Tudo Menos Economia

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Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

26 de Novembro de 2015, 10:29

Por

Um governo para gerir riscos ou para governar? O dilema do poucochinho e da responsabilidade

governoTudo o que podia correr mal a António Costa na campanha eleitoral correu mal. Os cartazes, o cenário macroeconómico, as companhias, os comícios, o almoço da Trindade. Faltou convicção na política e, onde havia programa, assustava uma parte dos seus eleitores populares. O PS perdeu porque não sabia disputar as eleições e a esquerda ganhou porque as quis disputar. Ficou um sarilho, uma relação de forças desequilibrada.

Tudo o que podia correr bem a Passos e a Portas na campanha eleitoral correu bem. O PS falava demais, a coligação calava-se. Maquilhou o nome dos partidos com o biombo PàF e ninguém se queixou. Aviou as privatizações possíveis entre ilegalidades e expedientes, mas pouca gente protestou porque já estamos habituados a tudo. Mas a coligação perdeu ainda assim, porque tinha governado e havia quem lhes reconhecesse a cara e a prosápia.

Depois das eleições, tudo o que podia correr bem a António Costa correu bem. Cavaco Silva foi o seu principal aliado: deu-lhe tempo e, ainda mais importante, deu-lhe um suplemento de motivação ao tentar o impossível, um governo das direitas mesmo que fosse um governo de gestão. Costa aproveitou, rompeu amarras com os partidos da direita, negociou com as esquerdas, corrigiu o seu programa e conseguiu nessas modificações o fôlego para responder à maioria do povo, que não espera muito mas não se contentaria nem com nada nem muito menos com subterfúgios. E teve ainda outro aliado, a incapacidade da direita em responder a este desafio, oferecendo de bandeja a Costa a imagem de moderação que ele só pode agradecer. A Europa também lhe foi simpática, porque se esqueceu de Portugal durante estes dois meses e que jeito que isso dá.

Depois das eleições, tudo o que podia correr mal a Passos e a Portas correu-lhes pessimamente. Cavaco Silva quis tomar conta do jogo e secundarizou-os desse modo, gerindo silêncios como se a política fosse um pastoreio nos jardins de Belém e apesar de não ter nenhum poder efectivo para o que pretendia. Ao tentar ajudar o seu partido, perdeu-se como Presidente mas retirou o palco aos governantes. Não ficou ninguém em jogo.

A partir daí, foi a desgraça. Decerto que os líderes da direita não esperavam um acordo do PS com as esquerdas. Não souberam reagir à surpresa. Não esconderam que suspiraram por um colapso dos juros, e nada. Mandaram queixinhas para Bruxelas, chegaram até a invocar uma conversa de pé de orelha de Machete que se cruzou com Merkel num corredor, valeu tudo e não valeu de nada. Nem os juros buliram nem a Europa mandou os panzers. Pior ainda, Schauble fez-se de cordial, o que já de si é sinal preocupante.

Se tudo continuar a correr bem a António Costa, a direita continuará a fazer conferências de imprensa de Marco António Costa, Portas continuará a revelar em jantares de militantes que a ilegitimidade conspira contra Portugal, Rangel continuará a doutrinar porque votarão contra tudo e o país continuará espantado com esta gente. O país percebe que os comovidos defensores da estabilidade celestial se atiram do abismo quando a sua carreira é prejudicada porque ficaram sem o motorista e o chefe de gabinete.

Cereja em cima do bolo, a direita fica na situação impossível de um dilema em que ambas as escolhas são más e previsíveis, dando vantagem aos adversários: se o governo Costa é ilegítimo, tem que apresentar uma moção de rejeição ao programa do governo, e Costa terá assim a sua triunfal votação de confiança assegurada, confirmando a maioria parlamentar e a pose institucional; se a direita não apresentar a moção de rejeição, é porque a presunção de ilegitimidade era uma fanfarronada. Na dúvida, Passos Coelho cala-se.

Foi assim que Costa chegou a primeiro-ministro.

E, uma vez indigitável e depois “indicado”, fez o que tinha a fazer. Um governo num ápice, um programa já pronto e uma fria gestão dos tempos.

Tem no entanto dois problemas.

O primeiro era incontornável: o governo tem pontos fracos e pontos fortes. Tem ministros que surpreendem por serem ministros (Defesa) ou por estarem onde estão (Negócios Estrangeiros, Segurança Social, Educação). Para uns esperava-se mais e para outros presumia-se menos. Tem uns que são surpresas e boas surpresas (Justiça) e outros são confirmações (Modernização Administrativa, Agricultura, Saúde). Tem bons secretários de Estado em sectores chave e tem também aí boas surpresas (Inclusão de Pessoas com Deficiência, entre outras). Mas o seu ponto forte é o seu ponto fraco: nas finanças escolheu um  insider europeu, que fala a linguagem da ortodoxia económica mas também tem manejo político, como se sentiu nas negociações e mesmo no seu primeiro discurso parlamentar. O problema é a sua visão para Portugal, que tende a criar tensões com a esquerda.

O segundo é a política que fará este governo. É o problema Centeno: se persistir na ideia de recuperar a economia com base nos ajustamentos no “mercado de trabalho”, o governo não só não faz poucochinho como só pode fazer austeridade, e da cepa autoritária. Mas isso é precisamente o que não está autorizado a fazer, pois o risco maior do PS é ser algum dia visto como criador de uma política similar à que laboriosamente deslocou. “Tanta coisa para nada” é a única frase que o PS não se pode submeter a ter que ouvir.

Mas o dilema entre o poucochinho e a responsabilidade é mais do que difícil de resolver e isso será para amanhã.

Comentários

  1. Portugal pertence à Eurozona.

    Na Eurozona manda a Alemanha, nomeadamente através da “liderança de facto” que Wolfgang
    Schäuble informalmente exerce no Eurogrupo (sobre esta matéria, convém consultar o blogue
    de Varoufakis: http://yanisvaroufakis.eu).

    No Eurogrupo, cada país da Eurozona é representado pelo respectivo Ministro das Finanças.
    Mário Centeno sucede a Maria Luís Albuquerque como representante de Portugal no Eurogrupo.

    António Costa – tal como Seguro – promete que fará uma “leitura inteligente” do Tratado
    Orçamental, aprovado pelo PS na Assembleia da República, de braço dado com o PSD e o CDS-PP,
    numa 6ª feira 13 de má memória, em Abril de 2012. Mas a verdade é que, na Eurozona, a “leitura
    de facto” desse tratado é a que dele tem feito Wolfgang Schäuble.

    É extremamente improvável que Centeno tente convencer Schäuble a mudar a leitura que tem feito
    do Tratado Orçamental. Mas parece-me muito provável que Centeno opte por convencer Schäuble
    de que o Governo PS fará uma “leitura inteligente” do(s) acordo(s) a que o PS chegou com os partidos
    de Esquerda.

  2. Um governo ps sobretudo para acabar com a operação marquês, e para gastar o dinheiro todo que puderem no mais curto período de tempo que puderem. Povo votou numa 4ª falência de esquerda socialista. Temos o que merecemos.

    1. É mesmo desta atitude que o novo governo precisa. Alguém em nome da direita a gritar no meio da praça, que é um golpe de Estado e quejandos. Força, companheiro “capitalista”, o senhor é a muralha de aço de António Costa.

  3. Esta cronica lança um desafio de monta, e assaz interessante, ao novo governo, ao apontar baterias ao ministro, Mario Centeno, que encarna como poucos um salutar espirito renovador e inconformado no PS, apostado em provar que ha vida para alem da austeridade mas tambem que o desafio do desenvolvimento requer trabalho serio de reformas estruturais em varios dominios (incluindo a sustentabilidade das contas publicas) especialmente agora que acabou o filao das obras publicas como forma de criar emprego. O artigo parece sugerir que, devido ao “problema Centeno”, nao só é provavel que o governo faça poucochinho como se arrisca mesmo a ficar só pela austeridade, incluindo possivelmente a de “cepa autoritaria”, o que, evidentemente, criaria problemas insuperaveis ao BE e PCP, e nesse caso seria governo com os dias contados. Mas vamos esperar pela cronica de amanha para perceber o “dilema entre o poucochinho e a responsabilidade … mais do que dificil de resolver” e que soluçao ele pode ter.

  4. Hoje o comunista Paulo Sá no Parlamento inaugurou já aquela que será a frase mais ouvida nesta legislatura. Disse ele, a propósito da sobretaxa e dos cortes salariais, que entre PCP, BE e PS: “Há convergência quanto ao objetivo, mas não se verifica acordo quanto à forma de concretização.” Preparem-se porque vamos ouvir este estribilho até a exaustão, nos próximos meses, a propósito de tudo e mais alguma coisa. Acrescentou o esganiçado João Galamba, a deitar água na fervura: «Podemos ter as nossas diferenças, sim, mas uma coisa estamos de acordo: a recuperação de rendimentos é uma condição necessária para a recuperação da economia”. Está tudo dito e resumido, e não será preciso ouvi-los mais nos próximos tempos porque só se irão repetir. Creio que estas breves declarações, apenas duas horas após a investidura do Poucochinho, dizem tudo sobre o que será a famosa unidade da Frente de Esquerda.

  5. Notável artigo e que ultrapassa o ditirâmbico silogismo entimemático do pior e do melhor. Focagem decisiva no espaço de manobra do novo ministro das Finanças. E não será que o acordo parlamentar PS+BE+PCP+Verdes pode gerar , se tiver o supremo desafio de conjugar a ética e a politica com audácia e imaginação, grandes surpresas estimulantes e socialmente avançadas?

  6. Tempos interessantes estes.
    A maior conclusão que retiro desta situação, é que as pessoas (políticos) têm comportamentos muito semelhantes, á esquerda ou á direita, agem igual, sem memoria passada.
    O Francisco Louçâ acredita mesmo que vamos ter uma política de esquerda?
    E, acredita que é o melhor para o País?
    Acredita que o País saí bem desta contradição, «Euro» «política de esquerda»?
    Esta contradição vai levar-nos para fora do Euro, conforma entendo é desejo de Bruxelas. Espero que nesse momento o nosso «primeiro», seja quem fôr, tenha «gizos» para assinar o plano Schauble.

  7. Passo Coelho esteve presente na tomada de posse de António Costa. Nisso revelou nobreza. O mesmo não se poderá dizer de António Costa, Catarina;Martins. Jerónimo de Sousa ou Heloísa Apolónio que não puseram os pés na Ajuda quando da tomada de posse de Passos. É um detalhe mas sempre revela alguma coisa.

    1. Suponho que sabe que é obrigação do cessante primeiro-ministro. Não leve o seu sectarismo a inventar regras que não existem para os outros.

  8. tudo o que podia correr bem ao Paf,correu,nomeadamente o tratamento “jornalistico” de favor,a propaganda feita nas TV`s,os comentadores de serviço ao Paf,ou seja mesmo com a propaganda(cuidado paf,que já não almoços de graça),ao nivel do que pior se faz(sim,a televisão portuguesa é a pior da europa,outro sinal de retrocesso social,cortesia do Paf) …conseguiram apenas e só,radicalizar o PSD,transformando-o no teaparty da av.berna.

  9. Há ainda outro risco a ter em conta: o ministro dos negócios estrangeiros gosta de malhar em todos os que não pertencem ao PS. Os deputados que se ponham a pau quando o senhor ministro for à AR. Para fundamentar, retirei a afirmação seguinte do senhor ministro que está no insuspeitíssimo site esquerda.net. (Não é o observador.pt, o qual não teria qualquer credibilidade.)

    “Eu cá gosto é de malhar na direita e gosto de malhar com especial prazer nesses sujeitos e sujeitas que se situam de facto à direita do PS e são das forças mais conservadoras e reaccionárias que eu conheço e que gostam de se dizer de esquerda plebeia ou chic”, in ‘Santos Silva diz que adora “malhar” no PCP e no Bloco’,
    http://www.esquerda.net/content/santos-silva-diz-que-adora-“malhar”-no-pcp-e-no-bloco
    (online no dia 26-nov-2015, às 14:25)

    No mesmo artigo, também se alude a “haver medo dentro do PS”, pelo que os socialistas também não estão a salvo.

    1. Sim e não, Francisco Louçã, a eficácia das lutas aumentou de forma muito significativa e merece ser sublinhada. É essa razão do meu comentário e, sobretudo, é uma razão para que o movimento social se amplifique.

  10. Correndo o risco de falar antes de si, tudo dependerá igualmente do que os três outros Partidos da Maioria farão no Parlamento, que será, e já não era sem tempo, afinal passaram quase 40 anos desde a CRP de 1976, o verdadeiro Centro do Poder. Cederão à tentação, como parece já ceder o PCP, de dar prioridade às iniciativas próprias, ou apostarão na coesão da Maioria, coordenando com o Governo e o PS as iniciativas legislativas? É importante que os Partidos deem aos respetivos eleitorados sinais de que desejam manter a sua independência, mas parece-me ainda mais importante que se preparem para a barragem de Lixo Argumentativo que vem dos lados da Direita, com o generoso apoio de toda a Comunicação Social, que se sabe para que lado tende… Quanto à sua análise sobre o que se passou antes e depois das eleições, assino por baixo. Mas, francamente, não entendo o eclipse político de Passos Coelho e de Paulo Portas, sobretudo a sua inércia na semana seguinte às eleições em que ficaram, como cigarras, estonteados pelo frenesim da formiguinha Costa… É que são ambos, cada um à sua maneira, notáveis operadores políticos… Seja como for, cometeram um erro sério ao presumir-se já sagrados governantes e ao terem deixado nas mãos de um inepto Cavaco a solução do imbróglio político…

    1. Creio que ainda é cedo para nos apercebermos das formas de gestão política do PS, BE e PCP. Mas tem razão: verificaremos a muito curto prazo.

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