Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

29 de Dezembro de 2015, 08:52

Por

Os nossos extremistas são boas pessoas, os deles são demoníacos

Lembrava o filósofo Alain Badiou como tantos intelectuais se renderam aos preconceitos de um racismo de salão que foi naturalizando as extremas-direitas, em particular em França.

Como muitas vezes acontece, esses intelectuais que Badiou critica trocaram a reflexão, ou o esforço para perceber as contradições da realidade, pela ideologia, ou simplesmente pelo conforto da facilidade. Ora, o mais fácil é classificar e seriar, para assim se protegerem da sombra do desconhecido. Ou seja, aceitaram a xenofobia como lei da terra e como a linguagem para a rejeição do desconhecido.

Há uma base ancestral para esse medo da diferença e dois jovens holandeses quiseram testar um dos seus limites, interrogando pessoas na rua acerca de frases da Bíblia, lidas de um livro em que colocaram na capa a palavra “Corão”. A maioria dos transeuntes inquiridos terá encontrado a confirmação para o que já achava evidente: são textos que provam a radicalidade, o extremismo, a violência e o sectarismo do Islão (no youtube existe um resumo dessa experiência). Tudo ficava explicado para as pessoas entrevistadas, que depois reagiam com estupefacção ao saberem que se tratava da Bíblia.

Não sei de todos textos que terão sido citados, mas este estava incluído no rol: “Se não me escutarem e não cumprirem todos estes mandamentos (…) enviarei contra vós terror, a fraqueza e a febre, que vos vão tirar a vista e consumir a vida. (…) Terão que comer a carne dos vossos próprios filhos” (Levítico 26).

Existem muitos outros trechos que são do mesmo tipo, no Antigo como no Novo Testamento. Para citar alguns exemplos muito diferentes entre si:

Não pensem que vim estabelecer paz à terra. Não vim trazer a paz, mas a guerra. Vim de facto criar divisão entre filho e pai, filha e mãe, nora e sogra: os inimigos de uma pessoas serão os da sua própria família. Aquele que amar o pai ou a mãe mais do que a mim, não é digno de mim; o que amar o filho ou a filha mais do que a mim, não é digno de mim. Aquele que não pegar na sua cruz e não me seguir, não é digno de mim.” (Mateus 10:34)

Se um homem tiver relações homossexuais com outro homem, ambos fazem uma coisa abominável e devem ser mortos, porque são merecedores disso. (Levítico 20)

Quanto uma mulher tiver o seu período menstrual, ficará impura durante sete dias. Todo aquele que lhe tocar ficará impuro, durante todo aquele dia.” (Levítico 15, todos os trechos citados da tradução da Bíblia editada em 2009, em Lisboa, pela Sociedade Bíblica).

Frei Bento Domingues, sob o título “Será a Bíblia blasfema?”, tratou por estes dias, aqui no PÚBLICO, um tema próximo desta experiência dos jovens holandeses. Ele cita um estudioso que se interroga com angústia sobre esta frase de Moisés, no Antigo Testamento:

Quando te aproximares duma cidade para combater contra ela (…), Iavé teu Deus a entregará nas tuas mãos e passarás a fio de espada todos os seus varões, as mulheres, as crianças, o gado; tudo o que houver na cidade, todos os seus despojos, o hás-de tomar como espólio (…).Quanto às cidades destes povos que Iavé teu Deus te dá em herança não deixarás nada com vida; consagrá-los-á ao extermínio: hititas, amorreus, cananeus, ferisitas, hivitas e jebuseus, como te mandou Iavé, teu Deus, para que não vos ensinem a imitar todas essas abominações que eles faziam em honra dos seus deuses: pecaríeis contra Iavé vosso Deus” (Deuteronómio 20: 10-18).

A tradução de que disponho é ligeiramente diferente:

Quando te aproximares duma cidade para lhe dares batalha deves primeiro propor-lhe negociações de paz. Se os seus habitantes aceitam a paz e te abrem as portas, todos os que lá se encontram serão teus escravos, para trabalhos forçados. Mas, se não quiserem a paz contigo e oferecerem resistência, então pões cerco à cidade. O Senhor, teu Deus, coloca-a à tua disposição e deves passar todos os homens a fio de espada. Mas podes ficar com as mulheres, as crianças e os animais, e recolher todos os despojos que nela tiverem ficado. (…) Mas não deves deixar nada com vida nas cidades destes povos daqui, que o Senhor te vai dar em propriedade. Deves condená-los à destruição completa: os hititas, os amorreus, os cananeus, os perizeus, os heveus e os jebuseus tal como o Senhor, teu Deus, te ordenou.

Na verdade, a diferença entre as duas traduções é sobre a ordem da carnificina e pouco mais. O que choca é o objectivo: matar ou escravizar. Explicam os exegetas citados por Frei Bento Domingues que há uma tensão entre a interpretação universalista da Bíblia e a outra interpretação nacionalista, com a linguagem de afirmação bélica de uma tribo, a de Israel, consagrada à destruição dos seus vizinhos por ambição territorial. E conclui ele: “Eu tiro a minha conclusão: o iaveísmo histórico veicula uma teologia nacionalista, por vezes, de uma extrema violência. Coloca na boca de Deus os interesses de um povo contra os outros povos. Este nacionalismo religioso blasfema.” Portanto, uma leitura deve excluir e até condenar a outra, mas ambas estão inscritas nos textos, onde se defrontarão o nacionalismo guerreiro e o universalismo humanista.

Voltemos então aos nossos jovens holandeses e à sua experiência de rua. Qualquer destes textos da Bíblia, lidos a partir de um livro cuja capa anunciasse o Corão, poderia servir para confirmar a preconceito de que os preceitos religiosos dos muçulmanos incentivam a violência ou até a mortandade dos opositores da sua fé ou de quem se comporta diferentemente das normas aí fixadas. No entanto, os textos citados são da Bíblia e apelam ao mesmo tipo de chacina.

Ora, como descobre Frei Bento Domingues, em muitos textos ancestrais e também na Bíblia podem encontrar-se justificações para acções de extermínio, revestindo de religião a ambição de domínio, de destruição e de guerra. Portanto, não é no Corão que nasce o Califado; ele está presente em textos de todas as religiões monoteístas que surgiram no Médio Oriente, porventura sob outros nomes.

Contra esse jogo de espelhos entre as religiões e os seus fanáticos, há duas considerações que surgirão necessariamente – e acho que ambas são certas.

A primeira é que em nome da interpretação literal da Bíblia não se cometem hoje crimes desta natureza. Talvez seja verdade agora, mas não foi sempre. Em nome da unicidade da religião, a Igreja Católica incentivou no passado a violência sectária, ou outros poderes em seu nome geraram crimes abomináveis, exactamente reclamando uma leitura literal dos preceitos bíblicos (ou simplesmente invocando o poder de dominação a que aspiram). Isso seria o passado do presente que conhecemos.

A segunda é que a leitura dessas escrituras é, no caso do catolicismo, disciplinada por uma organização hierárquica rígida, a Igreja Católica, para o mal (Inquisição) e para superar esse tempo (o pós-Inquisição, ou até agora a abertura ecuménica do Papa Francisco, surpreendendo a Igreja). Em contrapartida, no caso da religião muçulmana, não existe uma interpretação legitimada por um discurso e por uma organização única como fonte de poder centralizado. Portanto, podem surgir diversos discursos com novos enunciados, no limite até um projecto militar de ocupação territorial (o Califado), como o do Daesh.

Ambas as observações são fundamentadas em factos. Mas escapa-lhes o essencial, que é que o sucesso destas interpretações e chamamentos dependerá sempre do grau de desagregação de cada sociedade, ou da forma como nela se sentem as ameaças. Ou, por outras palavras, dependerá então de saber se se considera socialmente aceitável uma leitura literal de normas culturais construídas pela busca de sobrevivência ou poder de tribos do Médio Oriente de há cerca de 500 anos antes da nossa era, ou seja, de há mais de 2500 anos, num caso (a Bíblia), ou mais de mil anos, no outro caso (o Corão). A raiz cultural do extremismo pode ser encontrada nas palavras de Moisés como em frases do Corão, bem como o seu contrário, e o que lemos hoje depende dos olhos de hoje. Mas é onde imperar a miséria e a desesperança que poderão fundamentar-se as leituras mais radicais de textos religiosos para enraizar o ódio aos outros.

O que porventura será mais assustador é que o mundo moderno não limita, antes parece incentivar, este extremismo e a sua fundamentação transcendente. No caso do mundo muçulmano, como dizia um estudioso do mundo árabe, Ziauddin Sardar, entrevistado pelo PÚBLICO, essa literalização dos textos históricos já levou a um extremismo social desconexo do mundo, como o da Arábia Saudita, com o seu imenso poder do petróleo, dos dólares e das armas. Ou, nas palavras de Sardar, “o Estado Islâmico sempre existiu, é a Arábia Saudita”.

Ora, a Arábia Saudita é o principal ponto de apoio do poder imperial dos EUA na região, dos mesmos presidentes que em tom religioso terminam os seus discursos com “God bless America”, mesmo que não estejam a pensar no Deus do Corão. A política de uns e de outros alimentou, e muitas vezes deliberadamente, como no Iraque e na Síria, os monstros nascidos do sono da razão. Os seus biombos justificativos escondem os tráficos de armas, de justificações e de políticas e mostram como os que consideramos serem os nossos homens de Estado, os moderados, são tão facilmente os criadores dos radicais iluminados por palavras incendiárias de textos que tantos consideram sagrados.

O mundo é, pois, mais complexo do que qualquer preconceito possa supor.

Comentários

  1. A experiência social dos jovens apenas demonstra que a maioria dos transeuntes desconhece, pelo menos parte, dos conteúdos escritos na bíblia e no corão. Todavia, independentemente do maior ou menor conhecimento dos textos religiosos, independentemente da exegese e hermenêutica fenomenológica de qualquer um dos textos religiosos, independentemente do enquadramento histórico, independemente da violência praticada no passado em nome de qualquer religião, independentemente da história das ideias e dos eventos, independentemente do preconceito e da xenofobia, sucede no mundo de agora, de hoje, que há uma probabilidade maior de morrer às mãos de um extremista que me vê como infiel por não ser seguidor do corão, ou sendo seguidor do corão, o extremista vê-me como inimigo ou descartável, do que morrer às mãos de um extremista que me vê como infiel por não ser seguidor da bíblia. Isso não faz um extremista melhor do que o outro, são ambos indesejáveis. Mas as acções e os números do presente contam.

  2. Este artigo – intencionalmente ou não – acaba por ser mais um de muitos a branquear o que é o Islão e o que diz o Corão. Adicionalmente, o video da Holanda – e a sua utilização nest eartigo – demonstra uma enorme ignorância da Bíblia e do que é ser Cristão. O Antigo Testamento é a Lei Antiga que foi revogada pelo Messias. Serve para contextualizar e anunciar a Sua vinda. Serve para mostrar como era Antes para reforçar o Depois. A fractura entre o Antigo Testamento e o Cristianismo (Novo Testamento) foi e é tão grande que até a Civilização iniciou um novo calendário! Um novo ANO 1. Como pode o autor do texto ignorar isto? A vida de qualquer Cristão guia-se pelos ensinamentos de Cristo. Até a passagem de Mateus citada no artigo mostra isso mesmo. Para quem estava Jesus a falar? Para Judeus como é óbvio! E a divisão claramente se instalou, e continua atéhoje: quem acredita é Cristão, quem não acreditou continuou Judeu. É a passagem mais violenta que encontra no Novo Tetsamento? É isto que é suposto mostrar que o Cristianismo é tão vilolento como o Islão? Caro autor,. consegue dizer como foi que o Islão se propagou? Não foi pela espada? E o Cristianismo, como foi que começou? Não foi com perseguição? Caro Francisco Louçã, consegue negar que Maomé matou e mandou matar centenas de pessoas? A diferença entre o que de mal faz a Igreja e o que de mal faz o Islão é que o Islão tem um livro e um profeta que legitima a viloência (vide Arábia Saudita que aplica as leis islâmicas) ao contrário do Cristianismo – claramente oposto.

  3. Nao li o seu artigo. Nem necessito desse (certamente) penoso exercicio

    Sabe o que separa terroristas de guerrilheiros? tao somente o lado em que nos posicionamos. Contra nos sao terroristas, por nos sao guerrilheiros, “freedom fighters”. Podemos dar as voltas filosoficas e intlectuais que quisermos, Esta e a realidade.
    O que o mundo Ocidental, basicamente o de esquerda, adora fazer, tem nomes: auto flagelacao, infantilizacao colectiva, exercicios exarcebados de masoquismo militante.
    O resto, o estado lamentavel em que esse mundo se encontra, a debilidade que evidencia (massacres combatidos com piedosos, pateticos e mediaticos cordoes humanos e ramos de flores), sao lugares comuns que, por serem isso mesmo, nada acrescentam.

  4. Absolutamente de acordo. É óbvio que quando o extremismo chegou mais ou menos perto, as reacções foram diferentes, mas as mais básicas e fáceis foram de “classificar e seriar, para assim se protegerem da sombra do desconhecido”, declararam e “aceitaram a xenofobia como lei da terra e como a linguagem para a rejeição do desconhecido”. É óbvio que a leitura literal da Bíblia, do Corão ou do Talmude é um retrocesso civilizacional e é um instrumento nas mãos de alguns que visam ganhos e benefícios de diversa ordem. É óbvio que os locais mais instáveis são terreno fértil para difundir esses extremismos, “onde imperar a miséria e a desesperança que poderão fundamentar-se as leituras mais radicais de textos religiosos para enraizar o ódio aos outros”, outros esses que são apontados manipuladoramente. Não parece óbvio mas de facto o mundo, inclusive o mundo ocidental que se proclama esclarecido e que tenta impor esse esclarecimento aos outros, de facto “o mundo moderno não limita, antes parece incentivar, este extremismo e a sua fundamentação transcendente”, utilizando-o alegremente como instrumento para alcançar os seus objectivos. Isso é absolutamente patente na guerra do Afeganistão, e nas outras desde aí até à guerra da Síria, o conluio entre os sauditas e os americanos, uma mistura tácticas e coincidência de objectivos. O crime do “crente” que mata e morre não é mais tenebroso que o crime do “mentor” e “patrono” que o arregimentou, mentalizou, armou e financiou, mas que aparece na televisão com as unhas tratadas e a pele luzidia a dizer cisas “interessantes” com um olhar cândido.

  5. Um debate ridículo a espelhar a miséria de ideias que se vive nos tempos de hoje. Há dois milénios a discutir cristo e por mais ciência que brote, a idiotice supera sempre a razão. Começo a acreditar que a humanidade é um coro de escravos a clamar por um tirano, quando lhes falta um ditador voltam sistematicamente a deus, como se a fé fosse o destino da incúria e das ideologias desacreditadas. Não há pachorra!

    1. Tem toda a razão. Vamos acabar com os assuntos da fé e discutamos fotebol! Para isso sim há pachorra. Ou melhor… economia que é coisa do mais científico que há e garante de conversas extremamente apaixonantes sempre novas e estimulantes. Tipo as homilias do Ricardo Cabral sobre o significado divino das décimas do défice.

    2. Se o limite dos sentidos fosse a fé estaríamos condenados a deus, mas ainda bem que assim não é, há muito mais para além da fuga patética à realidade. Também acho, como diz a Leonor, que a alternativa a cristo é o futebol… aí estamos de acordo. Quanto à economia, sendo uma doutrina com apóstolos tão falsos como os do cristianismo, resta-nos o consolo de os poder contrariar perante a irrelevância dos seus feitos e a pouca assertividade dos seus diagnósticos. Se a Leonor recorre a deus para evitar o confronto com a realidade e evitar resolver os desafios que são colocados ao homem perante a sociedade, é uma escolha sua que eu não posso deixar de lamentar e criticar, tão-somente porque interferem com as minhas escolhas e me impõem o contrário daquilo que eu considero justo e socialmente aceitável.

  6. F, interessante visão, mas supreende-me sempre estas opiniões dos comentadores, nunca discutem os argumentos com seus argumentos, é um tipo de fanatismo que serve de guarida ao preconceito e ao dogmatismo. O marxismo-leninismo é reponsável pelas chacinas, quem é partidário do marxismo-leninismo é pelas chacinas? Eu não me sinto nada responsável pelas chacinas, de Stalin, Mao, Pol pot, porque me incriminam por isso, ou a ti, ou as pessoas que defendem o marxismo leninismo. Que eu sabiba o m-l é um método, supostamente científico de analisis social, mas quem for m-l consequente tera que admitir que analisis científica tem dado outras. evidências, como por exemplo que construir uma sociedade socialista baseado na creença de que o partido único deve instaurar a dictadura do proletariado, expropiar a burguesia dos seus meios de produção, instaurando o control a atraves do estado da economia, etc, etc libertando as forças produtivas a fim de que o bem-estar seja universal, pode não ser forma mais adequada de ver a sequencia histórica. Eu escribi creença, porque no método m-l não ha nenhuma evidência que isso seja assim, isso foi uma experiência, que a historia se encarregó de demostrar como um caminho errado e susceptível de desbordar numa dictadura de um grupo, de um individuo apoiado pelas forças de segurança, as forças armadas e a burocracia empresarial estatal. Tal como vemos agora na China ou como Raul Castro intenta agora em Cuba. E que ser m-l implica não se-lo sempre do mesmo modo. É este dogmatismo que leva depois a ver a bondade do lado do cristianismo e a maldade do lado do islamismo. É preciso ver os factos do nosso lado cristiano, o que foi ficando cristiano depois das suas metamorfoses, ate que ponto se foi distanciando da sua alma nacional original, da separação com a trascendência judia, de que modo se libertou do exercício da violência ou ate que ponto ela traduz mais a necessidade do poder, que usa e abusa da violência. Porque pode muito bem ter habido separação entre estado e Igreja em termos formais, a igreja foi parte do poder terrenal, foi sempre uma das maiores proprietarias de terras o que conferiou à propriedade fundiária um quase valor relogioso, movilizando todo o estado y a sua violência na sua proteção. A Igreja se parecia de facto mais ao poderoso PCUS, embora este não resistiu a força da história, sobreviveram os curas ortodoxos aos comunistas perniciosos. Tal vez essas forças no mundo islámico sigam um caminho inexplorado, nunca houve muito espaço para a laicicidade, a liberdade. Lembro que essas forças, na minha opinião, so se manifestam com força depois de ter surgido o moderno proletariado das grandes fabricas occidentais, que començara a sua luta politica e cultural por uma vida melhor, que tivesse tido a capacidade de aglutinar nos partidos socialdemocratas uma força de mudança que foi decidsiva para o actual modo de vida, a dialéctica que se gerou permitiu mesmo aos partidos de direita terem voz e voto em matéria de liberdade. O mundo islámico nunca entrou muito bem nessa dialéctica ate serem descobertos os poços de petróleo.

  7. Estava à espera de piores exemplos do que os que deu. Muito do antigo testamento é de um horror absoluto. Nem é preciso estudar muito, mesmo os episódios famosos como a matança generalizada das inocentes crianças primogénitas egípcias ou a piadinha de mau gosto de mandar matar Isac o próprio Filho de Abraão, e quando o pai está com a faca na garganta do filho aparece o anjinho a dizer que era só pilhéria é que não era preciso e tal. A ordem divina foi por razões de entretenimento, aparentemente… Um horror. Já discordo consigo em relação ao novo testamento principalmente no que se refere a Jesus. Um tipo claramente socialista, que também tem episódios de mau génio (amaldiçoar a figueira por exemplo) mas são falhas de outra ordem de grandeza.
    Uma boa posta, sem novidades mas boa.

    Já agora para quando um artigo sobre esse assassino de dezenas de mulheres e crianças que dá pelo nome de Vasco da Gama? Tem direito a pontes e avenidas esse pulha de merda. Para quando?

  8. O enviesamento do «inquérito» efectuado na rua e este artigo são coincidentes. A maioria das citações sectárias, referem-se ao Antigo Testamento. Este enviesamento está de acordo com o politicamente correcto, sem efectuar uma análise histórica do pensamento actual que deriva de uma leitura religiosa das 3 religiões monoteístas do arco mediterrânico. É evidente que há sempre franjas, mas o problema subjacente ao Corão é o imobilismo cultural (1) a que conduziu os seus seguidores, que não passaram por um Renascimento, que ao longo dos séculos acabou por separar as igrejas do Estado europeu, ao qual se opõe um estado teocrático, preservador de um tribalismo feudal, apoiado num texto que desde os idos de 600 até à presente data serve de base a todas as guerras e jihads.
    (1) o mais simples exemplo é o ensino da medicina nos países teocráticos.

    1. Não sei porque precisa de atirar pedras para mostrar o seu ponto de vista. As citações são “sectárias”? Não citar é “não sectário”? O que é que quer dizer com isso? As citações ou são verdadeiras ou não são. E são verdadeiras mesmo.
      O texto cita aliás Frei Bento Domingues e as duas interpretações possíveis de um discurso atribuído a Moisés (a citação dele é sectária?). Talvez valesse a pena considerar o que alguns dos mais reconhecidos teólogos escrevem sobre isso, porque eles não escondem o debate.
      Quanto ao Renascimento e separação da Igreja e do Estado, tem toda a razão (mas não esqueça que isso foi imposto contra a Igreja Católica).

    2. Das duas, uma: Ou leu o comentário na diagonal (o que acontece a muito boa gente) ou pretende vitimizar-se de uma lapidação… Como deve perceber, o conteúdo das citações é que é sectário (termo pouco feliz) pois eu deveria ter utilizado cruel, etc. Uma última correcção – escrevi, igrejas pois tanto quanto sei, só em pleno séc. XX é que a totalidade dos estados europeus se tornaram laicos. Não foram apenas os estados de raiz católica.

    3. Mas esse é precisamente o argumento: em várias religiões encontramos textos fundacionais que são sectários.

  9. A citação Mateus 10:34 poderia servir para fundamentar o radicalismo de uma outra religião com origem bem mais próxima de nós e que nunca desistirá de se impor: O comunismo marxista leninista.
    Não distingo entre fanáticos religiosos e ideólogos fanáticos.

    in Manifesto Comunista de Marx e Engels:

    “Sobre que assenta a família actual, a família burguesa? Sobre o capital, sobre o proveito privado. Completamente desenvolvida ela só existe para a burguesia; mas ela encontra o seu complemento na ausência forçada da família para os proletários e na prostituição pública.
    A família dos * burgueses elimina-se naturalmente com o eliminar deste seu complemento, e ambos desaparecem com o
    desaparecer do capital.
    Censurais-nos por querermos suprimir a exploração das crianças pelos pais? Confessamos este crime.
    Mas, dizeis vós, nós suprimimos as relações mais íntimas ao pormos no lugar da educação doméstica a social.

    Os comunistas não inventam o efeito da sociedade sobre a educação; apenas transformam o seu carácter, arrancam
    a educação à influência da classe dominante.
    O palavreado burguês acerca da família e da educação, acerca da relação íntima de pais e filhos, torna-se tanto mais repug
    nante quanto mais, em consequência da grande indústria, todos os laços de família dos proletários são rasgados e os seus filhos transformados em simples artigos de comércio e instrumentos de trabalho.”

    1. Interessante citação. O fim do capital, uma relação social, é comparada pelo Manuel Gonçalves com a chacina de pessoas, matar os homens, mulhres e crianças. Não queria estar na sua ceia de Natal e lastimo o risco de quem por lá passou.

    2. Curioso, falando em chacinas ocorre-me as provocadas em nome do Marxismo-Leninismo; talvez por estar a ler presentemente o arquipélago gulag e, talvez, por ser um perigo não tão remoto quanto um eventual ressurgimento de uma Inquisição e, talvez, por me ter ocorrido detectar uma semelhança entre Mateus 10:34 e a passagem do manifesto comunista. Fanatismo existe em nome de deus, em nome de ideologia, em nome do clube, em nome das inúmeras faces em que o pior da natureza humana se pode expressar. Apoucar a ceia de Natal da minha família é de resto evidência bastante de que tenho um fiel por interlocutor. Como diria o saudoso Manuel Pina: mesmo tendo prioridade se me cruzo com um camião desgovernado num cruzamento….travo e deixo passar. Passe!

    3. Acha mesmo que é um argumento inteligente? Comparar as chacinas com justificação religiosa de há 2500 anos com os debates políticos do século XX serve para quê? Para ignorar uns ou para apoucar outros? A sua citação do manifesto Comunista é irrelevante, não é um apelo a uma chacina, não pede a morte nem a escravatura de ninguém, não clama pela guerra, ponto final, nada tem que ver com o que discutimos aqui, só mostra o seu preconceito. Tenho pena deste tipo de debate em que frases avulsas servem para os seus ajustes de contas. Como diz, passe se faz favor.
      Se quiser tratar o tema do texto, a comparação entre os apelos à guerra na Biblia e no Corão, ao dispor. Frei Bento Domingues escreveu magnificamente e só podemos aprender com quem não procura desculpas.

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