Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

28 de Dezembro de 2015, 13:07

Por

Passar pelo Ano

images (1)O tempo do calendário conduz-nos agora ao tempo zero de 2016. O ómega de 2015 vai abraçar o alfa de 2016, num amplexo tão instantâneo quanto simbólico.

O dia 1 de Janeiro, mundialmente consagrado como o Dia da Paz, aí está, em tempo de guerra, violência, opressão em tantas zonas do nosso Mundo.

Não aprecio particularmente a chamada “passagem do ano”, antes preferindo a “passagem pelo ano”. Na primeira faz-se a síntese através da festa (será mesmo festa?). Na segunda faz-se a análise através da memória. A primeira é uma fotografia com Photoshop à discrição. A segunda é um filme mesclado de tudo o que a vida comporta. A primeira é uma quimera. A segunda é uma gratidão. A primeira é uma fronteira para um tempo novo, em que até somos mais velhos. A segunda é um álbum para um tempo velho, em que até fomos mais novos. A primeira é ressurreição depois da morte, a segunda é vida antes do passamento. A primeira é o tempo que por nós passou num ápice, a segunda é o tempo que nós passámos, às vezes contra o próprio tempo.

Não gosto da “obrigatoriedade” de estar radiante ou ser feliz (no meu caso “basta” mudar o x por um z) em razão de uma imposição administrativa. Raramente apreciei este momento Eu sou a primeira pessoa com quem não gosto de fingir. Prefiro my sweet home a qualquer outro lugar e modo. Há anos, muitos anos, ainda se poderia ver um bom programa na televisão, agora corrompida por guerras de audiência que nos proporcionam drogas da mais estúpida programação. Passo pelas televisões europeias, onde até o fuso horário me permite antecipar a pressa de chegar às 24 horas. Vendo bem, até gostava deste dia nos anos sessenta do século passado. Era a forma de namorar até mais tarde, num tempo em que o namoro tinha hora pudicamente obrigatória de terminar o dia. Mas continuo a comer as doze passas provindas de uvas anciãs e a formular, no recôndito da alma, doze desejos em forma desordenada.

Comemoramos o Ano Novo como expressão de vida nova, mas nunca a Semana Nova que sempre começa ao domingo ou o Mês Novo que pode significar salário fresco.

Lá fora, a impositiva alegria. Faz-se festa que, não raro, sabe a falsete. Há luzes, néones, fogo-de-artifício, bebidas, cornetas, lugares-comuns a jorrar por todo o lado.

Felizmente, a passagem anual oferece-me, logo de seguida, o merecido sono. Depois, acordar e pensar na paz. Na minha e na dos outros. Nada mudou. Mas há 365 dias de ilusão ou, mais virtuosamente, de esperança. Um Ano Novo com novo ânimo? Ou desânimo velho?

Comentários

  1. Ótimo texto! Neste ano, principalmente, precisamos de alento para o enfrentamento de um 2016 que se prenuncia tão dramático e preocupante como foi 2015.

  2. Acho que é mais o “desânimo velho” do nosso jardim à beira mar plantado, do que “ânimo novo”… Bagão Félix enganou-se ao “mudar o x por um s”, queria certamente “mudar o x por um z”! Votos de um melhor ano de 2016 para todos nós.

    1. Também com ânimo renovado e esperançoso…

      “Negras tormentas agitan los aires
      nubes oscuras nos impiden ver
      Aunque nos espere el dolor y la muerte
      contra el enemigo nos llama el deber.

      El bien más preciado
      es la libertad
      hay que defenderla
      con fe y valor.

      Alza la bandera revolucionaria
      que del triunfo sin cesar no lleva en pos
      Alza la bandera revolucionaria
      que del triunfo sin cesar no lleva en pos

      En pie el pueblo obrero
      a la batalla
      hay que derrocar
      a la reaccion

      & etc.”

      Bom ano para todos! (como se isso fosse possível 😉 )

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Tópicos

Pesquisa

Arquivo