Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

11 de Janeiro de 2016, 13:09

Por

Os bons e os maus: o novo maniqueísmo da política portuguesa

Todos os dias o Governo decide. Quero dizer, “descide” e reincide. Com uma pressa inusitada. Umas vezes a reboque do BE, nas questões fracturantes, não vá o diabo tecê-las. Outras vezes, numa mistura de algum revanchismo e precipitação, como é o caso das medidas sobre avaliações no sistema público de educação (sobre estas conto escrever um post). Outras ainda, acelerando o ritmo da reversão de algumas medidas de austeridade fiscal e de rendimentos, mesmo que ainda sem Orçamento para 2016. Além disso, apressa-se a eliminar o quociente familiar no IRS. E os feriados aí estão, frescos e repristinados, com a ironia de esta união das esquerdas incluir os religiosos. Também sem sabermos quanto é que nos calha pagar, o Executivo tenta manter a TAP maioritariamente nas mãos do Estado e reverte as subconcessões na área de transportes. Rápido foi também na resolução do BANIF sobre a qual, porém, se deve aguardar o resultado da Comissão Parlamentar de Inquérito para dilucidar muitas dúvidas e algum nevoeiro explicativo.

Não discuto a bondade de algumas destas tomadas de posição, em particular a progressiva eliminação da sobretaxa no IRS e a reposição dos salários na função pública, bem como a redução em 50% da CES sobre os pensionistas (a única que coincida nos programas do PS e do PàF). Ou o aumento do salário mínimo nacional.

Fui crítico de muitas medidas injustas tomadas pelo Governo de Passos Coelho. No entanto, o que me parece é que, agora, tudo está a ser feito com óbvia correria e ligeireza, com aquele sabor populista e algo ingrato para o anterior Governo, que, concorde-se ou não, permite agora a Costa a habilidosa reversão de decisões que foram tomadas no âmbito de um programa de ajustamento (por sua vez, imposto por uma anterior governação socialista). Entretanto, Sampaio da Nóvoa agradece e Marcelo Rebelo de Sousa tacticamente acompanha. A Europa está cautelosamente apreensiva e os investidores desconfiam sobre o modo como o Estado age entre Governos, ziguezagueando entre decisões e “desdecisões”.

O resto, o difícil e estrutural, aguarda. Talvez siga dentro de momentos, depois de esgotado o foguetório e a publicidade das boas medidas.

Nesta propaganda, incute-se a ideia que, de um lado, estão os bons, do outro lado, os maus, ou seja a nova versão maniqueísta da política portuguesa. E se alguma medida menos simpática for tomada, a culpa não será deste Governo dos bons, mas antes dos maus. Um acordo para governar tão impressivamente gizado na generosidade dos bons, mas com a necessidade de obter a condescendência dos maus para o que não interessa aos bons (como no Orçamento rectificativo).

Comentários

  1. A ligeireza da governação do PSD/CDS ao longo destes 5 anos é assustadoramente branqueada pelo articulista. Cheguei a pensar que o douto era um social – democrata convicto, e um homem para o qual a ética não é uma palavra vã, mas estava obviamente enganado.

  2. A fatura das políticas expansionistas de Costa e Centeno já começam a chegar. Hoje soube-se que o Estado teve de rever em alta o financiamento entre 2016 e 2019. Supera os 70 mil milhões de euros. Ou seja, mais do que o financiamento da Troika. E falta ver como vai evoluir a taxa de desemprego, o investimento, o crescimento do PIB, a balança comercial e etc. Quando começar a chegar a conta para pagar então falamos. Até aí espero sentado, mas sem grandes ilusões acerca da política económica deste governo abençoada pela nossa Esquerda. Lá para maio, junho, falamos…

    1. Até lá espera sentado na esperança que lhe caia tudo em cima. É de um patriotismo louvável digno de registo. Francamente.

    2. Não vale a pena ter qualquer espécie de ilusões, Portugal voltou a engrenar a primeira velocidade face ao precipício. Só gente estúpida irá sofrer da ilusão de que o veículo irá voar desta vez. Isto é tanto mais grave quanto a receita é sempre a mesma, e os tolos sempre esperam o resultado que o vigarista de serviço lhes promete. Mas o resultado vai ser a aterragem na Portela de Sacavém do FMI. Mas desta vez eles não virão sorridentes e benevolentes. Todo o jerico que aqui apoia o governo de usurpadores em funções ainda irá ter saudades da Troika soft de 2011. Mas atenção, a coisa pode demorar alguns meses, dependendo do ambiente nos mercados internacionais, que agora está completamente a favor dos devaneios tugas. Claro que quanto mais demorar, mais caro sairá.

  3. A saber: a reposiçao dos salarios e pensões era já uma medida do anterior governo, embora com outro faseamento. A reposiçao de feriados também. O progressivo aumento do salário mínimo idem (aliás, mesmo em plena crise, eles foram aumentados em 20 euros, como se sabe). Portanto, nada de novo. Difícil foi governar a ter que sair de um défice de quase 8% para um de 3% sem provocar nenhum terramoto nos mais desfavorecidos, uma vez que as pensões e os salarios mais baixos não foram alvo de cortes. E o preço dos medicamentos baixou significativamente, dada a redução da margem de lucro imposta pelo governo aos laboratórios e farmácias. Agora que o défice está a 3% ou menos e que as exportaçoes se afirmaram em crescendo por dois anos e meio consecutivos, difícil é deixar ir tudo por água abaixo. Mas não me admiro se assim for: muitas como esta da supressão das avaliações criteriosas para um modelo q ninguém percebe e q não tem o mínimo de ponderaçao (já para não dizer de ausculta democrática) e vai tudo de carrinho, no caminho do porreirismo, tão caro ao PS de Costa.

    1. A Maria está equivocada, a reposição dos salários e pensões era uma medida “eleitoral” do anterior governo, não faça confusões, é preciso distinguir as intenções eleitorais da política consequente e formal. Quanto ao défice que terá passado de 8% para 3%, sugere-me perguntar se esse diferencial altera ou consubstancia o sentimento dos portugueses no que concerne a sua qualidade de vida? A Maria parece ignorar que o défice é um instrumento do qual se serve a economia para melhor a performance da qualidade de vida, se o crescimento é fraco, é fazendo investimento público que se dinamiza a economia, logo o défice aumenta, será isto um mal? Já as exportações que tanta vaidade ilustram no imaginário português, elas reflectem melhor que nenhum outro indicador a opção deliberada de matar o mercado interno (não confundir com consumo interno), elas reflectem a opção pelos salários baixos e pela consequente preferência por produtos importados que são subsidiados e naturalmente mais baratos. Tudo isto é tão contraditório porquanto os governos dizem estar a equilibrar a balança comercial (…), por um lado incentivam as exportações e por outro confinam o poder de compra dos portugueses ao consumo de produtos exógenos. Isto é economia?

  4. Bagão Felix que me perdoe, mas acho esta crónica um acervo de pouca lucidez. Se os membros deste governo achavam que determinados actos do anterior governo foram de uma vil injustiça para os visados, coerência é colocar as coisas no lugar certo e depois assumir e resolver a suas consequências. Ao invés, como o senhor mesmo afirma, julgou injustas certas iniciativas do anterior governo e agora pede clemencia para o governo que as teve, não acha que há aqui algo distúrbio no raciocínio? Afinal. o que antes se fez injustamente torna-se provavelmente justo com o tempo, sobretudo se for um governo que prometeu, a seu tempo, repor a situação sem condições e a fazer justiça. Mas este raciocínio encontra-se, de fio a pavio, em todo o discurso da direita. Veja-se o leme exemplar de António Saraiva (patrão dos patrões): “a reposição dos feriados deve obedecer à consulta prévia dos agentes sociais…”. Que me lembre não o ouvi clamar a esta “norma” quando os retiraram.

  5. Na verdade, as medidas do governo não são actos de governação: São actos de propaganda da campanha eleitoral verdadeira que está em curso.

  6. Este artigo mostra-nos claramente a “indigestão” sentida pelo seu autor (e pela direita portuguesa) sobre a justa reposição de princípios e valores que foram desrespeitados e desmantelados pelo anterior governo de Passos/Portas.

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