Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

18 de Dezembro de 2015, 13:15

Por

O aumento das taxas de juro de referência nos EUA

Em anos recentes, a taxa de juro de referência para efeitos de implementação da política monetária nos EUA é a designada “Federal Funds Rate” (FFR): a taxa a que os bancos emprestam entre si fundos depositados junto do Sistema da Reserva Federal (o sistema de bancos centrais dos EUA). A FFR está a níveis historicamente baixos.

 

Effective Federal Funds Rate

 

Na quarta-feira, 16.12.2015, a Assembleia de Governadores do Sistema da Reserva Federal (“FED”) determinou um aumento dessa taxa de referência em 0,25 pontos percentuais (de um intervalo de 0%-0,25% para um intervalo de 0,25%-0,5%). A partir da data desse anúncio, o FED passará a intervir no mercado, vendendo ou comprando activos financeiros, para assegurar que a FFR se situe entre os 0,25% e os 0,5%. Um pequeno passo, mas uma decisão muito significativa porque é a primeira vez, desde 16 de Dezembro de 2008, que o Fed altera essa taxa e é a primeira revisão em alta dessa taxa desde 29 de Junho de 2006.

Ontem, quinta-feira, em cumprimento dessa decisão, a Reserva Federal de Nova York interveio pela primeira vez nos mercados retirando liquidez de forma a fazer subir a taxa de juro. Especulava-se que seria necessária uma operação de dimensão muito elevada (havia quem argumentasse que o FED se veria obrigado a retirar 1 bilião de dólares de liquidez) para fazer subir a taxa de juro para o novo intervalo desejado, porque se acreditava que existia excesso de liquidez nos mercados.

 

repo 2
Fonte: Federal Reserve Bank de Nova York

 

Todavia só foi necessário retirar “pouca” liquidez (105,2 mil milhões de dólares) para que a FFR subisse logo para os 0,25% pretendidos.

Ora esse facto em si é surpreendente porque poderá indiciar que não haverá o excesso de liquidez nos mercados que a generalidade dos observadores pensava que existia.

 

Effective Federal Funds Rate v2

 

Por outro lado, dado que a FFR se encontrava nos últimos dias em torno dos 0,13%, o aumento foi na realidade mais baixo: apenas 0,12 pontos percentuais, o estritamente necessário para a taxa de juro FFR subir do intervalo 0%-0,25% para o limite inferior do intervalo 0,25%-0,5%.

A Assembleia de Governadores do FED move-se agora com muito receio de que os aumentos da taxa de juro causem pânico nos mercados. Uma analogia possível às mexidas realizadas pelo FED nos últimos dias é a seguinte: o leitor imagine um elefante numa loja de porcelanas a mover-se com passos de formiga!! Será que o elefante consegue?

 

Comentários

  1. O Liberal tem de questionar os critérios do jornal “Le Monde”. Costumo ler o jornal à 6ª.feira. Compreendo a Macroeconomia – os nomes de David Romer, Fischer, Dornbusch, Mankiw são familiares ao Snr.Ex-Ministro ? Nunca frequentei o Colégio S.João de Brito.

    Nunca fui ministro

    Nunca fui Gestor de Empresas.

    Não me escondo em nomes de conveniência.

    Conheço as bases necessárias de Macroeconomia. Licenciado em Sociologia(ISCTE). Licenciado em Gestão. Pós-Graduação em Matemática de Seguros na UCP. Frequentei a Open University do Reino Unido(obtive 180 créditos correspondentes a dois anos de uma licenciatura de Bolonha). Pós-graduação em Actuariado pela UCP(O Liberal
    deve conhecer bem esta Unidade de Ensino Superior). Mestrado em Economia Monetária e Financeira pelo ISEG. .Em conclusão uma licenciatura em Matemática pela Universidade Aberta.

    Nunca frequentei Conselhos de Ministros. Mas já frequentei as matas da Guiné como miliciano do Exército Português. Chega-lhe ou quer mais? Cumprimentos para LIBERAL.
    Do cidadão Nelson Faria.

  2. O dinheiro gratuito acabou nos EUA. A FED abandonou o intervalo 0-0,25% e começa a aplicar taxas no intervalo
    0,25-0,50%.
    Dentro de três anos as taxas de juro deverão atingir 3,25%, valor considerado normal.

    Trata-se do primeiro aumento depois da crise de 2008 do Lehman Brothers.

    Através do chamado “dinheiro fácil”(quantitative easing) a FED emitiu dívida no valor de 4500 biliões de dólares.

    As circunstâncias macroeconómicas são, nos EUA, favoráveis: crescimento de 2,5% da economia; desemprego situado nos 5%, embora a inflação ainda seja baixa(0,2%), longe do nível óptimo(2%).

    Por parte do BCE o quantitative easing vai prosseguir até 2017.

    A economia americana está robusta – prevê-se um crescimento de 2,6% em 2016.

    De acordo com o analista Charles Wyplosz, a economia americana parte em regra com seis meses de avanço sobre a Europa – tendência observada nos últimos quarenta anos. Os riscos para o Euro, de acordo com este analista, não serão significativos, embora se possa a possibilidade de uma eventual melhoria na competividade das exportações da Zona Euro, pela pressão alta sobre o dólar.

    1. Está robusta está… A economia dos EUA é como a Leonor que vai para a fonte de Camões, vai formosa e não segura! Os mais ignorantes nem sabem que o crescimento económico de 2% nos EUA é quase todo explicado pelo aumento da população via imigração, enquanto que na Europa a população não cresce.

  3. Esta Expansão Quantitativa parece na melhor das hipóteses pouco eficaz, na pior um insuflador de uma nova bolha financeira
    Gostaria que comentasse sobre a alternativa a esta Expansão Quantitativa – a EQ para as pessoas. Ex. na UE sob a forma de um EuroDividendo. Um caminho para um Rendimento Básico Incondicional?

    1. Mesmo sem saber o que Ricardo Cabral lhe irá dizer, aproveito para o cumprimentar pela relevância do seu comentário, ao discutir e pôr em causa aquilo que tem sido feito desde 2009 como suposta terapia para a crise financeira e consequente recessão/depressão económica. Existe um status quo que nos tenta enfiar na cabeça dia após dia que a crise “vai passar”, e que vê “retomas” a cada esquina, que nunca se materializam. Dizem-nos que enchendo de dinheiro exactamente aqueles agentes económicos que já PROVARAM que não são dignos de confiança, a crise passará. Estamos, naturalmente, no domínio puro da fé. Muitos previram, antes do Milénio, que ele iria ser de novo o tempo das religiões. De uma estranha forma, essa previsão parece tomar forma.

    2. O EQ da zona euro tem diversas componentes (o dos EUA é similar). A mais importante é a monetização de dívida pública (deverá representar cerca de 70% do programa de EQ), mas também inclui monetização de dívida privada. Acresce que no passado realizaram-se empréstimos à banca em condições muito favoráveis.

      Porque o Tratado Europeu proibe a monetização de dívida pública esta é feita de forma indirecta, utilizando artigos do Tratado que permitem a compra de dívida pública e de outros instrumentos de dívida no mercado secundário.

      Na prática uma parte do programa de EQ dá dinheiro aos Estados, não directamente, mas indirectamente ao reduzir a despesa líquida com juros.

      No caso português isso significa que o Estado pode gastar esse dinheiro e serão pelo menos centenas de milhões de euros já em 2016 (O João Silvestre do Expresso estima em mil milhões de euros) as poupanças com juros do Estado português.

      Concordo que o EQ tem estimulado uma bolha financeira e também me parece que é um programa que beneficia mais o sector financeiro mais do que a generalidade da população.

      O EQ1 da zona euro representava 3400 euros por habitante da zona euro. Como as participações no capital do BCE dependem do PIB e não apenas da população, representaria cerca de 2000 euros por habitante em Portugal.

      E a questão é onde é que mais necessário e onde pode ser melhor utilizado.

      Penso que no caso português, essas poupanças com juros são preciosas. A despesa com juros representa perto de 10% da despesa pública e deverá representar entre 4,5% e 5% do PIB (é superior se se incluir o SEE fora do perímetro das APs).

  4. Dr. Ricardo Cabral

    Texto esclarecedor e pertinente, fiquei no entanto curioso que consequências terão a sua leitura para o sistema europeu. O BCE irá reagir no mesmo sentido que o FED?

    1. Caro António Afonso,

      obrigado pelos seus comentários. O BCE ainda prossegue na estratégia de expansão quantitativa, ou seja, num sentido diverso do FED.

  5. No que toca a Economia, o Ricardo Cabral não liga muito ao nome do blogue, coisa que lhe agradeço, porque as suas intervenções são muito mais esclarecedoras do que as dos comuns jornalistas da área económica. Cometeu foi um pecado comum de português ao dizer que a FED “interviu”, quando deveria ser interveio.

    1. Caro Liberal,

      agradeço as suas palavras sobre o texto e a chamada de atenção ao “pecado”. Lapso corrigido.

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