Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

4 de Janeiro de 2016, 08:27

Por

O uso do pá, tipo, desapareceu

Uma refeição desta época de Natal, com as várias gerações da família, permite um momento raro de observação das bengalas da língua falada. Dizia-me a Ana, quando saímos: “já reparaste que o ‘pá’ desapareceu? Agora é ‘tipo’”. Pois é.

O “pá” foi o bordão da fala da nossa geração, a interjeição seca que marcava o ritmo das frases. A emoção aumentava a frequência dos “pás” e, em algumas pessoas, ela era obsessiva.

Helder Guégués, no seu blog, dá, entre outros, estes exemplos de textos de Lídia Jorge e de Manuel Alegre com o “pá”:

“Pá, oh pá, estava eu com a bandeja em frente da copa e vieram dizer. Pá. Porra que vais ser um gajo de sorte. Com tanta coisa a dar-se, vais ver que te escapas de lá ir, pá” (O Cais das Merendas, Lídia Jorge. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 6.ª ed., 2002, p. 71).

D. Diogo, com os seus olhos muito azuis, sempre a sorrir, mesmo quando se zangava, perguntou com a voz sumida que tinha, como se viesse de fora para dentro: Ó pá, o cachimbo? Essa agora, respondeu o meu pai, que é que tem o cachimbo? Os outros olhavam, suspensos. Então o meu pai desconfiou: Que é que há? Nunca me viram fumar? E lá se decidiu. Quando acendeu o forno, o cachimbo disparou a rabiar [sic] que nem um foguete. Foi um pagode” (Alma, Manuel Alegre. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 10.ª ed., 2004, pp. 91–92).

“Pá” será uma contracção de “rapaz”, segundo os dicionários, mas esta referência perdeu-se, pois se passou a aplicar a todo o tipo de situações, géneros e idades. “Pá” tornou-se assim uma bengala (isto, pá, é uma frase, pá, não percebes?), um vocativo (oh pá) e uma interjeição (ena pá) com tons que vão da simples pontuação à ênfase mais marcada. Será talvez uma expressão única pela sua plasticidade em circunstâncias tão diferentes:

“Acho interessante porque nós não temos um equivalente exacto em inglês. Pois, temos ‘dude’, ‘man’ e outros, mas não se ouve um velhinho a dizer ‘hey, dude’ ao seu neto como se ouve um avô português a dizer ‘então, pá’. Há um termo equivalente no Brasil…que abrange todos os níveis da sociedade? Se calhar ‘cara’?”

Mas, ao contrário do “cara”, o “pá” desapareceu, é hoje uma raridade de museu. O que mostra como em poucas décadas a mesma geração pode perder um termo que era tão comum – era uma identificação de comunicação em sociedade e que permeava várias classes e grupos – e transformar ou adaptar a sua linguagem.

O que essa geração não consegue, contudo, é adaptar-se ao termo que substituiu o seu bordão. “Tipo” é esse termo e não sei como e de onde foi trazido para a fala dos jovens. Leio que é do Brasil que vem essa “expressão idiomática, indicando miséria vernacular absoluta”, como se escreve com alguma ligeireza irritada num dicionário.

Escreve Pedro Mateus, no seu blog Ciberdúvidas:

“Assim, à falta de melhor, eu arriscaria (de forma algo aventureira, tenho essa consciência) inserir esta expressão no grupo dos chamados marcadores discursivos: ‘unidades linguísticas invariáveis, com alto grau de gramaticalização, que não desempenham uma função sintática no âmbito da frase, nem contribuem para o sentido proposicional do discurso, mas que têm uma função relevante na produção dos atos pragmático-discursivos, estabelecendo conexões entre os enunciados, organizando-os em blocos, indicando o seu sentido argumentativo, introduzindo novos temas, mantendo e orientando o contacto do locutor com o interlocutor’ (Dicionário Terminológico), mais concretamente no subconjunto dos marcadores conversacionais ou fáticos (‘ouve’, ‘olha’, ‘presta atenção’, ‘homem’, etc.) (Dicionário Terminológico, idem).”

O tipo fará o seu caminho e extinguir-se-á, ou não. Seja como for, tipo, o uso do “pá” tipo já desapareceu.

Comentários

  1. Discordo da ideia deste «tipo»! (sem ofensa!)
    O «pá» foi um icon discursivo dos baby boomers uma afirmação de ruptura com a geração anterior,,do qual no pré e pós Abril se usou e abusou, designadamente nos meios de esquerda! Hoje parece ter entrado em velocidade cruzeiro e os meus filhos usam-no com frequência e naturalidade com conta peso e medida e não com o exagero com que o pai o usava naqueles tempos.Quanto ao «tipo» usam-no com ironia. Dão-lhe ênfase para mostrar que foi artificialmente introduzido no discurso com o intuito de criticar!

    1. É um testemunho fascinante. Mas a maior parte dos jovens não usa o “tipo” com ironia, mas mesmo como um bordão linguístico.

  2. O artigo está interessante. Contudo discordo do cair em desuso do “pá”. Eu uso e ouço frequentemente por parte de falantes de diferentes idades. Poderá eventualmente ter diferentes preponderâncias de acordo com as diferentes regiões. Porventura terá caido em desuso em Lisboa. Mas no norte continua bem vivo (e ainda bem).

  3. Tendo vivido por aí fora algum tempo devo dizer que a expressão tipo existe igualzinha (mesmo contexto e utilização) em italiano e na forma “como” em espanhol. Quanto à antiquidade do termo não faço ideia pá!

    Uma outra observação é que sendo do Porto, sempre notei maior utilização do pá em lisboetas – embora seja algo nacional!

    Um abraço pá!

  4. Com 3 filhos acho que o pá se mantém sim senhor, não tão abusado com outrora e que o pá tinha bem mais funções que o tipo.Parece-me que éxiste essencialmente para dar tempo ao orador para arrumar ideias, encontrar palavras e nunca terá o cariz emotivo do pá. Penso que “tipo” estará entre “coiso” e “pá”.

  5. O pá não desapareceu mas está a desaparecer. Não me preocupa muito porque, pá, como sempre afirmo a língua é dinâmica.
    Preocupa-me mais o uso generalizado do inglês no meio do português e ainda mais a maneira recente como as moças nascidas depois de 1998 se tratam uma às outras. Acredito que vcs não acreditem mas o que vos vou contar é a absoluta verdade: no outro dia depois do trabalho sento-me sozinho num banco de jardim e fumo um “xaruto”. Duas moças amigas (não mais do que 17 anos) em alegre cavaqueira pedem também para se sentar no banco. Chego-me para o lado e não posso deixar de reparar como se tratavam uma à outra num diálogo visivelmente amistoso e alegre. Era por “puta” ou “putinha” fiquei atónito. Fiquei sem insultos femininos pá. O típico insulto misógino já não colhe. Depois pensei; ó pá donde é que isto vem e a única coisa que me ocorreu é a tradução “não literal” do tão propagado e de mau gosto “bitch”.

  6. Como outro utilizador referiu, a semelhança com o “like” é evidente, like, totally. Apesar de ser recente, temos de perceber que os fenómenos de adaptação cultural fazem sentido em tempos de hiperexposição mediática de todo o tipo de conteúdos americanizados.

    Além disso, o “tipo” é algo mais necessário que o “pá”, por servir maioritariamente como introdução para a descrição de acontecimentos, sentimentos, pessoas, lugares, e o que é a nossa comunicação senão expressar e descrever algo que vimos ou sentimos? Claro que nunca temos a certeza de nada, e o “tipo” serve como almofada perfeita para desculpar qualquer exagero ou falha na comunicação.

  7. Olha pazinho, para te dar uma resposta assim mais tipo a brincar, acho que o pá não desapareceu, é assim tipo pele mais dura e era anterior à minha geração, quanto mais à tua. (É certo que os meus filhos o utilizam cada vez menos, sem terem adoptado o tipo; que se há fazer, pá?)

    1. É uma referência interessante. Mas o “like” existe há muito e o “tipo” foi recentemente adoptado.

    2. Concordo com essa sua referência ao “like”. É precisamente a mesma função, causa e consequência (criada por e para os jovens, estigmatizada e valorizada enquanto o uso se mantiver restrito aos jovens). E a utilização repetida do “tipo” ou “like” é perfeitamente compatível com o mascar furioso ou sensual da pastilha. Dar-lhe-ia nota dez (ao seu comentário), mas infelizmente escreveu “currente” ao invés de “corrente”. Não vou escrever piadolas com o rente-ao-traseiro sugerido pelo seu lapso, mas lamento que alguém que manifesta algum conhecimento da língua inglesa tenha escrito um erro deste calibre na língua-mãe. Em todo o caso, obrigado.

    3. Por outro lado para a popularidade do “tipo” (tal como a do “like”) contribui o facto de ter duas sílabas demarcadas por consoantes, o que soa bem mais inteligente do que outros enchedores de tempo para pensar que são monossilábicos, e com fortes características vogais como “aaaaa” e “eeee” em Português (e “aaaand” e “sooooo” em Inglês).

    4. Quanto ao erro ortográfico, caro Manuel, causa-me bastante embaraço pois sempre tive apreço por usar bem a língua. No entanto não uso o Português no dia-a-dia há 15 anos, o que por muito que não queira vai trazendo coisas destas. Por curiosidade, neste caso o erro também vem do Inglês, “current”.

  8. Acho que não. O “pá” não desapareceu, continuo a ouvi-lo todos os dias e a todas as horas, mesmo por jovens. O que terá eventualmente desaparecido é o “porreiro pá”. Também não estou de acordo com a ideia de que o “tipo” veio substituir o “pá”, uma vez que que são utilizados em contextos diferentes. O que não desapareceu foram os problemas do país, mas esses ainda temos mais um novo ano inteiro para os debater. A utilização obsessiva por alguns jovens do termo “tipo” é um tema mais importante do que possa parecer à primeira vista…

  9. Apenas que o “Pá” era um termo popularucho, enquanto que o “tipo” é um termo mais pseudo-queque…sinais dos tempos.

    1. Peço muita desculpa. Vou passar a submeter a censura prévia a escolha dos temas dos posts. Ainda bem que no novo ano se replicam as velhas manias dos controleiros, como havíamos de viver sem eles?

    2. Por que razão Francisco Louçã responde com ironia insultuosa sempre que a opiniao do comentador nao lhe agrada? Por que diabo responde dessa maneira ao comentário (esse sim, com alguma piada) de lj? Lá pq a criatura acha (e vão dois) que a prosa acerca do “pá” ou do “tipo” é absolutamente estéril, já é preciso chamar-lhe “controleiro”? Qualquer dia já não se pode abrir a boca a discordar do que seja! Custou-me a perceber mas já caiu a ficha: afinal os blogues são para elogio e para enaltecer o ego de quem articula, não são cá para perorar com pontos de vista diferentes. Se se cai na tentação, leva-se logo um epíteto dos bons que é para aprender a não ser desmancha-prazeres.

    3. Não sei que insulto exista na resposta (e escusava de lhe chamar “criatura”, ou não lhe parece simplista?). Ironia com ironia se paga e ficamos todos com a cabeça entre as orelhas. É certo que acho curioso quem prefira classificar a escolha dos temas; se eu achasse o tema pouco interessante, ignorá-lo-ia; se achasse o tema interessante, comentá-lo-ia. Creio que há arrogância em exigir o tema da preferência do leitor (tanto mais que ele é só o tema mais tratado no blog, pelos três autores, veja-se o caso do Banif).
      Não, os blogs não são para concordar, são para opinar, e este é o melhor exemplo que existe na imprensa portuguesa.

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