Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

10 de Janeiro de 2016, 10:11

Por

A vã glória do champô anti-idade

tipos_de_shampooO couro cabeludo é, certamente, uma das partes do corpo que melhores oportunidades de comércio dão para produtos a ele associados. Desde logo, para dar alguma esperança a quem o adjectivo acoplado ao dito couro vai sendo uma miragem. A calvície, tornada clinicamente uma forma de alopécia, tem, por isso, um vasto campo de presença com produtos miraculosos, reversíveis e outros mais humildemente apenas retardatários da sentença anunciada.

Depois, há toda a parafernália de amaciadores, condicionadores e outros cremes que, em marcas selectas ou brancas, se vendem abundantemente. Muitas vezes, em campanhas de progressão geométrica ou aritmética, das quais os sempre presentes slogans “leve 2 e pague 1” ou “2 em 1” são a forma simpática para compensar outros produtos cosméticos em que verdadeiramente se pagam 2 para trazer 1.

Mas agora quero sobretudo falar de champôs. Começo pela palavra que, de acordo com o Ciberdúvidas, é a forma aportuguesada, e já dicionarizada em Portugal, do termo inglês “shampoo” (derivado do hindustani “chhámpná”, que quer dizer “massajar”).

Bem sabemos que há muitas gamas de champôs (aqui, literalmente, pode dizer-se que todos são topo de gama, dado o seu uso para o ponto mais alto do nosso corpo): para cabelos oleosos, secos, finos, lisos, crespos, frágeis, quebradiços, caracóis, grisalhos, anti-queda, anti-caspa, anti-resíduos e outros mais. De cores variadas e de cheiros múltiplos. Há quem diga que a mulher é mais criteriosa quanto ao tipo de champô e o homem mais sensível à escolha pelo cheiro. Ah, ia-me esquecendo: há ainda o champô para cabelos … normais, que suponho de difícil e anormal definição face a todos os outros…

Mas, há dias, deparei com uma nova gama (pelo menos, para mim): champô anti-idade! Fiquei confuso. Anti-idade? O que quer dizer? Contra a idade? Partindo do princípio que “contra a idade” não é o mesmo que falar da morte (definitivamente contra a idade), então quererá dizer que convida o couro cabeludo a revoltar-se contra a própria idade para se afirmar como a parte mais nova do nosso corpo (e assim batendo os dentes que têm menos uns anitos de vida do que nós que, antes, tivemos os de leite…)?

São assim os tempos hodiernos. Pessoas zangadas com a idade, resmungonas com os anos, auto-depreciando o andamento da vida, querendo lutar contra a natural evolução do corpo, implorando rejuvenescimentos exteriores para envelhecimentos interiores. Já dizia Paul Valéry que o que separa a alma do corpo é a vida, não a morte.

E tudo isto porquê? Porque o primado do que é novo se impõe ao respeito pelo que velho já é. Já lá vai o tempo em que se dizia, com sábio gosto popular, que velhos são os trapos ou se falava de uma velha tradição, uma velha amizade ou um velho país. Hoje propende-se a exaltar muito mais as novas ideias, um novo país, um novo produto ou uma nova técnica. E agora um novo corpo, tipo “odre novo em vinho velho”.

Vai daí tudo o que se aproxime falaciosamente de elixir pode ter sucesso. Estética, cosmética, sinalética, sinergética, sintética, patética, atlética andam agora sofregamente de mãos dadas por causa de genética.

Dirão: todo este arrazoado por causa de um champô anti-idade? Sim, terei exagerado, talvez por causa da idade.

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