Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

27 de Janeiro de 2016, 12:12

Por

A televisão determina o vencedor das eleições?

Estou certo de que muitos leitores e leitoras responderão imediatamente que sim. Recomendo então um pouco de prudência e passo a explicar.

Marcelo ganhou por causa da TV ou, como escrevia alguém com muita graça, teve um pouco mais do que 50% de share no domingo passado? Não, não ganhou por causa da TV. Ganhou porque foi uma figura política forte ao longo de muito tempo (desde o Expresso nos anos setenta até à criação do PSD, a que depois presidiu), ganhou porque não teve opositor forte no PS e ganhou porque fez a campanha ao centro, apoiando o governo de Costa. Se não fosse uma figura incrustada no passado do PSD, não era candidato viável. Se tivesse um(a) opositor(a) mais forte na área do PS, outro galo cantaria. Se tivesse feito a campanha à direita, tinha segunda volta.

Naturalmente, tenho que acrescentar que a TV potenciou tudo isto, multiplicou o reconhecimento do personagem, que a campanha teve tons populistas exagerados (a marmita e a bolacha Maria, a ida ao cabeleireiro), que tudo isto foram representações e que só as suportamos ver porque estão na fronteira do registo do comentador insinuante e da telenovela, a que Marcelo se adaptou como uma luva. A TV deu a linguagem, mas o personagem já lá estava. A TV multiplicou, mas um candidato forte de direita que fosse hábil numa campanha ao centro teria sempre uma enorme vantagem sobre a inexistência de disputa por parte do PS. Não é a TV que decide nessas matérias decisivas.

Há outra prova de que a TV ajuda mas não decide. Houve um candidato criado por uma TV, Jorge Sequeira. Foi um canal cabo de incidência regional e discreta, o Porto Canal, mas apesar de tudo vinculado a um dos maiores clubes de futebol, e do seu ecrã nasceu a candidatura, cujo resultado foi no entanto irrelevante. Não bastou a TV.

Finalmente, as maiores TVs escolheram discriminatoriamente entre as candidaturas e o resultado desmentiu flagrantemente a sua escolha. Para a TVI e para a SIC, em termos de debates em canal aberto só contavam Marcelo, Nóvoa e Belém, tendo outros candidatos sido relegados para o cabo (Edgar e Marisa, com uma diferença na audiência de um para dez ou para vinte em relação aos debates em canal aberto) e os outros reduzidos a semi-debates em canal cabo. Essa escolha foi uma decisão política. E não só foi errada como foi desmentida pelos resultados, quando Marisa provou que representava duas vezes e meia a expressão de Maria de Belém. Acrescento que acho que as três TVs (RTP, TVI e SIC) fizeram uma cobertura correcta das campanhas, ignorando elas próprias esta discriminação que duas delas aplicaram nos debates.

Portanto, as TVs influenciam, moldam, amplificam os pontos fortes e fracos das candidaturas, mas não têm a força para escolher vencedores. Pelo menos, ainda não têm essa força. O que aliás é uma indicação importante para quem quer fazer campanha informativa e de debate para as escolhas democráticas que desafiem o senso comum das ideias feitas, o triste fado de um país impossível: é possível chegar às pessoas mesmo quando o mundo comunicacional das TVs está inclinado pelo preconceito ou pela discriminação. E essa é uma conclusão maior para a estratégia política e de movimento de quem quer refazer Portugal e disputar a sua liderança. Sim, pode-se mesmo.

Comentários

  1. Se os comentadores da esquerda continuarem a investigar profundamente, vão descobrir que a vitória de Marcelo também foi uma conspiração dos Irmãos Metralha e da Maga Patológica que se aliaram às forças maléficas de Mordor. É que, como Louçã argumenta, a conspiração das TVs não parece suficiente para explicar a vitória de Marcelo e, obviamente, um candidato de direita seria incapaz de vencer sem uma boa conspiração.

  2. Caro FLouçã,

    Este seu texto é especulativo. Vc sabe isso. Alinha correlações que eventualmente até existem como se elas fossem causalidade. Portanto, as suas conclusões representam uma opinião. Legitima, mas ainda assim mera opinião. Julgo que não teria ficado mal se tivesse sublinhado isso.

    Cumprimentos,

    JRodrigues

  3. Óbvio que a vitoria não se deveu á exposição de Marcelo ao longo dos anos. Se ganhou foi porque tinha substancia para ganhar porque a exposição é uma espada de dois bicos. Os outros podiam se apresentar sem tanta bagagem. As “qualidades” de Marcelo aliada ás (falta de?) qualidades dos outros ditaram a vitoria. Gostava contudo de deixar os parabéns á candidata do Bloco de Esquerda pois foi a única que, fora Marcelo, fez boa figura.

  4. O F. Louçã faz uma análise possivelmente correcta, se olhar apenas para a Televisão e o seu contributo durante a campanha e a pré campanha.

    Contudo, o nosso futuro PR construiu a sua reputação não com trabalho na AR ou no P. Europeu, mas sim como comentador político, suportado pela RTP e posteriormente TVI.

    Sendo assim, a meu ver, foi a TV e o bom trabalho de Marcelo (bom no sentido de cativar a atenção do telespectador) quem determinou o vencedor desta campanha.

  5. Proponho uma alteração no texto. Onde diz “TV”, escreva-se “TVI”. Faz mais sentido. Ouvi pessoas dizer-me que votariam Marcelo porque “é o único que conheço”. As televisões e jornais estenderam-lhe a passadeira vermelha. As televisões e jornais (e aqui o Público foi vergonhoso) ignorou metade dos candidatos. Só vimos os candidatos partidários, e o Tino porque era engraçado. Não tiro o mérito a Marcelo, que desenhou a estratégia há muitos anos e com ela venceu. Os nossos media é que deixam muito a desejar, são parciais e manipuladores. O Público até se deu ao trabalho de usar repetidas vezes fotografias de alguns candidatos (incluindo Marisa Matias) nada favorecedoras. Claro que, para os 5 candidatos partidários, é normal pensarem que tudo isto faz parte do jogo. Os outros é que, mesmo com uma mensagem séria e válida, não têm hipótese. Ficam relegados a aparecerem como notas de rodapé.

  6. venceu a marmita e as bolachas porque as bostas das tv’s assim o quiseram a verdade mesmo verdadeira quem venceu foi abstençao porque tv’s eu nem tenho nao fazem-me falta nao ser idiotizado por essa gente por mim falavam pra parede

    1. Ainda bem que V. Exa. não tem TV. Pelo menos, não ficará idiotizado por esse meio. Talvez por ter TV, não reparei que a abstenção tinha vencido as eleições. O problema é saber como é que a abstenção iria exercer as funções de PR.

  7. Quem ganhou foi a ABSTENÇÃO por maioria absoluta e á primeira volta! A televisão só é vista por malta com mais de 35 e mesmo assim… Em Chelas, Rans ou no Chiado a juventude vê filmes vê séries vê youtubes mas “Televisao” não vêm. É uma questão de tempo.
    Já não existe o clássico da família a ver televisão. Uma imagem já passado. Não conta para nada. Nem a televisão nem o Marcelo. O importante é que daqui a 3 meses vamos voltar a ver primavera.

    1. “O importante é que daqui a 3 meses vamos voltar a ver primavera.”
      eu acrescento: e com ela regressarão os adorinhões que fazem os céus de lisboa únicos.
      Venha Primavera!

  8. Estou admirado, mas partilho da opinião do Francisco Louça. Certamente não é culpa das televisões terem saído dois candidatos do espectro socialista e nenhum ter o reconhecimento e credibilidade da população. Certamente não é culpa das televisões o candidato comunista ser um desconhecido que nem o seu eleitorado conseguiu convencer. De facto a única oposição que Marcelo teve veio do BE, onde a candidata, goste-se ou não, conseguiu pelo menos manter fieis os seus eleitores. Mas não chega. Para Marcelo, com o reconhecimento público que tem e com a falta de oposição, estas eleições foram um passeio no parque.

  9. É tudo percepções e suposições. As minhas dizem-me que a TV fez toda a diferença. Daqui a dez anos, quando tivermos o Gouxa a candidato, tiramos as dúvidas.

  10. Inteiramente de acordo com a análise. A TV pode até ter o efeito contrário, pode expor e desmontar mitos. Veja-se o caso do António Costa que se viu a braços com uma exposição prolongada e desgastante, não desejada, desde a campanha para as primárias do PS. Não se pode enganar o mundo inteiro o tempo todo, por muito artifício que se use.

  11. Parece-me que a acção de “multiplicar”, por si só, pode ser mais que suficiente para determinar um vencedor.
    São as televisões, que sem qualquer critério democrático estabelecem as três divisões do campeonato, e a partir daí, tudo vale no que toca a sondagens arbitrárias e sem paralelo com o real.
    É uma tremenda desvantagem, que aliada à multiplicação que refere, vicia de forma inapelável os resultados.E penso que o que se quer são eleições justas e não o buscar de um mérito por começarmos na última casa de partida, acabando ainda assim, no pódio.É injustificável e roça o ilícito, que Marisa Matias, tanto quanto sei, não tenha aparecido à frente de Maria de Belém em qualquer sondagem. Por esta e por outras, penso que a esquerda devia ser mais reactiva a este tratamento que os media lhe presta, em vez de achar que fazendo-o poderá dar uma imagem de alguma fragilidade.
    É que depois ainda há outra:Não só em período eleitoral, como quotidianamente, há uma tipificação da mensagem mediática, sempre idêntica, de forma a inquinar e a moldar o pensamento. O Francisco Louçã descreve-o bem nos Burgueses em algumas das suas vertentes.
    O cidadão ainda consegue votar conscientemente?Pode conseguir.Mas não subestimaria este poder mediático e alguns contornos irreversíveis que já comporta, que serão sempre nefastos para qualquer ideia digna de democracia e de soberania popular.E esse ponto na minha opinião, deve ser o inicio do debate, ainda que isso possa ser visto como algo mais lírico.

  12. Vitorino de Rans, em quem ninguém “bateu”, teve a votação que teve por ser ele próprio ou foi reflexo das audiências e do espectador-tipo do Reality Show em que participou ? Há diferenças entre as audiências televisivas de Marcelo e as dos reality shows ? É também um caso a “reflectir”. E de todos os candidatos, Marcelo era o que aliava a “boa-figura” simpática e aparentemente afável ao traquejo televisivo e ao dom da palavra. E não sei se também não terá beneficiado por ter sido o “bombo-da-festa”, sem se vitimizar e sem perder o ar aparentemente cordato. Em tempos Rangel perdeu as boas graças de Balsemão ao dizer que com uma campanha publicitária conseguiria na TV “vender” um Presidente” como se vendesse sabonetes.

  13. Em Novembro de 2015, antes da campanha eleitoral, as sondagens já indicavam que Marcelo teria a metade dos votos que teve. Partiu para a corrida muito à frente de todos. Já era o vencedor à partida e a campanha não teve influência no resultado. Beneficiou de não ter tido opositor forte no PS. É uma figura política forte desde há muito tempo, mas não mais que Louçã e outros políticos; mas isto não bastava. Foi um vencedor pré determinado, porque teve anos de presença televisiva, que usou com mérito. Neste sentido, o personagem (televisivo) já lá estava. Durante a campanha a TV limitou-se a multiplicar o seu reconhecimento, como o dos outros candidatos.

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