Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

2 de Janeiro de 2016, 12:16

Por

“Vence a indiferença e conquista a Paz”

Em 1 de Janeiro, celebra-se o Dia Mundial consagrado à ideia da Paz. Como acontece desde 1968 e por iniciativa do então Papa Paulo VI, a Igreja Católica através do Sumo Pontífice dirige uma Mensagem a todas as pessoas de boa vontade.

Para este ano – o 49º – Francisco escolheu o tema “Vence a indiferença e conquista a Paz”. Uma escolha muito conforme ao pensamento e à acção do Papa argentino. A indiferença é um dos grandes males das sociedades contemporâneas e, como tal, uma incubadora do conflito, da desarmonia, do egoísmo, do ódio e da crueldade. A indiferença é uma espécie de “via verde” para tudo o que significa a antítese do bem.

Indiferença que, aliás, tem expressão na relativa pouca importância que tem sido dada a estas mensagens na comunicação social e – espante-se – na própria Igreja.

E como na Mensagem está escrito, “hoje em dia, a indiferença superou decididamente o âmbito individual para assumir uma dimensão global, gerando o fenómeno da globalização da indiferença.

Indiferença para com o transcendente, para com o próximo e para com a própria criação, a nossa “casa comum” Por isso assume diferentes prismas. Volto a citar o Papa: “Há quem esteja bem informado, ouça rádio, leia os jornais ou veja programas de televisão, mas fá-lo de maneira entorpecida, quase numa condição de rendição: estas pessoas conhecem vagamente os dramas que afligem a humanidade, mas não se sentem envolvidas, não vivem a compaixão. Este é o comportamento de quem sabe, mas mantém o olhar, o pensamento e a acção voltados para si mesmo. Infelizmente, temos de constatar que o aumento das informações, próprio do nosso tempo, não significa, de por si, aumento de atenção aos problemas, se não for acompanhado por uma abertura das consciências em sentido solidário. Antes, pode gerar uma certa saturação que anestesia e, em certa medida, relativiza a gravidade dos problemas. Alguns comprazem-se simplesmente em culpar, dos próprios males, os pobres e os países pobres, com generalizações indevidas, e pretendem encontrar a solução numa “educação” que os tranquilize e transforme em seres domesticados e inofensivos”.

João Paulo II já chamara a atenção para o relativismo, o desinteresse, a apatia, a inércia o fechamento sobre nós próprios, associados à ideia da indiferença. Por isso, apelou constantemente à globalização da solidariedade.

O Papa Francisco, nesta sua Mensagem, explicita a ideia de fomentar uma cultura de solidariedade e misericórdia para se vencer a indiferença. E escreve: “A solidariedade como virtude moral e comportamento social, fruto da conversão pessoal, requer empenho por parte duma multiplicidade de sujeitos que detêm responsabilidades de carácter educativo e formativo”.

Tudo isto exige o que chama “a conversão do coração”. Uma conversão que não se legisla, não se administra, não surge por acaso. Uma conversão que exige uma cultura de valores e princípios de vida em sociedade, uma prática de serviço e de testemunho, uma firmeza de autenticidade e de exemplaridade, uma formação para o bem comum que é (ou deveria ser) património de todos.

O Papa, na parte final do seu texto, dirige um triplo apelo: “apelo a abster-se de arrastar os outros povos para conflitos ou guerras que destroem não só as suas riquezas materiais, culturais e sociais, mas também – e por longo tempo – a sua integridade moral e espiritual; apelo ao cancelamento ou gestão sustentável da dívida internacional dos Estados mais pobres; apelo à adopção de políticas de cooperação que, em vez de submeter à ditadura de algumas ideologias, sejam respeitadoras dos valores das populações locais e, de maneira nenhuma, lesem o direito fundamental e inalienável dos nascituros à vida”.

Comentários

  1. A indiferença é de facto um problema, tanto civilizacional como organizacional na medida em que uma comunidade só pode ser igualitária se todos participarem. Mas ela não é um fenómeno de hoje, ela existe desde que existe o “paradoxo de condorcet”, mesmo muito antes de ele ter sido descoberto. Entre dois indivíduos há duas escolhas possíveis e com um entendimento entre os dois podem chegar a um consenso para a escolha de uma só, mas quando se introduz um terceiro individuo (o paradoxo introduz aqui uma terceira escolha) a escolha torna-se problemática pois o entendimento entre dois indivíduos coloca o terceiro fora das preferências. Poderiam estar os três de acordo mas todos sabemos que na prática não é assim, quanto mais indivíduos são levados a exercer uma preferência, maior o grau de desentendimento. É assim que quando uma democracia produz o entendimento entre dois partidos em forma de conluio, ela afasta deliberadamente da esfera democrática todos os que não se revêem naqueles dois partidos. Está formado aqui, pela obstinação, um leito de indiferença que vai crescendo em bolha até…
    Mas não deixa de ser pertinente o alerta, é sempre bom lembrar que quando não se está de acordo, melhor que a indiferença é uma tomada de posição em contrário, podemos denunciar um abuso, alertar para um perigo, manifestar na rua, na rede social, podemos mesmo desobedecer a uma ordem contrária aos nossos princípios, tudo é preferível à indiferença…Mas Bagão Félix, podia aludir a ela sem uma cruzada no cristianismo, o papa não nos convence melhor que o senhor, creio até que é contraproducente, “espante-se – mesmo na própria igreja!” Estou certo de que Bagão Félix teria construído um texto mais bem estruturado e convincente, se liberto deste constrangimento.

    1. Com todo o respeito pela sua opinião, não posso deixar de refutar a expressão a mim dirigida “se liberto deste constrangimento”. Já escrevi noutro comentário que nem há superioridade moral e intelectual de quem acredita na transcendência, como não há essa superioridade por quem não acredita. Afinal, acreditar e não acreditar são os dois pólos do mistério e da nossa incapacidade humana para, só por si, certificar a posição de cada um.
      Ter fé e acreditar não é um constrangimento. Para mim, é um comprometimento livre e uma exigência sobre mim próprio. Libertadora.

  2. Não posso deixar de comentar pela negativa a censura implícita que faz à «indiferença para com o transcendente.» Não sou crente, sou ateu por pura lógica, e creio profundamente que nada de transcendente nos habita, nem ao Homem nem ao Universo. Tudo me aparece clara, e unicamente, apenas do domínio do contingente, do imanente e do material. Tudo o resto me parece domínio da fantasia. E como eu, milhões e milhões de pessoas pensam o mesmo por este mundo fora. O que é que tem de negativa uma posição como a nossa? Sofremos nós, por acaso, de alguma deficiência moral? Sinceramente não creio que os possuir uma visão transcendente da existência dote alguém de qualquer vantagem sobre mim no que à Ética diz respeito.

    1. Efectivamente, a condição de crente não configura garantia especial de comportamento ético.

    2. Manuel Gonçalves: crentes e não crentes reconhecem mutuamente que são possuidores das mesmas capacidades éticas e morais, mas estão condenados a acusar o outro, mesmo que polidamente, de estar a cometer uma enorme falta à verdade. Acho preferível esta posição ao estupido politicamente correto que vê tudo pelo prisma do relativismo. Um coisa existe ou não existe; não pode existir e não existir ao mesmo tempo. E com a transcendência passa-se o mesmo: ou o crente, ou o não crente, algum dos dois está enganado. Não podem estar os dois certos ao mesmo tempo. É bom que se aceite isto sem que no entanto nem uns, nem outros, se arroguem a algum tipo de superioridade moral ou intelectual perante o outro.

    3. Agradeço o comentário. Certamente não se estava a referir ao meu post quando fala de “deficiência moral” ou outras vantagens de quem crê sobre quem não acredita. Nada disso está escrito nem sequer implícito.
      Devo dizer, em primeiro lugar, que me referi ao transcendente porque me estava a cingir ao texto papal (Francisco, aliás, fala em Deus). Em segundo lugar, porque sou crente e, assim sendo, a indiferença para com Deus por quem Nele acredita é nefasta.
      Não tenho uma visão proselitista da religião. Respeito tanto quem crê, como quem não crê. A ética e a conduta de uma pessoa não está forçosamente ligada à ideia da fé. Nem há predestinados calvinistas. Mesmo para os crentes, não gosto de usar a expressão “ter fé”. A fé não se possui. Prefiro dizer “ser em fé”, ou seja que a conduta seja conforme os valores evangélicos.
      No entanto, o que hoje observo muitas vezes é a crítica impiedosa, por vezes soez, com que se analisa uma posição de uma pessoa que acredita em Deus. Nem o agnóstico ou ateu são “pessoas menores”, nem ser cristão (ou outra religião) é um “capitus diminutio”. No fundo estamos a falar da mais íntima liberdade de cada um. Para mim, o Criador fez-nos tão livres que até nos deu a capacidade livre de o negar.

    4. Muito obrigado estimado António Bagão Félix por se ter dado ao trabalho de responder ao meu comentário. A sua resposta parece-me bastante coerente. Também eu fico chocado com a agressividade da alguma militância ateísta que seria triste se não fosse ridícula. É um pouco tolo, da parte de quem não acredita, reconheço agora, sentir-se algo ferido com o facto de um crente considerar negativa a indiferença do Homem perante Deus. Acho que tenho de aceitar isso como uma consequência natural da coerência do pensamento de quem crê. Afinal «Amarás o senhor teu Deus, acima de todas as coisas», é o primeiro mandamento do qual ninguém está excluído, segundo o crente. Tenho de aceitar isso, mesmo que por vezes tal me irrite um pouco. De qualquer maneira, moralmente, os caminhos do crente e do não crente são ambos espinhosos. Aquele onde me meti é destituído de qualquer esperança consoladora. Um muito bom ano para si.

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