Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

17 de Dezembro de 2015, 12:40

Por

Uma tarde pacata em S.Bento

costaA semana correu bem ao governo. Mesmo com a corrida aos balcões do Banif, o que seria sempre sinal para tocar a rebate, António Costa beneficiou de um maná dos céus.

A primeira dádiva foi a descompressão da direita. Tudo postiço, a gritaria da direita acabou como tinha que acabar, com o rabo entre as pernas. O governo é ilegítimo, sai do lugar que é meu, ganhámos as eleições que perdemos e perdemos o parlamento que ganhámos, toda a charada de argumentação de Passos Coelho e Paulo Portas era simplesmente ressentimento e todo o teatro esbarrou contra um muro de indiferença. O país percebeu mesmo que só Marco António Costa se excitava com este assunto tórrido que era o golpe de Estado. A rábula da vírgula faleceu logo depois de ser exibida com estrondo.

Portanto, o assunto acabou da pior forma: para fazerem esquecer o seu esganiçamento (como diria um certo profeta liberal), tornaram-se cordatos como se não fosse nada com eles. Precisam que se note a viragem para se fazer esquecer o frenesim, mas notar-se a viragem significa condenarem a garotice do seu próprio comportamento. Tudo prejuízo.

A segunda dádiva foi a previsibilidade. Paulo Portas, como sempre excelente em fraseologia avulsa, parecia o apresentador do circo de inverno, vestido de cetim vermelho e a repetir o número do ano passado. Anunciou um apocalipse de greves, que conduzem ao “suicídio económico” de Portugal, uma conspiração sindical selvagem, um susto, mas parece que ninguém o avisou de que agora o povo só está preocupado com as compras de Natal e não vê esse alarme em lado nenhum. O pior que um político pode ter pela frente é a indiferença e ela fez-se merecida.

A terceira dádiva foi a melhoria dos rendimentos, a começar pelos dos mais sacrificados. O governo, que cede pouco nos impostos e nas pensões, tinha apesar disso muito para anunciar. Na verdade, é isto que descomprime a política portuguesa: uma pequena mudança na distribuição do rendimento e na orientação das escolhas, dentro dos constrangimentos perigosos. Também aqui, tudo pacato para Costa. Até a tática negocial do PCP, que eu não percebo, se mostrou útil: um pequeno braço de ferro para uma rápida cedência previsível, sublinhando assim que os ganhos sociais são relevantes e aprováveis por quem exige uma política de esquerda.

A quarta dádiva foi que só a esquerda colocou problemas difíceis. O que prova que o parlamento será complicado, discutirá, controlará o governo, exigirá negociações. Esta é para já a melhor notícia para Costa, porque reforça a naturalização do seu acordo com o Bloco e o PCP. Tudo normal.

Os problemas, esses estão todos em cima (e debaixo) da mesa. O Banif foi empurrado por uma manobra estranha para o precipício mas a culpa é do governo anterior e do governador do Banco de Portugal, que sabiam e esconderam a dificuldade porque havia eleições. O Novo Banco é assunto totalmente passista e portista. O défice resvés é uma herança da gestão anterior, que só prejudicou as contas na afobação das últimas semanas. A venda da TAP foi negócio do Sérgio Monteiro. O PSD e o CDS continuam a insistir em diminuir o mínimo possível a sobretaxa do IRS. Tudo a contas do passado, com nomes e caras para a desgraça.

Se todas as semanas difíceis forem assim, é melhor que Passos e Portas percebam depressa que não têm eleições no verão e que, quando tiverem, são capazes de ser espectadores e não candidatos.

Comentários

  1. Entretanto,hoje foi preso um “investidor” que afinal era odiado nos EUA,por ganância.Por isso gostaria de saber se este rapaz é um representante dos “famosos mercados”? ou se o “enorme aumento de impostos” servia para transferir fundos para este rapazinho(pela cara,parece mesmo um puto mimado)?p.s-quem devia responder era o Gaspar,que entretanto…desapareceu.

  2. “A descompressão da direita”. Talvez faça sentido tentar perceber porque é que Passos Coelho (PPC) executou a pirueta de 180 graus a que assistimos no último debate parlamentar… A intervenção de Rui Rio na Quadratura do Círculo especial, no âmbito dos 15 anos da SIC Notícias, proferida exactamente na véspera do debate, veio colocar a questão da sucessão de PPC na ordem do dia, e PPC mais não fez do que responder aos principais argumentos de Rio – a dificuldade em vencer as próximas eleições, falho de “novidade” e de “esperança”, e a dificuldade em celebrar qualquer entendimento de regime entre PS e PSD – condições que o próprio Rio estaria em condições de satisfazer, pois será evidente “o [seu] mais fácil entendimento do que se forem essas duas pessoas [Passos e Costa], ou pelo menos um dos dois” a agir na próxima fase da actual legislatura, quer se trate da convocação de eleições, quer se trate da reedição de um novo bloco central. Deste modo, creio que ainda será cedo para reivindicar que “a gritaria da direita acabou como tinha que acabar, com o rabo entre as pernas”… Antes me parece que teremos tão só assistido ao primeiro acto da assumpção de PPC como candidato incumbente à próxima liderança do PSD

  3. Há uma dúvida morfológica que me assalta. Como é que se distingue um “portista” que vem de Portas de um “portista” que vem do Dragão?

    1. Morfologicamente não existe qualquer diferença. No entanto, foneticamente, “portista”, adepto do FCP lê-se “pur-tis-ta”, enquanto que a versão Paulo Portas lê-se “pór-tis-ta”. Ou seja, acentuando a vogal da primeira sílaba. A única diferença escrita que poderá haver, será descrevendo as palavras através de grafemas. Tirando isso, será mesmo necessário contextualizar a palavra antes de a usar em escrita.

      Espero ter ajudado.

  4. “Terceira dádiva foi a melhoria dos rendimentos, a começar pelos dos mais sacrificados”

    Francisco Louçã, esta sua frase é infeliz. Como muitas que tem escrito no frenesim de atacar todos que não comungam das suas ideologias trotskistas.

    Aumentar as pensões em 2,5 euros é um insulto. Não brinquem com a pobreza!

    Aproveito para lhe dar os Parabéns por integrar o Conselho de Estado (ao que parece).

    Espero que os seus “conselhos” ao PR sejam isentos de idelogias políticas e a Bem da Nação.

    João Albuquerque

    1. Snr. João Albuquerque,
      Não descer o valor das pensões (como estava previsto), já era positivo;
      Aumentar as pensões, mesmo que seja apenas em 2,5 euros, é um insulto, como diz? Mas, em que mundo vive o senhor, ou julga que vive?
      Bom senso, precisa-se!

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