Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

23 de Novembro de 2015, 06:40

Por

O pior da publicidade e é a história das nossas vidas

Enquanto o Presidente consulta a esfinge, agora um assunto importante: a forma como nos vemos ao espelho. Ou melhor, a forma como nos mostram o que vemos ao espelho, ou seja, a publicidade.

A publicidade é a narrativa dos nossos tempos. Cria fábulas, configura personagens, apresenta corpos, estimula desejos, é por isso uma história de conveniências, de culturas e de escolhas. O mercado no seu esplendor, ou seja, política concreta, dirão os leitores e só posso concordar. Mas a publicidade é também muito mais do que essa estratégia de oferta e procura, de criação de consumos e de aprendizagens sociais. É um modo de vida, é uma crónica visual da modernidade. Assim, a melhor publicidade, a de que nos lembramos, conta-nos histórias.

Sempre contou, aliás. Mas foram as histórias do seu tempo e um retrato do que fazia o senso comum em cada momento. O jornal The Guardian fez recentemente um inventário de algumas das expressões mais polémicas dessa publicidade ao longo dos tempos (recentes), e aqui estão dois exemplos.

oub 5pub2O primeiro é do preconceito racista.

Duas publicidades, uma que nos ensina a pintar de branco, ocultando o negro. Mudar o aspecto e purificar a cor, aqui está Tintin no Congo.

Outra que mostra o contraste entre a civilização e o selvagem, tudo em prol de uma boa camisa.

O segundo exemplo são dois cartazes revelando o preconceito sexista ou mesmo a exploração da insinuação sexual a partir de uma criança.

A criança insinua o desejo ou a imitação do desejo, ou pelo menos como a mulher se deve fazer desejada.

No outro cartaz, não há nada que uma camisola de gola alta não consiga, mas o problema é que todos usam a moda que seduz.

pub1opub3A publicidade são histórias, mas podem ser histórias que envergonham a mercantilização de tudo. E, desse modo, contam-nos mesmo a nossa história: é assim que nos fomos vendo ao espelho e nos disseram que éramos ou que somos.

Comentários

  1. Caro Francisco Louçã,

    O que não seduz de todo são as calças da marca Broomsticks. A camisola de gola alta pode não estar inocente, mas a execranda campanha é mesmo, mesmo sobre as slacks, as calças que não enrugam e mantém o vinco até nos casos que nos sugerem violação colectiva. E nada neste olhar tão dinâmico se passou há tanto tempo como isso…

    Grata pela atenção na esperança de colher da sua parte idem idem aspas aspas

    FRD

  2. Cuidado! Não é consensual que a publicidade, tal como os mercados, encontrem eco na vergonha. Paradoxalmente, promovem-se na contradição, o que não é moda um dia, é-o no dia seguinte e isto sem pedir desculpa. Os espelhos não mentem, eles devolvem-nos a imagem que nele depositamos, A publicidade retira-nos a personalidade e devolve-nos o estereótipo. A mensagem e a vergonha só aparecem quando se recusa o estereótipo.

  3. Na publicidade tambem se usa o “digam mal ou digam bem,mas falem de mim” coisa que para os lados de Belem parece estar na “moda”(que como se sabe vive da publicidade,que muitas vezes tambem é a arte da mentira,ou do engano mas…falemos de coisas importantes)

  4. Hoje, a publicidade, apela ao carneirismo, aos mob’s, ao grupo exclusivo dentro da grande massa… Como disse João Pereira Coutinho sobre os tempos de hoje (pasme-se… jornalista de direita):

    “A criança nasce, não numa família mas numa pista de atletismo, com as barreiras da praxe: jardim-escola aos três anos, natação aos quatro, lições de piano aos cinco, escola aos seis e um exército de professores, explicadores, educadores e psicólogos, como se a criança fosse um potro de competição.

    Eis a ideologia criminosa que se instalou nas sociedades modernas: a vida não é para ser vivida – mas construída com sucessos pessoais e profissionais uns atrás dos outros em progressão geométrica para o infinito. É preciso o emprego de sonho, a casa de sonho, o maridinho ou a esposa de sonho, os amigos de sonho, as férias de sonho, os restaurantes de sonho.

    Não admira que até 2020 um terço da população mundial esteja a mamar forte no Prozac. É a velha história da cenoura e do burro: quanto mais temos mais queremos. Quanto mais queremos mais desesperamos. A meritocracia gera uma insatisfação insaciável que acabará por arrasar o mais leve traço de humanidade. O que não deixa de ser uma lástima.”

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