Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

6 de Dezembro de 2015, 08:51

Por

A rosa-dos-bifes

transferirFim-de-semana, sem política e sem economia. Para muita gente, fica o futebol e o advento pré-natalício consumista.

Em divagação, dei comigo a pensar na crescente escala de cozedura do estado da carne de um bife pedido num restaurante. Sou do tempo em que esse assunto – agora, em regra, questionado pelo empregado, após se pedir um bife – não se colocava: ou porque não havia restaurante, ou porque não havia bife, ou simplesmente porque ainda não havia essa hierarquia. Depois, surgiu a tripla “bem passado, médio ou mal passado”, algures entre o “well done” britânico e o “saignant” francês.

Agora esta simples classificação já não chega. É como nos pontos cardeais (Norte, Sul, Este, Oeste) que se subdividiram em pontos colaterais (Nordeste, Noroeste, Sudeste e Sudoeste). Daí ouvirem-se, cada vez mais, pontos intermédios entre os três “cardeais da carne”. Por exemplo, agora há o “entre médio e bem passado” ou “o entre o mal passado e o médio”, admitindo-se que o “entre bem passado e mal passado” é o próprio “médio”. Imagino o grau de precisão do cozinheiro gerindo a chama ou a intensidade eléctrica, por um lado, e o cronómetro ou ampulheta, por outro lado.

Há também o “bem passado” que já vi muito “bem torrado” que é uma espécie de torrada queimada com bife lá dentro. E há o “bife tártaro” que, esse ao menos, não engana na cozedura, melhor dizendo na falta dela.

Bem, por este andar – voltando aos pontos geográficos – ainda passamos a copiar, nos bifes, os oito pontos subcolaterais (como o nor-nordeste ou sul-sudeste). Por exemplo, “traga-me um bife médio bem passado (por fora) e mal passado (por dentro) ”.

Assim juntaremos à rosa-dos-ventos (com 16 posições), a roda-dos-bifes para lombo, alcatra, vazia, acém, pojadouro ou cachaço. E ainda ninguém se lembrou de fixar o preço do bife em função do tempo de preparação. Se formos por aí, lá vai a maioria optar por “mal passado”… que é, como quem diz, menos caro.

 

Comentários

  1. Os bifes deveriam ser todos mal passados. Como cozinheiro, abro uma excepção para as grávidas, quanto aos outros dou indicações que estão a estragar o bife e que é sua a responsabilidade se estiver seco ou duro. No meu restaurante é tudo ou mal passado ou mesmo cru. Excepção feita ao Joaquim que gosto dele crocante por fora e completamente cozido para dentro. Mas não se preocupem quanto aos tempos porque para quem passa a vida a cozinhar tem relógios internos muito afinados. Não sei bem como mas consigo acertar com uma precisão bastante grande em qualquer divisão temporal entre os 0 e os 15 min. não fasso contagens mas é super frequente por a mão no manipulo do forno e nesse mesmo momento ele apita porque findou o tempo marcado. Também não sei explicar como mas muitas vezes basta olhar para o bife para perceber em que ponto está.

  2. A culinária, para meu espanto, eu que nunca morri de amores pelos prazeres do garfo, está a ocupar de forma massiva os meios de comunicação social e as preocupações e tempos livres das pessoas. A tradicional mania dos franceses com a comida já não é seu apanágio. A cultura gastronómica ganha adeptos por todos os cantos do planeta. Em Portugal é notória uma cada vez maior sofisticação no ato de comer, e do que se come, o que tem vindo em crescendo nos últimos quatro, três anos, fruto certamente dos inúmeros programas televisivos e páginas na imprensa dedicadas ao assunto. Não tenho nada contra mas creio que é sintomático de uma cultura cada vez mais hedonista. O que não tem nada de mal pois torna mais requintado e digna um prazer tão animal como é o de comer. No comer Portugal, creio, está mais requintado e sofisticado, sem dúvida.

    1. Talvez, mas nas grandes cidades e nos segmentos mais ricos. De resto come-se pessimamente neste país, como sempre. O sal, por exemplo, é um crime público que não está no CPP. Dizer palavrões está no CPP, mas envenenar os clientes de um restaurante com um produto tóxico não está…

  3. O tuga é assim, não percebe que não se é rico porque se tem dinheiro, tem-se dinheiro porque se é rico. O tuga não quer ser rico, quer ter dinheiro, por isso joga desalmadamente na pimenta ou no loto. O tuga não tem dinheiro, porque é pobre. É do que ele gosta, no fundo no fundo. Tinha eu que nascer aqui… Bem, há sítios piores! O Ruanda…

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