Tudo Menos Economia

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Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

7 de Janeiro de 2016, 08:01

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Dispenso a fotografia do autor de um livro ocupando 70% da capa…

livros-feriasNa edição de novos livros, entrou definitivamente na moda a prática de, na capa, o elemento que mais sobressai ser o rosto do autor ou da autora. Há mesmo casos em que, para descobrir o título da obra, vemo-nos em palpos-de-aranha. Ou seja, a hierarquia visual é a seguinte: fotografia do autor em primeiríssimo lugar, depois o seu nome e, por fim, lá vem o nome da obra. Às vezes, acompanhado nas badanas por auto-referências que tresandam a gabarolice. E, como se não chegasse, há, ainda, o recurso às cintas promocionais que envolvem o livro.

Sinais dos tempos onde o que conta é a circunstância e não a essência, a forma e não a substância, a aparência e não a valia do livro? Exigência das novas técnicas de venda e de marketing num país onde muita gente não vai às livrarias, antes passa pelas livrarias para ver capas e escolher um livro em função das mesmas? Casamento de conveniência entre o marketing da editora e o espelho vaidoso do autor (a maior parte das vezes, autores iniciáticos ou não consagrados)? Ou nada disto, e sou eu que, neste contexto, sou um bicho-do-mato?

Percebo esta lógica quando se trata do rosto de um biografado (que não do autor), mas acho desajustada (às vezes, mesmo ridícula) a profusão desta prática que mais parece a de um álbum fotográfico. Não está em causa a importância da capa e da contracapa do livro. Há notáveis exemplos que, só por si, nos impelem a parar e pensar. O design de um livro faz parte dele e tem iniludível importância não apenas comercial, como também estética e figurativa. Desde que, lucidamente, não se inverta a importância das coisas.

Sem cometer a injustiça de generalizações abusivas, nalguns casos, isto faz-me lembrar o que disse Carlos Drummond de Andrade: “Há livros escritos para evitar espaços vazios na estante”. Cada vez mais com fotografias tipo passe ou de braços cruzados, um sorriso “pepsodent” ou pose de Estado, sempre com a ajuda tecnológica do Photoshop.

Comentários

  1. Eu também dispenso e do milhar (provavelmente) de livros que constituem a minha biblioteca, é com orgulho que afirmo não ter nenhum com o autor na capa. Minto. Nalguns livros de cozinha isso acontece.
    as culpas também é das editoras, a minha favorita, a antigona, não faz isso. A maior parte dos clássicos também se encontra defendida nessa questão. Ouvi na televisão, aquela senhora “meio antipatica” a do eixo do mal que agora publicou um livro com a cara dela na capa a dizer que tinha pensado escrever sob pseudónimo e que a editora não deixou. É portanto a televisão que vende os livros.

  2. São os tempos facebook, caro Bagão Félix! Eu nem sequer leio livros escritos em acordês, pelo que deixei de frequentar livrarias e a feira dos livros. Constato que os livros que ainda vou lendo são em inglês e francês. Mas hoje o tempo é do novo brinquedo, a internet! Com os seus encantos também, que a era virtual veio trazer para as almas… Saudações e continue a “blogar”!

  3. Realmente tenho reparado. No entanto, as conclusões que tiro, porventura menos acertadas, são diferentes:
    Na capa de um livro devem figurar varias informações, por ordem de importância. Ora, se o autor é a coisa mais importante do livro, o assunto, e consequentemente o livro, são secundários.
    Sou apologista de que devem ser as obras que engrandecem o respectivo autor, e não o contrário. Assim, num livro em que o autor aparece em claro destaque, este torna-se valioso somente para completar a colecção das respectivas obras.

  4. Subscrevo inteiramente o que diz sobre a generalidade das capas dos livros que se publicam. Parecem-me de um narcisismo doentio e de muita falta de gosto. Mas o pior, talvez nem seja isso. O pior no nosso panorama editorial é a forma indiscriminada como se publica literatura boa e escrita que não passa de lixo. Outrora, esta estaria relegada à gaveta do autor ou a qualquer vulgar coleção azul; hoje, não, embora felizmente ainda haja muitas exceções, reconheço. Thomas Mann, ou Virginia Woolf hoje, em Portugal, poderão encontrar-se lado a lado das modernas Corin Tellado, sem que nada distinga uns dos outros, nem coleção, nem capa, nem arranjo gráfico, nem editora, nada. Além de que existem cada vez menos livrarias de fundos e tudo já circula nas estantes dos postos de venda ao ritmo das novidades semanais. Já para não falar das inúmeras «vanity press» que proliferam como cogumelos, – a Chiado Editora é rainha neste aspeto – , e onde qualquer um pode publicar desde que pague a sua edição e a vaidade de ver o seu texto impresso com fotografia na bandana. Pergunto-me como é possível que a maioria destes «autores» não core de vergonha ao reler as inanidades que decidiram dar ao prelo.

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