Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

30 de Dezembro de 2015, 15:00

Por

Revisitar Torga entre um ano e o seguinte

Até hoje, a humanidade ainda não criou nenhuma associação de angustiados. Nem podia.

Porque, no fundo, a angústia é íntima percepção da radical incomunicabilidade.

(Miguel Torga, 1907-1995)

 

getimageHoje, no que resta de 2015, volto a Miguel Torga. Num regresso à sua pena apurada nos anos oitenta. Nestas vésperas de Ano Novo, submergido na primazia da puerilidade e dos desejos por atacado, prefiro deixar-me envolver pela limpidez da razão e pela translucidez do olhar sobre o mundo de Torga. E, em jeito de paradoxo epistemológico, sossego o meu espírito através do seu desassossego. O autor dos “Diários” era uma alma poliédrica, simultaneamente rejubilante e amarga. De um pungente e inquietante sentido da terra, ora a descarnar a alma, reflectida e demoradamente, ora em itinerário de implacável e amargurada questionação através do seu cinzel granítico.

Torga sempre fez da autenticidade – esse bem notoriamente escasso e em vias de desaparecer – o seu fundamento para comunicar e para valorizar a eticidade da sua inegociável liberdade ontológica. Com sofrimento: “Sim, fui infeliz porque tive a sina de ser autêntico”. Ou, através de um aparente paradoxismo, “infelizmente sou uma desconsolação humana. Só presto para ser livre”.

Retiro do Diário XIV (1982-1986) o transbordante actualismo da sua palavra. Citando-o e deixando a quem ler este texto espaço para uma reflexão sobre a excelência, intemporalidade e profundidade do nosso escritor mais Nobel do que muitos laureados.

Sobre o tempo da vida (e a vida no tempo), escreve que “o futuro é concebido como uma síntese dialéctica da tradição e da invenção” para se definir como “sim, sou um nó de contradições: mas que seria de mim se o desatasse? Se, em vez de uma unidade na diversidade, fosse uma diversidade sem unidade?”.

A propósito do património da memória, sobre que reflecte com sadia obsessão, escreve que “ter memória é construir imediatamente um celeiro” para, de seguida, afirmar que “a memória é a faculdade mais precária que temos. E, no entanto, é só nela que o pretérito joga o seu futuro”. Com fundamentada ironia fala-nos, também, da falência memorial – hoje tão presente – para nos dizer que “o esquecimento é o único espaço onde os sucessos se eternizam”.

 À questão do envelhecimento, hoje glosado com a adjectivação tecnocrática de “activo”, Torga prefere a seriedade da lucidez: “a velhice é isto: ou se chora sem motivo, ou os olhos ficam secos de lucidez” ou, ainda, “ficamos velhos e na boca  o gosto de ser mudos”. Lucidez que ele alia permanentemente à ideia construtiva e regeneradora da dúvida porque “o meu drama foi viver a vida a duvidar sempre de mim”, com “medo do abismo aberto pela nossa própria lucidez”.

 Sobre o questionamento iluminado por uma incorruptível seriedade intelectual, lega-nos o seu pensamento sobre o labirinto misterioso da transcendência: “Deus: o pesadelo dos meus dias. Tive sempre a coragem de o negar, mas nunca a força de o esquecer”, para concluir que “no fundo, é do meu velho problema religioso que se trata. Nunca lhe dei uma solução capaz. Em vez de ser um crente adulto confiado, sou um temente infantil desconfiado”. E deixa-nos (deixa-me, enquanto crente) um aviso: “também no mundo do sagrado há rotina e cansaço”. Por isso, Francisco é hoje um protagonista da esperança renovadora.

 Neste breve percurso torguiano, ao mesmo tempo que deparamos com as agora omnipresentes técnicas de “marketing” na profusão de autores, livros e livrinhos, não resisto a citar algumas asserções sobre o próprio acto criador da escrita (“escrevo para que me leiam; não gosto, porém, de me ver lido”). Reflecte ele, em dois dos seus mais expressivos e belos pensamentos: “Um escritor, se é autêntico, se é fiel ao temperamento, varia de caneta mas não varia de tinta. Em novo ou em velho escreve com o próprio sangue. E resigno-me à ideia de ver o meu hemograma em cada página que me sai das mãos.” Ou de uma forma ainda mais teluriana, “eu sou um homem de impressões digitais, das mãos aos pés. O sulco do arado é tão impressivo para mim como o traço da caneta. Leio tanto numa lavrada alentejana como num livro”. Por outro lado, a sua frontalidade, não isenta de acidez, reflecte-se ao dizer que “A entronização dos escritores, agora, faz-se pela negativa. Quanto menos legíveis, melhor”.

 Seja-me permitido terminar este post com uma outra confissão de Miguel Torga: “Quando não trabalho sinto-me em pecado mortal”. Como eu o compreendo!

Comentários

  1. Aprecio os diários de Torga. A D.Quixote publicou a sua obra completa. Diário I desde 03.Janeiro.1932; Diário XVI – acaba em 10.Dezembro,1993, com um título realista: “Requiem por mim”. O português de Torga contem muitas palavras que já não usamos. Vamos ao dicionário – mesmo ao Houiass – e não encontramos a respectiva entrada, tal como se diz de Camilo, embora Camilo tenha vivido mais cedo(1825-1890). Torga faleceu em 17 de Janeiro de 1995. É reconfortante ler estes diários. O português é estranho, a linguagem é rude mas toca-nos e envolve-nos. É um tesouro literário.

    Se me é permitido gostaria de referir outro diarista: Vergílio Ferreira(1916-1996). É um diário “urbano” em contraste com o de Torga, “rural”, passe o simplismo. Estendeu-se de 1990 a 1994. É interessante comparar as visões dos dois vultos da Literatura Portuguesa e reflectir nelas. Torga ligado à terra e à natureza; V.Ferreira com influência existencialista(Sartre, Camus), como “Alegria Breve” já anunciava.

    Existe uma contradição em Torga e Ferreira: na velhice só se pode olhar para o passado, já existe pouco futuro. Talvez pretendessem viver para além da morte. Talvez os diários sejam simplesmente um refúgio. Torga, no entanto, apesar de rude, é detentor de desalento e desafecto. Ferreira é mais positivo e interesseiro: parece estar motivado em salvaguardar a sua obra literária e a sua persona, o seu sujeito literário.

    1. Excelentes observações. Também eu aprecio muito as “Conta-corrente” de Vergílio Ferreira.Sem dúvida, com as diferenças que aponta, os dois melhores e mais profundos diaristas portugueses.

    2. O seu comentário, Nélson faria, suscitou-me curiosidade relativamente aos diários de Miguel Torga e de Vergílio Ferreira que nunca li porque desconfio sempre da diarística. A minha última desilusão nesse género foram os cadernos de Lanzarote, de Saramago; livro banal e perfeitamente dispensável no conjunto de uma obra tão boa como a dele.Sempre tive a impressão que Torga e Vergílio Ferreira nos seus diários, e talvez eu esteja enganado, não são impiedosos consigo próprios, apresentando-se antes sempre sob um ângulo favorável ou benevolente com a sua consciência. Se for esse o caso, penso que não vou gostar. Gosto da literatura confessional, e tenho nas confissões de Rousseau e nas de santo Agostinho dois dos mais magníficos livros que me foram dado ler. Exatamente porque ambos vieram a público exibir com verdade o seu exame de consciência que os conduz a conclusões muito pouco abonatórias acerca também de si próprios e não só dos outros.

  2. Confesso, nunca li Torga. Primeiro porque o meu instinto literário diz-me que se o autor não desperta em mim um desejo, então trata-se de um mau autor. Segundo, nasci em Portugal mas aqui negaram-me a literacia, logo, com raras excepções, passei a desconsiderar a literatura portuguesa por ignorância e mais tarde por princípio. Terceiro, à vista do que Bagão Fálix traz aqui, Torga entra no edifício literário onde o EGO está sempre na linhagem da tinta, mesmo se a caneta muda. “Quando não trabalho sinto-me em pecado mortal”; …ver o meu hemograma… sou um temente infantil… Tive sempre a coragem… o pesadelo dos meus dias… duvidar sempre de mim… Sim, fui infeliz… sou uma desconsolação humana. Uhf! O EU para dar e vender. No desabafo inicial, Miguel Torga parece andar a dormir na forma quando escreveu tal despautério, ou será que o consumo de ansiolíticos é uma invenção dos farmacêuticos? Ainda que a “associação” não tenha carácter oficial, ela é uma realidade bem aos olhos de todos e por maioria de razão porque Torga assistiu ao parto, nos anos 80, desta conspiração da finança contra a vida boa, o que produz hoje tanta angústia. Quanto à velhice, convenhamos que prefiro uma outra visão lúcida, pois à visão de “mudos na velhice” contraponho a visão de que “a velhice liberta-nos de um peso, o de deixarmos de acumular objectos e bens inúteis e recompensa-nos com bens intrínsecos, que nascem em nós, o amor, a amizade, a lucidez”. Ou ainda Milan Kundera em “testamentos traídos” (ignoro se é este o titulo em português) quando, maravilhado com a obra “crepuscular” de Beethoven, no apagar da sua vida, compôs sonatas que deitaram por terra um amontoado de códigos e leis da composição. Afirma Kundera que Beethovem, velho, se sentiu liberto dos constrangimentos que o forçavam a ser conveniente, a ter que ser um génio, a ter que agradar. Há quem afirme que a felicidade é uma curva em “U”, somos felizes jovens, infelizes na vida adulta e voltamos a ser felizes na velhice. Quanto a Torga, desculpem os presentes, mas continua fora da minha agenda de leitura.

    1. Gostos não se discutem. Torga e Vergílio Ferreira continuam a ser os meus preferidos. Apenas uma nota sobre a tal questão do EGO que refere e exemplifica. É que estas citações são extraídas de DiÁRIOS. Logo…

    2. Arons, se lesse torga ficaria a saber que angústia é sentir-se lobo no fojo. Lendo a criaçao do mundo ficaria a saber num parágrafo porque Portugal está como está.

    3. A propósito de Vergílio Ferreira. É curioso verificar como o existencialismo passou de moda. Pergunto-me se um jovem de 20 anos, hoje, ainda poderá comungar das preocupações de um Vergílio Ferreira ou da estética de um filme de Bergman. Creio que muito dificilmente. O que eram preocupações do Homem de meados do século XX, hoje tem um certo travo a banalidade, mesmo em escritores como Camus. Ainda quanto a Vergílio Ferreira: reconheço a elegância do seu estilo mas confesso que há na sua obra um excesso de pathos, de patético, que de tão insistente, me desagrada profundamente.

    4. “A velhice liberta-nos de um peso, o de deixarmos de acumular objectos e bens inúteis e recompensa-nos com bens intrínsecos, que nascem em nós, o amor, a amizade, a lucidez”

      Aarons VC: permita-me discordar. A velhice é também já não nos podermos achar junto às pessoas que outrora encontrávamos com prazer, a tal ponto sabemos o que nos vão responder, a tal ponto conhecemos os seus pensamentos inalteráveis, o hábito dos seus raciocínios, os ciclo vicioso do seu comportamento. Concedo que a velhice nos liberta de muitos pesos, mas carrega-nos com um fardo horrível, o de já não haver nenhuma porta, nenhuma saída imprevista para nenhum dos nossos dias. Desculpe-me o meu tom demasiado elegíaco, sobretudo em dia 1 de janeiro, mas o seu, confesso, pareceu-me demasiado lírico para ser verdadeiro.

    5. Agradeço aos demais, a forma virulenta com que despacharam comentários e devo confessar que me sinto orgulhoso de sacudir assim as convicções. Isto muda algo no panorama “saudosístico” que governa Portugal. Para responder a Bagão Félix, creio que um diário publicado deixa de ser um diário e passa a ser uma parte da obra do autor, entretanto podemos escrever um diário com uma percepção universal das coisas, não forçosamente no EU, para mim isto é um sintoma do EGO. Entretanto deixe-me discordar do “gostos não se discutem”, porque não há coisa mais nefasta para as convicções de um homem do que resguardá-las do contraditório e, posso garantir-lhe Bagão Félix, que ao expô-las aqui o senhor me dá razão, o que me eleva a estima por si.
      A José Manuel Ferreira agradeço, mais uma vez, a discordância e retribuo-a com a percepção de que a sua visão da velhice se assemelha demais ao suicídio. Compreende-se que quando se exerce uma profissão estejamos constrangidos à determinação de a assegurar, uma questão de sobrevivência. Mas esta determinação é racional, não somos aquilo que gostaríamos de ser, mas garantimos uma estabilidade financeira a nós próprios e aos que nos rodeiam. Ora, se garantirmos esta determinação racional quando já nos libertámos do constrangimento financeiro (e.g. na aposentação), então inúmeras portas se abrem, haja abertura de espírito para passar por elas, as portas fecham-se quando não ousamos atravessá-las com as nossas angústias. No que me diz respeito a velhice é uma festa.
      Ao Manuel Gonçalves digo apenas que, ler Torga é uma opção, porquanto não o ler não prefigura forçosamente uma perda, pois outros terão valido a pena. Lamento que ler Torga, para si, não passe de sobranceria, fosse o senhor capaz de o debater com argumentos como o fazem outros comentadores.

    6. Estranha noção a de que o ego pode ser extirpado da arte! Muito mau hoje Arons VC. Falamos sempre de nós, porque somos nós que falamos. Por mais que disfarcemos, e se o fazemos! O poeta é um fingidor…

    7. Estranho Liberal! O que é a Arte senão a expressão do EGO. Além disso, quando nos exprimimos no SUPEREGO (a consciência) também somos nós que falamos e no entanto este é adversário do EGO (a atitude).

  3. Muito obrigada por este relembrar dum autor fundamental não so (estou em França e o meu teclado gaulês não reconhece os acentos agudos à moda lusa) em Portugal, mas internacionalmente. Não havia melhor maneira de pensar “a passagem” dum ano para o outro. A escrita profunda e questionadora de Torga permite-nos caminhar com as nossas duvidas, é uma reflexão filosofica e poética que vasculha o nosso desassossego. Vou publicar um ensaio sobre o teatro de Miguel Torga, parte da obra do autor, a meu ver, ainda tão pouco percebida…

  4. É ao olhar que revejo tudo aquilo que nego haver
    É no saber que não desejo, o que nunca quis em crere.
    É sentir o tempo a andar
    É não ter mão no caminhar.
    É só desilusão

  5. Dr. Bagão Felix

    Não venho comentar o seu postal, melhor dizendo, a sua reflexão (íntima); Venho fazer-lhe um pedido.
    No antepenúltimo parágrafo do seu texto faz duas citações de Torga: «Deus, o pesadelo…», retirada do volume XIV do Diário (entrada de 25 de dezembro de 1984) e «no fundo é do meu velho problema religioso….». Quer fazer o favor de me informar onde colheu esta segunda citação?
    Antecipadamente grato
    PS: Vou carregar em «publicar o comentário» por ser o meio para o enviar, mas não faço questão que o publique.
    José Neto

    1. Obrigado pela sua atenção. A parte que refere está no Diário XIV (Coimbra, 20 de Novembro de 1984).
      Um Bom Ano.

  6. Prefácio à segunda edição de “Novos Contos da Montanha”

    “S. Martinho de Anta, Setembro de 1945

    Querido Leitor:
    Escrevo-te da Montanha, do sítio onde medram as raízes deste livro. Vim ver a sepultura do Alma Grande e percorrer a via sacra da Mariana. Encontrei tudo como deixei o ano passado, quando da primeira edição destas aventuras. Apenas vi mais fome,mais ignorância, mais desespero. Corre por estes montes um vento desolador de miséria que não deixa florir as urzes nem pastar os rebanhos. O social juntou-se ao natural, e a lei anda de mãos dadas ao suão a acabar de secar os olhos e as fontes. Crestados e encarquilhados, os rostos dos velhos parecem pergaminhos milenários onde uma pena cruel traçou fundas e trágicas legendas. na cara lisa dos novos pouca mais esperança há. Ora eu sou escritor, como sabes. Poeta, prosador, é na letra redonda que têm descanso as minhas angústias. Mas nem tudo se imprime. Ao lado do soneto ou do romance que a máquina estampa, fica na lama do artista a sua condição de homem gregário. E foi por isso que fiz aqui uma promessa que te transmito: que estava certo de que tu, habitante dos nateiros das planícies, terias em breve compreensão e amor pela sorte áspera destes teus irmãos. Que um dia virias ao encontro da aridez e da tristeza contidas nas suas fragas, não como leitor do pitoresco ou do estranho, mas como sensível criatura tocada pela magia da arte e chamada pelos imperativos da vida. Prometi isso porque me senti humilhado com tanto surro e com tanta lazeira, e envergonhado de representar o ingrato papel de cronista de um mundo que nem me pode ler. Tomei o compromisso em tu nome, o que quer dizer em nome da própria consciência colectiva. Na tua ideia, o que escrevo, como por exemplo estas histórias, é para te regalar e, se possível for, comover. Mas quero que saibas que ousei partir desse regalo e dessa comoção para te responsabilizar na salvação da casa que, por arder, te deslumbra os sentidos.”

    1. Belíssimo texto. Torga é dos poucos escritores da nossa língua que a trabalha de forma a obter dela uma transparência, uma simplicidade, um sobriedade que a torna tão bela, quase irreconhecível na sua sobriedade e musicalidade. Acho o português uma língua dura, de sonoridades àsperas, com tendência a fugir para o farfalhudo sempre que pode. Aquilino, Brandão, Saramago ou Agustina, embora magníficos escritores, são disso prova. É verdade que a temática de Torga interessa-me pouco mas regresso a ele sempre com prazer. Cada vez menos me interessa o que dizem os escritores. Quase que já só me cativam pelo estilo. Penso que é o que fica, porque tudo o resto fica irremediavelmente datado.

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