recebeu as bagas de louro) como os restantes termos usados pelo centro de analfabetismo medieval (a universidade) são incompatíveis com a base cultural judaico-cristã. É divertido constatar que foram instaurados quando a universidade vendia dogmas cristãos e afins imbecilidades tão características desses energúmenos (do grego “ergon”, trabalho).

    O centro de analfabetismo medieval – a universidade – é o estorvo onde são inventadas as insalubridades dos medievais. Da inquisição decorrente dos anteriores dogmas universitários, até à actual destruição de tudo e todos em nome desse tal “progresso” (outro dogma universitário) esses energúmenos repetem sempre o mesmo: é necessário matar e destruir no altar de um analfabetismo qualquer.

    A reforma necessária é a erradicação da universidade e do atraso cultural que ela divulga. As crenças medievais nos dogmas dos “milagres do progresso científico” e respectiva inquisição contra os ecossistemas, são mais do mesmo: ignorância, imbecilidade e insalubridade – os três “i” dos universitários.

    1. E de que universidade saiu este “quiduxo”? É que não foi com energúmenos que ele adquiriu a sua erudição formidável sobre o Mundo Antigo, a que dá tão mau uso. Espantoso como se atreve a falar da “crença medieval nos dogmas do progresso científico”, falsificando por completo a História, em que a Ciência moderna com o seu método científico é posterior e foi possibilitada pelo Renascimento e pela Reforma, e apesar disso foi perseguida como inimiga mortal pelos católicos, e não só. O grande problema do “quiduxo” é mesmo que ele não se conforma com o facto de, precisamente graças ao progresso técnico-científico, o mundo hoje ser tão melhor do que aquele que existiu para quem viveu na sua preciosa Antiguidade. Por isso eu ter este desejo irrealizável de o mandar para lá, para ele saber na carne o que era trabalhar como escravo, comer coisas que nem o cão dele come, e morrer jovem com uma banal infecção ou com carências alimentares.

    2. E quem recebia as folhas de louro na Antiguidade Clássica?
      Quem as recebia, porquê e quando?
      Ilumine-nos, caro Eppicuro.

    3. O seu contributo é inestimável nesta discussão.
      Não tendo a sua cultura, vou precisar de reflectir sobre tudo o que disse, no entanto partilho a minha convicção e experiência de que a decadência do meio universitário advém do facto de este compreender dois grupos de pessoas problemáticas:
      1) os alunos, miúdos sem know how nenhum desta vida, nem do mercado laboral, com pouca instrução, moldáveis e desejosos de se submeter a uma qualquer figura de autoridade pois a isso foram amestrados durente 12 anos de ensino, uma verdadeira plebe camponesa, muito apta a decorar receitas mas a nada compreender. Salvam-se as honrosas mas minoritárias excepções em que são humildes de espírito e desejosos de aprender.
      2) os docentes, pessoas que tal como presidiários precisam de medicação para atenuar os danos à mente de passar muito tempo fechado no mesmo sítio, e a fazer as mesmas coisas anos a fio. Para piorar passam anos a lidar com a plebe acima, o que os transforma em pessoas inaptas para a vida social em geral, vulgo capatazes mercantis de qualificações de papel.
      Em relação a Bolonha, a experiência que tenho é que para continuarem a ter programas de “topo” (programas que na verdade só servem para sustentar as carreiras dos capatazes) acumulam 4 ou 5 anos em 3, e os alunos que se lixem, acabam por ter que passar 4 ou 5 anos à mesma para cumprir o currículo. Uma fachada que só existe porque os atrasados mentais dos “doutoures” não percebem que Bolonha é para uniformizar, não para fazer mais que os outros.
      É extremamemte difícil fazer algo de produtivo com esta gentalha porque se trata de pessoas realmente problemáticas.

  3. Não há reformas perfeitas nem num tempo de acelerada mudança uma reforma de há 20 anos deve ser considerada não repensável e não revisível.
    Como professor do ensino superior, ainda que aposentado no início de 2014, o maior problema que eu vi em «Bolonha» foi a substituição do ensino pela autoaaprendizagem, leccionando-se muito menos aulas, escandalosamente menos (45% do tempo curricular nas licenciaturas, 18% a 22% nos mestrados, e 10% a 15% nos doutoramentos) o que, conjugado com a obsessão de conferir cursos e graus o mais cedo possível (licenciatura aos 20 anos, mestrado aos 22 e doutoramento aos 25) limita os conhecimentos e as capacidades organizativas dos alunos uma vez que estes não dispõem nem de estruturas cognitivas amadurecidas nem de orientação suficiente para a autoorganização da investigação.
    Assim, estamos a «matar» as gerações mais jovens, privando-as de conhecimentos fundamentais para enfrentar o futuro. Mas não só: com esta reforma, propalada como favorecedora da igualdade perante a educação, o capitalismo global pôde baixar o preço dos salários dos habilitados com graus superiores e os estados foram atrás, instituindo empregos a meio tempo, por 650 euros por mês, graças à inundação do mercado com «laranjas», isto é, com licenciados e mestres. Além disso, com a diminuição das aulas puderam diminuir os professores do ensino superior em 30%. A verdade é que não vejo os licenciados nem mais conhecedores nem mais maduros e vejo, pelo contrário, um exército de «pedintes» a demandar emprego, sem receber em troca quaisquer condições dignas. Eis «Bolonha» em todo o seu esplendor miserável.

    1. O remédio? Fim do dirigismo, liberdade no ensino, e, obviamente, escolas privadas. Os ingleses já acordaram, e possivelmente sairão desta UE dos eurocratas com tiques autocratas. Cada vez mais autocratas. Um bem haja pela sua participação informada neste debate.

  4. Este País na verdade ainda está minado de fascistas. Só porque não se concorda com uma opinião não se tem o direito de censurar a pessoa e as suas ideias.

    O comentário de um leitor faz-me lembrar Passos Coelho a apelidar de populistas quem não concorda com a integração do seu País na UE ou no Euro. As pessoas são livres de terem as suas ideias para o País e para a Sociedade e de as defenderem.

    Também me lembra o comentário da Xuxa de Belém a apelidar a Marisa Matias de populista. Este País está realmente minado de pessoas anti-democráticas.

    Quem defende um Referendo é Populista, quem não concorda com Bolonha deve ser censurado… Incrível.

  5. Bolonha (a reforma) faz sentido: (1) Faz sentido para flexibilizar a estrutura de formação superior (3+2+3) e ajustá-la ao ritmo de evolução das sociedades, das ciências e das tecnologias; (2) Faz sentido para desenvolver um espaço de mobilidade na Europa, e quebrar a exiguidade dos espaços educativos de cada país, num tempo de regressão demográfica, obrigando naturalmente a desenvolver um conjunto de normas de equidade e comparabilidade; (3) Faz sentido para levar cada vez mais jovens ao ensino superior, sem pressupor que a formação superior longa e clássica é a única, e sem fechar caminhos de desenvolvimento pessoal, isto num tempo em que a formação secundária básica será insuficiente e mesmo tornada inútil pelo progresso da automatização (tema de Davos este ano).

    A dimensão de mudança pedagógica leva gerações a mudar, dado que todas as estruturas académicas são tendencialmente rígidas (também é por isso que a universidade durou 1000 anos). Em conclusão, podemos sempre discutir os princípios (eu compreendo-os) mas as dificuldades de aplicação e desenvolvimento desta visão não os destroem apriori.

    PS: Já agora, o único erro crasso em Portugal foi manter o nome de licenciatura para a formação inicial. Mas isso tem a ver com a nossa natureza provinciana que traduz mal os conceitos “lá de fora”. Já dizia Eça que o português era uma tradução do francês para vernáculo/calão.

  6. Bolonha em Portugal foi uma tentativa (falhada) de regresso aos três graus tradicionais (baccalarius, magister, doctum), que os ingleses (conservadores) mantiveram e que franceses e portugueses (progressistas) abandonaram.

    P.S. Vide (1910) a promoção dos anteriores bacharéis (baccalarius) a licenciados (licentia docendi = magister), dos anteriores licenciados a doutores e a substituição (republicana) dos títulos nobiliárquicos pelos títulos académicos.

  7. De veras não entendo este artigo. O enfoque de Bolonha está, primeiro na harmonização dos graus a nível Europeu (primeiro paragrafo) e, segundo o ensino deixa de estar centrado no professor para se centrar no aluno. Em Portugal a primeira parte foi feita e a segunda não. A reforma de Bolonha não tem como enfoque a aferição dos alunos. Nunca isso foi escrito, dito ou feito. Simplesmente é falso. Contrariamente aquilo que se faz no ensino em Portugal que é reforma sobre reforma, Bolonha não é uma reforma e não é para rever. Bolonha é um passo na construção europeia. Contrariamente ao autor que, pelos vistos não conhece nem uma nem outra, eu conheço bem as duas: a Bolonha reforma e a Bolonha cidade. Acho este artigo indigno de ser publicado no Público e seria bom que fosse retirado.

    1. Caro Yesman,

      Agradeço o seu comentário. Julguei estar a entrar num vespeiro com este tema e, por conseguinte, abordei-o só ao de leve. O seu comentário justifica os meus receios. Desde quando é que se considera que a crítica (suavíssima que é feita neste post) deve ser censurada? Como pode tal censura ser compatível com os ideais de Bolonha? Porque é que Bolonha “não é para rever”?

      P.S. – eu não afirmei que a reforma de Bolonha tenha como enfoque a aferição dos alunos. Eu afirmei que Bolonha acentuava o enfoque da educação superior na aferição dos alunos.

    2. Caro Ricardo Cabral,
      Não, não se trata de um vespeiro porque não existe contestação de Bolonha no meio académico. Quando vi o titulo fiquei admirado. Qual o propósito ? Depois percebi, quando se diz “…o importante é a métrica, é seriar os alunos e fazê-lo de forma continua ao longo do semestre” (se isto não é “enfoque” então o que é ser importante ?), está-se a tentar agitar a opinião. São os tais “opinion makers” ainda por cima, neste caso, com argumentos que são – desculpe – falsos. Não existe um documento de Bolonha que classifique a avaliação como “importante”. Nem disso se fala. Disse e mantenho: Bolonha não é uma reforma. É uma pedra angular da UE, goste-se ou não. E pelas razões apontadas também mantenho que a edição do Público, como jornal de referência que é, deveria considerar retirar este artigo, porque contém argumentos falsos.

    3. yesman, o artigo de Ricardo Cabral não faz parte do Público, mas sim de um blogue associado ao Público online. E eu, pelo menos, quando vejo alguém a querer calar alguém que sei que não abusa da liberdade de expressão, fico logo com vontade de ir buscar uma moca de Rio Maior…

    4. Leu “O 18 de Brumário de Luís Bonaparte”, caro Liberal?

      Se não leu leia.

      Leia e não se esqueça que Luís Bonaparte, o Imperador Napoleão III de França, foi deposto na sequência da sua derrota na Guerra Franco-Prussiana (19 de Julho de 1870 – 10 de Maio de 1871), derrota que abriu a porta à proclamação do II Império Alemão (na Galeria dos Espelhos no Palácio de Versalhes, a 18 de Janeiro de 1871), à Comuna de Paris (18 de Março de 1871 – 28 de Maio de 1871) e ao seu esmagamento pelo primeiro governo de Jules Dufaure (19 de Fevereiro de 1871 – 18 de Maio de 1873)
      Que esquece a História está condenado a repeti-la.

    5. Não conhecia caro Álvaro Aragão Athayde, de resto sei pouco sobre esse período da História de França. Mas acredito que a obra que me sugere tenha pertinência.

    6. Agora que já sei que o autor que me sugere é Marx, brumas surgem logo no meu espírito sobre o “18 de Brumário”… Então o Karlitos acertou numa previsão sobre Napoleão III?

    7. O Materialismo Histórico, ou Realismo Histórico como prefiro chamar-lhe, é uma óptima ferramenta intelectual. Óptima e actualíssima, caro Liberal.

      O Socialismo Científico e o Comunismo são projectos políticos utópicos, logo Idealistas, cujo percurso é muito curioso analisar usando a metodologia do Materialismo Histórico.

    1. Vivi a reforma «Bolonha» por dentro pois só me aposentei há dois anos. Teve aspectos positivos e negativos. Quem a quiser destruir enfocará os aspectos negativos. Quem a quiser exaltar enfocará os positivos. Uma atitude científica perante a reforma exige uma abordagem crítica, mobilizando estudos comparados, e focando ambos os aspectos.
      Os princípios da reforma são excelentes mas teóricos e excessivos: centrar a organização curricular na aprendizagem, permitir ao aluno a organização da sua aprendizagem, diminuir a importância do ensino. Porém, foram excessivos: não se pode solicitar a quem não sabe que organize a sua auto-aprendizagem e não se pode restringir o papel do ensino a níveis sem relevância. Restringir o ensino a 45% do tempo curricular nas licenciaturas, a 20% nos mestrados e a 10% nos doutoramentos teve consequências nefastas na formação dos alunos, os quais, sem orientação, se perderam na solidão.
      Mas há outros aspectos não menos gravosos. Porém, a reforma teve o mérito de tentar harmonizar cursos e saberes, de garantir o reconhecimento dos diplomas no espaço dos 40 países que aderiram à reforma e de garantir muito mais a formação experimental na formação profissional.

    2. Alemães, Espanhóis, Franceses, Ingleses, Italianos, Portugueses, etc., não partilham a mesma língua, nem a mesma cultura, nem as mesmas concepções sobre o que é mais importante no mundo e na vida, e isso foi ignorado, pura e simplesmente ignorado.

      A restrição do «ensino a 45% do tempo curricular nas licenciaturas, a 20% nos mestrados e a 10% nos doutoramentos» pressupõe um ambiente académico e uma relação entre discentes e docentes que não existe em Portugal, isto para além da institucionalização da figura do “professor orientador” que estava prevista mas não foi efectuada.

      O terem gozado com o Ministro Álvaro do Santos Pereira por causa das estórias do nome e do pastel de nata diz bastante dessas diferenças.

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