Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

8 de Janeiro de 2016, 16:22

Por

Quando não se aprende com os erros….

George Soros afirmou ontem que a turbulência que se vive em dias recentes nos mercados financeiros se parece com a que ocorreu em 2008, sugerindo que estamos na iminência de uma nova crise financeira. Segundo Soros, o problema provém das políticas económicas seguidas pelo Governo chinês.

Em 2008-2009 a China – cujo modelo económico, até então, era procurar organizar a sua economia adoptando uma política mercantilista, virada para as exportações – confrontada com a crise financeira internacional adopta um programa de investimento em obras públicas, mas reforçou também os estímulos à construção pelo sector privado.

Só que a China exagerou na dose:

– Foram construídas cidades novas inteiras, quase sem habitantes. Por exemplo, em 2010 estava em construção espaços de escritórios comerciais suficientes para dar a todo o homem, mulher ou criança um cubículo de escritório comercial de 1,5mx1,5m, como se toda esta gente viesse um dia a trabalhar em escritórios e não existissem quaisquer outras actividades económicas, e.g, agricultura, indústria, restaurantes, lojas, supermercados, etc.

– A bolha do imobiliário entretanto “estoirou”;

– Em sua substituição, a partir de meados de 2014, as autoridades chinesas adaptaram o seu modelo económico de forma marginal e, se não encorajaram, pelo menos toleraram uma bolha bolsista com um nível de fraude e manipulação sem precedentes: alguns grandes especuladores manipulavam o preço das acções para que estas subissem todos os dias. E, com muita dívida à mistura, criaram-se novos impérios de novos multimilionários com pés de barro;

 

índice Shangai

Fonte: Bloomberg, índice compósito da Bolsa de Shangai

– A bolha bolsista “estoirou” em Junho de 2015, acompanhada por uma fuga de capitais maciça, de um nível sem precedentes, e por intervenções oficiais de várias centenas de milhares de milhões de euros e desvalorizações sucessivas da moeda, com o objectivo de procurar estabilizar, tanto as fugas de capitais como o mercado bolsista.

 

Mas creio que, além da China, há outro problema ainda de maior dimensão.

Enquanto a China respondeu à crise com um misto de medidas expansionistas à economia real e “estímulos” ao mercado bolsista e ao mercado imobiliário, o Ocidente respondeu à crise sobretudo com um misto de políticas de austeridade e de ajudas maciças ao sector financeiro, nomeadamente através de política monetária expansionista (com a excepção dos EUA).

De facto, na sequência das diversas “G20 leaders’ summits”, os principais países desenvolvidos do ocidente responderam à crise financeira internacional procurando manter o status quo a todo o custo, injectando quantias imensas de dinheiros públicos nos grandes bancos internacionais, mantendo-os intactos ou quase intactos, como gigantescos zombies. Porém, entretanto, a economia real continua com crescimento anémico e elevado desemprego, em especial, nos países da União Europeia.

E, os bancos centrais dos principais países desenvolvidos adoptaram políticas monetárias não convencionais que, na prática, resultaram numa distorção de preços de activos financeiros, nomeadamente de acções e obrigações. Quase até parece que o objectivo da política monetária dos últimos anos foi corrigir a queda da bolsa de 2007-2009, e levá-la a atingir novos picos. Como se esse efeito de “riqueza” fosse suficiente para relançar a actividade económica.

Por conseguinte, chegados ao pico ou próximo dele, a vista é vertiginosa. E as operações financeiras cada vez mais arrojadas que presenciamos são disso sinal.

 

Comentários

  1. Ricardo Cabral parece descrever o monstro ignorando o que o move, de que é que ele se alimenta e o que o é o seu móbil. A china fez exactamente o que sustentam os manuais de economia, praticou uma política expansionista para sustentar a sua industrialização frenética e consolidou uma aproximação aos países de potencial crescimento no século XXI, a África tem esse potencial. O investimento mirabolante no imobiliário não difere um hiato do que se praticou e pratica no ocidente, as grandes cidades estão a abarrotar de espaços comerciais devolutos e sem utilidade possível, mas continua-se a investir em grandes aglomerados comerciais com vista à terciarização da actividade a nível global, a ”Uberização”. É tempo de perceber que num modelo capitalista de primazia financeira não há escolha possível, é continuar a investir e a rentabilizar o investimento seja de que forma for, a performance económica há muito deixou de preocupar os barões da finança e a própria teoria económica serve-lhes de feição para garantir a manipulação dos ideais de crescimento do bem-estar social, é acreditando que a economia é a chave do progresso que os políticos nos enganam (muitos enganam-se a eles próprios) e propiciam este avolumar de crises e recessões que vão sustentando as grandes fortunas e depauperando a grande massa de cidadãos adormecidos. A solução está no empenho dos cidadãos no processo de chamar a si o interesse das actividades, as multinacionais são o contrário do interesse endógeno, nenhuma empresa chamada a distribuir dividendos de forma anónima tende a beneficiar as populações locais, é um contra-senso caro à teoria económica e o resultado pode ser verificável numa região interior onde dois ou três supermercados sugam e secam os recursos da região, matando o comercio local que consumia e investia na própria região, gerando riqueza e beneficiando uma indústria consolidada no empenho e no interesse da comunidade (quando assim não é elas deslocalizam-se). Ver em grande é vender a alma ao diabo e é precisamente ao que nos levam as políticas macroeconómicas da finança mundial e a competição desenfreada que essas políticas fomentam no comércio e na actividade em geral. O futuro do bem-estar são as regiões, centradas num inequívoco apelo ao bem-estar da comunidade, alheios à competitividade e às doutrinas do progresso-que-nunca-chega tão simplesmente porque a competitividade o impede de se instalar, a competitividade é um processo nómada, o contrário do bem-estar que é sedentário e convida à comunidade.

  2. Há mais do que diz Ricardo Cabral. As políticas que ele descreve da China e dos EUA são ambas desastrosas, mas no caso ocidental o dinheiro criado não chegou sequer à economia privada, porque até as acções e obrigações já não são detidas por privados. O destino do dinheiro tirado do nada foi diferente, mas o que interessa é que não foi aplicado na satisfação das reais necessidades económicas dos povos, que foram em ambos os casos ignoradas. A figura mais triste de toda a tragédia é o presidente Obama, que prometia ajudar a Main Street, e não a Wall Street. Passados oito anos, podemos bem dizer que falhou. Penso que o professor Milton Friedman se atreveria a dizer que falhou miseravelmente. Mas eu não sou americano, deixo isso para eles!

  3. As Moedas são entes abstractos (como os graus, os grados e os radianos) que o Dinheiro permite concretizar (tal como os transferidores o permitem concretizar as unidades de arco).

    Para evitar o caos as unidades monetárias devem estar padronizadas e serem inter-convertíveis, tal como acontece com as unidades de arco.

    Imagine-se o que aconteceria se uma circunferência tivesse 359 graus às segundas, quartas e sextas, 361 às terças quintas e sábados, e 360 aos domingos, para comemorar.

    Ou se o valor do grau pudesse “deslizar” face ao do radiano…

    1. Os Áureos de ouro, caro Liberal, equivalentes a 25 Denários de prata, foram, tal como os Soldos, os Maravedis, os Dobrões, os Soberanos, materalizações de uma determinada moeda. São os equivalentes dos “metros”, inicialmente cópias de uma barra de platina-irídio, o “metro padrão”.

      Um dos problemas conceptuais com que os economistas e financistas se parecem debater, caro Liberal, é o problema da confusão entre a coisa e a sua medida: Eu tenho uma determinada altura, a coisa, cuja medida são 180 centímetros ou 5 pés 11 polegadas. Uma coisa é “a coisa”, outra coisa é “a medida da coisa”.

    2. Essa confusão entre a coisa e a medida não existe em Ciência, sendo a matemática puramente abstacta, caro Álvaro Aragão Athayde. Já quanto a um economista ser um cientista… Ai, e estou a dizer isto no blogue do pobre do Ricardo Cabral, que é inocente de superficialidade económica. Perdoe-me Ricardo, esta não era para si.

    3. «Essa confusão entre a coisa e a medida não existe em Ciência, sendo a matemática puramente abstracta, caro Álvaro Aragão Athayde.»
      Não existe na “Hard Science” ou na “Soft Science, caro Liberal?
      Quanto ao Ricardo Cabral não se amofine, caro Liberal, ele é engenheiro.

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