Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

28 de Janeiro de 2016, 19:40

Por

Santander et al

O Santander divulgou ontem, quarta-feira, os resultados de 2015. O interessante é que reconheceu, só em 2015, ganhos com a compra do Banif de 283 milhões de euros (vide página 18 deste relatório)[1]. Ou seja, para o Santander a posição que adquiriu por 150 milhões às 23:30h de 20 de Dezembro de 2015 valia, no final do dia 31 de Dezembro de 2015, 433 milhões de euros. Um retorno líquido de +188,7%, em 11 dias “de trabalho”, ou o equivalente a uma taxa de 10,1% ao dia (foi mais elevada porque o Santander de certeza não transferiu os 150 milhões de euros no dia 20.12).

Nada mau. A taxa anualizada é astronómica, por conseguinte nem vou incomodar o leitor com tantos zeros (17)[2] e vou utilizar o sinal de expoente: +1,89E+17%. Devem ter existido no mundo, em 2015, poucas taxas de retorno comparáveis a esta (para o montante em questão) e, por conseguinte, o Santander é certamente dos recordistas, se calhar a par de alguns especuladores no franco suíço ou no rublo russo – mas, evidentemente, teve ajudas….

Claro que o Santander estará a ser modesto: os ganhos com a compra do Banif são, provavelmente, muito superiores ao declarado. O banco irá reconhecer, ao longo dos próximos anos, as mais-valias resultantes desta compra do Banif, mas já misturadas com o resto do negócio do banco. Por conseguinte, parece-me que o Santander é um sério contendente a uma inscrição no Livro Guinness dos Recordes do ano de 2015.

O interessante são as declarações do presidente do Santander Totta de que “o banco alterou, a pedido do Fundo de Resolução, a sua proposta de compra do Banif” sem esclarecer que alterações foram efectuadas. Será que haverá dúvidas que a generosidade tenha pecado por ligeiro excesso?

O presidente do Santander-Totta também argumentou que a garantia dada pelo Estado de 323 milhões de euros não poderá compensar futuras perdas. Esperemos que sim, mas a deliberação do Conselho de Administração do Banco de Portugal é clara: a dívida com contra-garantia do Estado entregue ao Santander “para evitar quaisquer dúvidas” (alínea c) p. 24) foi de 746 milhões de euros e acresce que os prejuízos do Banif são assumidos pela sociedade do Fundo de Resolução. Essa dívida garantida já foi entregue, como dizem, “para evitar quaisquer dúvidas”. Será que as palavras do presidente do Santander Totta significam que este irá devolver em breve 323 dos 746 milhões de euros da dívida contra-garantida pelo Estado que lhe foi entregue? Enfim, no meio de tantos milhões, o que é que são mais 323 ou menos 323 “para evitar quaisquer dúvidas”?

Folgo, pelo menos, que a polémica tenha aparentemente dado para conter um pouco a ganância…

 

 

 

 

 

 

[1] Os resultados do 4T2015 do Santander e a respectiva apresentação sugerem que as mais valias de capital obtidas com o Banif são líquidas de qualquer provisão. Não identifiquei qualquer nota a esse respeito.

[2] Isto é, 189 seguido de 15 zeros e do sinal de percentagem.

 

Comentários

  1. Deixo o comentário escrito hoje ao artigo de FL este sobre assunto em 6 de Janeiro:
    FL e RC ( 2- economistas -2) comentam a resolução do Banif. São ambos enfáticos a constatar que o Banif mostrava râcios de solvabilidade “elevadíssimos”. Daí concluem ser manifestamente incompreensível, i.e., errada , a medida.
    Caros professores Louca e Cabral:
    Colômbia Uni – Barnard School – Money and Banking – Perry Mehrling ( também do INET )
    ” Solvancy gives you a headache.
    Liquidity ( the lack of it) kills you quick” .
    Ou voltando a Portugal :
    João dos Santos ( psicanalista, pedoterapeuta, pedagogo ) :
    ” se não sabe porque pergunta?”

    1. … a frase que atribui ao João Santos, não é dele e ele mesmo a explica na introdução do livro com o mesmo nome.
      … A frase é de um dos maiores músicos do século XX que a dada altura quando perguntado o que era a sua música (claro que não vou esclarecer para não vos fazer perder o prazer do garimpos de cultura… pois percebi que é cultíssimo) repondeu que ‘se não sabe não serei eu que explicará…’ (tradução livre…).

    2. Só passado todo este tempo dei conta da sua correção. Note contudo que não atribui a JS a paternidade da expressão. Ele com Joao Sousa Monteiro utilizaram-na num programa de rádio imperdível. Daí o ” voltando a Portugal”. De qq modo fica o registo e o agradecimento.
      SP

  2. Mais uma excelente análise. Eu da minha parte já esperava ver nas contas do santander um valor “jeitoso” de badwill associado ao Banif. Desde 22 de Dezembro que digo que era so esperar pela divulgação das contas para perceber o tamanho do presente. Como diz e bem, o santander deve ter carregado nas provisões para diminuir o valor, dado que o tema ainda está fresco e podia parecer mal. Nos proximos anos vão reverter as provisões e reconhecer proveitos, conforme lhes der jeito.
    Infelizmente, ainda se vê muito fraco jornalista a explicar incorrectamente determinados termos e regras contabilisticas, com o alguns que diziam que os 283 milhoes eram do credito fiscal dos activos impostos diferido… enfim.
    Tambem achei piada ao presidente do santander a querer fazer-nos passar por parvos com aquele conversa “qualquer aquisição gera diferenças contabilisticas”.. pois gera, mas normalmente é no sentido inverso (goodwill) e nunca com ganhos desta grandeza conforme calculou aqui o Ricardo Cabral.

  3. Claramente a Comissao parlamentar de inquerito ao caso Banif vai ter muito misterio para desvendar. Esperemos que faça trabalho serio e que todos vejamos os frutos desse trabalho. E se parece ser tarde para o governo recuperar perdas de uma venda mal feita, que atue pelo menos no sentido de recuperar o valor ajudas de estado (ilegais), se as houve como parece ter sido o caso.

  4. Mais um excelente artigo de Ricardo Cabral.

    O “rei vai nu”. Algo tão habitual que ninguém se incomoda…

    E continuaremos como ovelhas usadas para produzir lãs para os nossos donos que nos tratam de acordo com os seus interesses e nos mantêm como escravos. Mas nós gostamos de ser ovelhas. É mais confortável.

    E como sempre, os “donos disto tudo”, são os donos disto tudo.

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