Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

28 de Janeiro de 2016, 11:22

Por

As sondagens percebem as eleições?

Quando aqui lembrei como as sondagens se enganaram espectacularmente noutras eleições recentes (Grécia e Reino Unido), e que algumas sondagens registaram um surpreendente enviesamento nas legislativas portuguesas, alguns profissionais do ramo reagiram ofendidos.

Usaram argumentos certos: há inércia nas sondagens e, quando há variações importantes ao longo da campanha, elas captam uma fotografia atrasada e podem não registar o filme. Ainda por cima, a distribuição dos indecisos, quando a percentagem é importante, torna-se um problema bicudo, porque cada lista de candidatos presidenciais é diferente e é difícil comparar as campanhas entre si, ou comparar candidaturas presidenciais com partidos. Há portanto fortes margens de arbitrariedade nas escolhas dessa distribuição: ela não deve ser igual entre os candidatos (porque é de presumir que mais indecisos optem por Marcelo do que por Morais à última da hora), mas também não se tem um outro critério seguro (distribuir os indecisos na proporção dos resultados declarados é talvez a menos má das soluções, mas poder ainda assim ser errada). Além disso, eleições com metade de abstencionistas podem sugerir sondagens distorcidas pelo efeito de simpatia para com o entrevistador (eu digo em quem poderia votar, mas tenho vergonha de dizer que não vou votar), tudo dependendo da mobilização dos vários eleitorados.

Mas, mesmo ponderando estes argumentos evidentes, continuo a pensar que há sondagens que estão abaixo das exigências técnicas necessárias e entendo que estas eleições acrescentaram argumentos ao argumento. Por três razões.

A primeira é que temos casos de alguns “barómetros” que são apresentados como sondagens, em que as amostras são pequenas e as fichas técnicas são imprecisas ou pouco informativas.

A segunda é que fechar uma sondagem dia 19 de janeiro para a publicar dia 22 de janeiro, no último dia da campanha eleitoral, é um exercício demasiado arriscado – se a explicação para os erros verificados é que há muitas mudanças de opinião nos últimos dias.

A terceira é que a grelha de leitura parece influenciar os resultados de algumas sondagens. Dei o exemplo da sondagem que, no dia 23 de setembro, portanto duas semanas antes das legislativas, dava o PS à frente da coligação PSD-CDS (36% contra 35,5%, com a CDU com 10,1% e o Bloco a continuar a descer e com 5%). A grelha interpretativa distorceu a apresentação dos resultados, porque nem o PS estava à frente nem a direita estava atrás, nem o Bloco estava a descer. Uma semana mais tarde, a 29 de setembro, o mesmo instituto corrigia e registava outros resultados: 37,75 para a direita, 32,7% para o PS, 9,4% para a CDU e 6,7% para o Bloco. Portanto, das duas uma: ou tudo mudou numa semana, e percebemos que não foi assim porque a tendência vinha de trás, ou a técnica e análise para captar os movimentos eleitorais não era adequada.

Nestas eleições, considerando a última sondagem publicada durante a campanha e comparando-a com os resultados eleitorais, o mesmo instituto tem o maior desvio médio absoluto de todas as sondagens: 4,8%. Ou seja, o seu erro médio é maior do que a votação de Maria de Belém, que era anunciada nas vésperas das eleições com 13,3% (e que acabou com um terço desse valor). A candidatura em que o instituto mais flagrantemente se enganou foi mesmo a de Belém, ao contrário de outras publicadas no mesmo dia, mas o seu desvio noutros casos é igualmente impressionante (também ao contrário de outras sondagens do mesmo dia). No caso de Marisa, engana-se atribuindo-lhe cerca de metade dos votos que veio a alcançar e, lamento, essa diferença não pode ser explicada pelo que se passou nos últimos três dias de campanha.

A minha conclusão é que as sondagens se podem enganar, ou porque são publicadas quando já não correspondem à evolução real, ou porque são fruto de uma grelha interpretativa enviesada e não entendem o que se está a passar, mesmo quando os números surpreendem. Era melhor que as sondagens fossem melhores.

Comentários

  1. Prof. Francisco Louçã,
    Lamento que tenha tomado o meu comentário anterior como insultuoso e pessoal. Lamento porque não foi essa a intenção e lamento por mais cedo não o ter vindo afirmar. O que pretendi foi, apenas, defender a nossa reputação, com factos, contra as suas afirmações, suportadas numa única observação. E, sobre isso, não retiro nenhum dos argumentos.
    Sobre os erros das sondagens “lá fora”, aos que aponta juntaria Israel, muito poderá ser dito e muito está a ser investigado e escrito. E que merece profunda reflexão. Quer ao nível da pesquisa, quer do posicionamento e comunicação das campanhas.
    Como deverá merecer o resultado do passado domingo. Pela nossa parte, ao contrário do que se passou em Setembro/ Outubro como o BE, não encontrámos (em parte explicado por razões de ordem metodológica que conhecemos e que se encontram entre algumas das que cita) a aceleração das curvas, ascendente e descendente, de Marisa Matias e Maria de Belém.
    Apenas mais duas notas. Uma quanto aos “barómetros”. Mais do que o número de entrevistas, considerando o erro máximo das amostras, o que “conta mesmo” é a solidez do processo amostral e a qualidade da sua aplicação. No meu modesto entender, é claro. A outra quanto aos resultados das autárquicas no Porto. Mais uma vez tenho que referir o resultado do nosso trabalho, mas, de facto, na nossa última sondagem publicada, não só previmos a vitória de Rui Moreira, como também o segundo lugar de Manuel Pizarro.
    Sim, e não passo uma esponja sobre resultados menos bons, muito raros, felizmente. Aconteceram na primeira eleição de Rui Rio e nas Europeias de 2009, em que não acertámos nos vencedores.

    1. Recomendo, como leitura acessível, dois artigos, um sobre as sondagens nos EUA e outro sobre as últimas eleições em Israel: “Political polling isn’t dead just yet” em http://www.washingtonpost.com/news/the-fix/wp/2016/01/28/reports-of-the-demise-of-polls-have-been-greatly-exaggerated/ e “A new mini documentaryon Israel’s last election tells us something important about Israel” em http://www.vox.com/2016/1/28/10861560/israel-election-amit-channel-2.
      Menos acessível, por ser uma apresentação, as primeiras conclusões da comissão independente que analisa o comportamento das sondagens nas eleições no Reino Unido http://www.ncrm.ac.uk/polling/documents/19Jan_slides_Final1.pdf
      Relatório em Março.

  2. Com os defeitos das sondagens posso eu bem. O meu problema é com o efeito que a sua divulgação tem na decisão do sentido do voto.

  3. Caro Francisco Louçã,

    Existe ainda uma terceira hipótese que poderá fornecer uma pista interessante sobre a relação entre as sondagens e as votações expressas. Uma vez que as sondagens tentam aferir dinâmicas de opinião de um sistema complexo adaptativo, aquilo que podemos estar à assistir aquando da existência de fortes divergências entre as sondagens e as votações é a existência de uma relação não linear alimentada por efeitos de “feedback” entre o comportamento dos eleitores e e a divulgação de sondagens, materializando neste contexto o conceito de “reflexivity” tal como ele é expresso por George Soros.

    1. UAU! O seu argumento é impressionante. Mas não esqueça as conspirações que atuam nas sombras e controlam o mecanismo automático que V. Exa. descobriu. Todos sabemos que Marcelo não poderia ter vencido as eleições sem uma boa conspiração das TVs e de outras forças maléficas.

  4. E que dizer das sondagens que previam uma derrota humilhante nas eleições para a Câmara do Porto em que Rui Rio saiu vencedor? Esse é o exemplo mais evidente que a divergência não pode ser explicada por um erro técnico.
    deveria ser estabelecido um período pré-eleitoral durante o qual a publicação de qualquer sondagem fosse proibida.

    1. Sem dúvida. Mas mais tarde, por intuição ou por conhecer a realidade, a minha intuição, no programa da SicN, foi que Moreira ganharia a LF Meneses, que era dado como favorito pelas sondagens e até ao fim. As sondagens já se enganaram muitas vezes.

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