Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

2 de Novembro de 2015, 08:11

Por

O cinema: “A Uma Hora Incerta”, de Carlos Saboga, e Fonseca e Costa

horaCarlos Saboga, realizador do recente Photo (2012), mas sobretudo conhecido como argumentista (por exemplo, Jaime, 1999, O Milagre Segundo Salomé, 2004, As Linhas de Wellington, 2012, Mistérios de Lisboa, 2010), estreou agora “A Uma Hora Incerta”.

O filme traça um retrato de Portugal durante a Segunda Guerra, através de Vargas, inspector da polícia política de Salazar, da sua filha Ilda e de Laura, uma refugiada francesa que procura fugir da guerra por Lisboa, com o seu irmão.

O filme, com uma sóbria economia de meios, passa-se dentro de um hotel deserto, agora casa de família de Vargas, cuja mulher está misteriosamente doente num quarto onde só tem a companhia da rádio e do som de um cinema vizinho, e onde a filha reina, tendo a empregada como única companhia. O ambiente é triste, como o da sociedade em tempo de guerra, e os ecos do mundo aparecem pela chantagem de um colega de Vargas na polícia.

O desejo da filha, que quer chamar a atenção do pai, e o desejo do pai, que protege Laura para fugir da sua vida, vão tecendo o drama que terminará brutalmente mas que se desvanece levemente, como se tudo desaparecesse quando os personagens se vão embora. O desejo e a sua incerteza são as forças que movem a história.

Filmado com representações contidas, “A Uma Hora Incerta” é, como o realizador certamente quereria, um vislumbre sobre o passado desse Portugal fechado que nos fez o século XX.

fonsecaNB- Estava escrita esta nota quando soube da morte de José Fonseca e Costa. Realizador dos mais influentes, amante de cinema e da vida, cronista, professor, inventor de tudo o que é preciso para um filme, Fonseca e Costa desapareceu quando tinha um filme a meio.

Faz falta.

Homenageio o homem, o amigo e o criador que continuou sempre a fazer aquilo de que gostava.

Comentários

  1. Gostei do filme de Saboga. Saboga, não esquecer, nasceu em 1940. Ronda os 75 anos. É, portanto, um homem do tempo do Portugal fechado, muito fechado, década de 40 do século passado, época que o filme retrata, do tempo da infância do realizador. Os críticos encartados arrasaram o filme. Parece-me injusto. Filme de poucos meios(um filme de interiores por completo) e com um excelente aproveitamento de jovens actrizes vindas do campo das telenovelas. Filme que retrata e explica o mundo claustrofóbico e doentio controlado pela PIDE. E apresenta, como detalhe, um inspector da referida Polícia(excelente Paulo Pires) que, às escondidas, lê o “Avante”…

    Fonseca e Costa retratou bem, em quase todos os seus filmes, esse Portugal fechado, embora já num tempo em que se anunciava a mudança. Fonseca e Costa, como é sabido, esteve preso às ordens da Polícia do regime. “A Balada da Praia dos Cães”, a partir de Cardoso Pires, é o seu ponto alto com uma extraordinária interpretação de Raul Solnado na figura de um inspector da Polícia Judiciária. É preciso conhecer a escrita de Cardoso Pires para apreciar a forma com Fonseca e Costa adaptou a obra ao cinema. Pela obra de Cardoso Pires também andou Fernando Lopes, adaptando “O Delfim”, curiosamente aproveitando também actores do campo das telenovelas, no caso Rogério Samora e Alexandra Lencastre.

  2. O eppicuro é grande! Eppicuro a postador, professor louça para os comentários. O Eppicuro e o Bagão Felix são a alma deste blog!

  3. Fazer o que se quer é a condição normal do homem livre (a antítese do trabalhador – o servil que anda ao acaso das vontades do seu dono).

    Fazer o que se gosta está reservado àqueles que respeitam a liberdade. Servir investidores não faz parte da condição do homem livre, é coisa dos inúteis a si mesmos (os servis).

    Não existe mercado com homens livres. Nenhum homem livre troca a sua liberdade pelas ofertas dos feirantes, e muito menos serve um feirante (trabalhador é a condição humilhante de vassalo de feirante).

    O mercado é coisa de analfabetos que caem nas burlas dos feirantes e, os mais estúpidos, contentam-se com a condição de vassalos deles: a condição do trabalhador.

    As regras da liberdade exigem a higiene de não permitir a existência de agentes de mercado (sejam do mercado planificado ou livre). Um corpo social que apresenta parasitas (mercantis) revela falta de higiene elementar.

    A esquerda e a direita são a demonstração do analfabetismo da idade contemporânea. Um analfabetismo atestado pela universidade – a instituição do analfabetismo medieval – que afirma que se devem manter os parasitas da humanidade ao invés de se respeitar as regras de higiene da humanidade que nos libertam deles.

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