Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

24 de Novembro de 2015, 08:03

Por

“Marisa, Presidente” em outdoor e “Marcelo, Presidente” em indoor.

mw-860Há poucos dias, um amigo britânico perguntava-me, com ar algo admirado, se Mariza se iria candidatar à Presidência da República? Confesso que não percebi a pergunta de imediato.

É que ele já tinha visto um outdoor com a inscrição “Marisa, Presidente” e a questão advinha de a fotografia não coincidir com a face da magnífica fadista portuguesa, o que o deixara confundido. Só uns dias depois vi esse outdoor (bem feito, aliás), mas, logo na altura da nossa conversa, acabei por perceber aquilo que o meu amigo não conhecia. Lá lhe disse que Marisa (com s) Matias vai ser a candidata indicada pelo Bloco de Esquerda, pelo que o fado de Mariza (com z) não iria ser cantado na campanha eleitoral (o que até é pena, digo eu…).

Desta genuína confusão de quem não é obrigado a acompanhar a coreografia política nacional, pus-me a pensar num hábito muito arreigado por cá. Um hábito de que não damos conta, mas evidencia uma diferença que pode ter várias (ou nenhumas) interpretações: desde uma lógica predominantemente machista, ou mesmo marialva, a uma identidade feminina que entra mais directamente no coração das pessoas pela via do nome próprio. Explicando melhor: é corrente chamar uma mulher, jovem ou mesmo adulta, pelo seu nome próprio e não tanto pelo apelido, ao invés do que se passa quando nos referimos a homens. É assim no mundo artístico, nas figuras mais públicas ou conhecidas, na vida escolar (chama-se a Ana ou a Sofia, enquanto se diz o Neves e o Lopes (ou, em alternativa, o António Neves e o Carlos Lopes), na relação social em geral e, até na própria política. O caso mais recente é o da candidata também presidencial tratada, em regra, pelo nome próprio (Maria de Belém). Não me imagino a ver um cartaz com “António Presidente” referindo-se a António Sampaio da Nóvoa. A excepção que confirma a regra é Marcelo, pois que o decurso do tempo, a televisão, a personalidade tornaram o “professor” num dos de lá de casa. Essa é uma das suas vantagens. Por isso, pode bem dispensar outdoors e afins. Bastam-lhe os indoor.

Comentários

  1. É engraçado esse pormenor na gestão do género, nunca tinha captado essa jóia peculiar da língua portuguesa, obrigado por trazê-la aqui. No entanto, aconselho-lhe prudência, muita prudência, na gestão que faz da figura de Marcelo. A meu ver e pelo que vai transparecendo, dá ideia que não se trata da mesma pessoa, o Marcelo é aquele “entertainer” que granjeou fama, que agora quer transformar em dividendos. Mas o candidato mostra traços diferentes de personalidade e não se sabe se é o Rebelo ou se é o Sousa, é uma questão de heterónimos, coisa a que já estamos habituados. O problema com os heterónimos é que, normalmente morrem em simultâneo com o seu criador e ao anunciar-se a morte do “entertainer”, o candidato arrisca-se a não ver a luz do dia.

    1. Está a ver mal a coisa, caro Arons VC. Aquilo a que chama o heterónimo é antes a PERSONAGEM do homem sério de Estado, que grande parte do povo espera de um presidente da república. Faz falta o teatro aos portugueses, para compreenderem os palcos em que toda a sorte de hipócritas tugas se movimentam. Tartufo, chamou Maria José Nogueira Pinto ao Pinto de Sousa. Mas a Maria José Nogueira Pinto não era uma tuga, era uma senhora.

  2. O Marcelo é um grafiteiro político. Vê uma parede e pronto, lá vai meter o seu rabisco. E o rabisco tem um tal estilo que por vezes até passa por street art.

  3. Não é bem verdade o que propõe António Bagão Félix, a preferência pelo nome próprio depende de muito mais do que do sexo, embora eu concorde que a cultura portuguesa faça distinção entre homens e mulheres, como faz entre moços, homens maduros e idosos, e o mesmo para as mulheres. O contexto é importantíssimo, os políticos podem permitir-se um “ar de família” com os eleitores (veja-se a realeza), mas se Marisa Matias fosse apenas directora de uma escola, acabava-se logo o tratamento por “Marisa”. Uma coisa é certa, os portugueses são complicadíssimos com o tratamento que dão aos outros, e ninguém consegue escapar a essa dificuldade. É ou não é, Sr. Dr. Bagão Félix? (e o seu apelido Félix ainda por cima pode ser lido de duas maneiras!). Voltando às mulheres, é verdade que alguma tendência a preferir o nome próprio é sinal de maior familiaridade, de elas serem vistas como seres mais familiares, mas eu, se fosse mulher, pensaria várias vezes se gostaria que isso se alterasse. Várias vezes!

    1. Não leia. Tão simples como isso. Eu pela minha parte escrevo sobre o que entendo. Ou quer um lápis azul?

  4. Uma figura bem conhecida dos “media” disse, em tempos, que a televisão venderia presidentes (da República) se assim lho pedissem. O “professor” é claramente o corolário dessa máxima contemporânea, assente no pressuposto que os líderes de opinião são homens (e mulheres) sábios, incapazes de produzir informação que não seja verdadeira, oráculos por escolha popular, confirmada pelas audiências. Ora ser um líder de opinião (seja lá o que isso for), não é garantia de isenção ou imparcialidade (e o “professor” já revelou não o ser, longe disso), ou sequer de integridade (quantos já caíram em desgraça?). Não uso, nem recomendo. Os opinantes profissionais têm o seu lugar na sociedade, pois portam muito ao debate de ideias (no mínimo são um estímulo), mas tal como aos políticos deveria ser exigida a exclusividade (e evitar os males que advêm da promiscuidade entre negócios privados e negócios do estado), também aos opinantes profissionais conviria que se ficassem pelos estúdios de rádio, televisão ou nas contas do Twitter e facebook. O “professor” Sousa serviu – se do púlpito televisão para se vingar de adversários e rivais políticos, sem direito a contraditório. O “seu” público raramente se apercebeu do “innuendo”, e a aposta do douto revelou- se eficaz. Um país que raramente pára para pensar a política, vai voltar a votar de olhos fechados. Curiosamente, o “professor-candidato” parece não ter um discurso próprio (salvo aquele em que insistentemente veicula o que fará ao governo quando for eleito), mas o “professor- comentador” tem sempre algo a dizer ao seu eleitorado. Assim se faz política em Portugal.

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